Nota do Editor: esse livro me surpreendeu, em um primeiro momento, porque nunca havia visto (ou lido) - amiúde - algo tão próximo da liberdade casual, tão perto de raízes intrínsecas, assim, expostas numa obra, como se uma pessoa comum fosse, haja vista, ter eu sempre observado, nele, a imagem grandiosa de uma figura política tão envolvida com inúmeros movimentos nacionais e internacionais extravagantes. Na verdade, foi um equívoco inicial. Logo depois lembrei: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia", do russo Liev Tolstói, um dos escritores mais importantes da literatura ocidental, e autor de clássicos como "Guerra e paz", "Ana Kanênina" e "A morte de Ivan Ilitch".
Segundo, porque nunca havia lido - de José Sarney - ou ouvido histórias com realces arquitetados sem formalidades acadêmicas, as quais foram transformadas em histórias e fantasias fabulares, digna de castelos encantados e princesinhas ávidas para dormir em sonhos de príncipe. Ele mesmo diz, de forma manifesta: "(...) sempre gostei de contar estórias". E isso, com certeza, deve ter herdado do avô Assuéro.
É claro e evidente que o livro de José Sarney, com mais de 300 páginas, envolve outros personagens e outros mundos. Porém, para mim, a inclusão desse farto período vivenciado no Maranhão, onde ele aproveita para proferir seu discurso-raiz, me chamou muito atenção.
Só com um detalhe: muitas das 'estórias' contadas no livro, na verdade, são históricas ricas, documentadas ao longo do tempo, contadas com perfeição de quem sabe contar, porque vivenciou ou ouviu de quem participou dos episódios ali expostos. Muitos dos personagens citados na obra, eu também cheguei a conhecer, na época em que fui Oficial de Gabinete do governador Nunes Freire. E de muitos desses, um ainda me traz saudade pela maneira da conversa fácil, da malícia, da mangação e da astúcia. Ao ler seu nome, muita coisa acabou revivendo em mim, pois a ele, tinha-lhe muita afeição. Trata-se do inesquecível Michel Nazar.
No mais, um detalhe importante: "Galopes à Beira-Mar", foi-me enviado em março do ano passado, como presente de aniversário pelo meu querido amigo Wellington Reis, a quem, de público, agradeço. Abaixo, transcrevo uma das histórias do livro, referente ao Comendador Satyro, cujas peripécias são dignas de quaisquer prêmios para 'causos' excêntricos. (Mhario Lincoln).
"(...)
COMENDADOR SATYRO
Em toda parte, existem na memória as figuras populares que enchem o cotidiano das cidades. No Maranhão não é diferente. Temos muitos: um deles era o
Comendador Satyro Pamphilo, que andava sempre de casaca preta, cartola e bengala. Ele estava sempre muito sóbrio e sério, cumprimentando todos os que passavam por ele.
Mas a sua fama maior era por causa do espetáculo que fazia todo ano, chamado "A queda da bandeira". Satyro fazia os convites à mão e colocava embaixo das portas das casas; levava quase todo o ano convi- dando para sua festa no teatro São Luís - que depois passou a se chamar teatro Arthur Azevedo.
O espetáculo resumia-se no seguinte: no dia 7 de setembro, ele colocava uma mesa, forrada com um pano verde, em cima do palco, bem na frente, e uma escadinha atrás dessa mesa, de onde ele subia. O espetáculo era muito popular, sobretudo entre os estudantes de direito, cuja faculdade ficava em frente do teatro. Às 7 horas da noite, em ponto, o Comendador Satyro entrava no palco e subia na mesa. Uma fanfarra tocava o Hino da Independência. Então, Satyro se enrolava na bandeira e se atirava lá de cima, no meio da estudantada, que o recebia nos braços; não poucas vezes, ele ia ao chão.
O público aclamava e gritava:
- De novo! De novo! De novo!
E o Comendador Satyro subia novamente e tornava a se atirar no meio do pessoal. Era uma pataquada (como se dizia naquele tempo) terrível! Mas era célebre na cidade a "Festa da queda da bandeira do Comendador Satyro".
AS EMBÓFIAS
De Satyro também havia outras histórias, porque ele se dizia Comendador. Ele escreveu um livro Embófias de um cérebro inlustrado, construindo um dicionário com uma série de palavras que ele inventou.
Meu pai, quando tinha uma festa de aniversário, citava o Satyro dizendo: "Temos hoje um ispiquitó". Era uma palavra dicionarizada pelo Satyro, com a seguinte definição:
"Anatalácio de donzela moça." Outro termo era como ele definia polêmica de jornal: "metrandação". E acrescentava: "metrandação cerebral".
Política era "rega-bofe de anacoretas".
Quando ficava sabendo que haveria festas de aniversário, de casamento, ele se apresentava aos anfitriões e era difícil que não improvisasse um versinho. Foi assim que, na casa da dona Doca, que aniversariava uma das filhas, ele saiu-se com esta:
Matilde, Maria e Maroca
Três estrelas divinais
São filhas da dona Doca...
Parou, procurou a rima e, não a encontrando, fechou com esse verso:
...Com três diferentes pais.
Não é preciso dizer que foi expulso da festa.
A verdade é que, na paisagem das figuras populares, até hoje Satyro deixa muitas saudades.
Mas nunca esquecemos disto:
Matilde, Maria e Maroca
Três estrelas divinais
São filhas da dona Doca.... ...Com três diferentes pais (...)". Às págs. 204/205.
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