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Brasil ENTREVISTA (02)

Exclusivo: Renata Barcellos entrevista Rolande Paule Rozen Fichberg

Tema: "Movimentos feministas". (BarcellArtes). Parte 02.

13/03/2023 17h07
Por: Mhario Lincoln Fonte: Renata Barcellos
Parte 02/A entrevista
Parte 02/A entrevista

Entrevista

1-No Brasil dos séculos XIX e XX, os movimentos feministas surgem por iniciativa, geralmente, de mulheres de classes médias e abastadas. Propõem pautas de lutas sociais por igualdade em relação aos homens, contidas nos marcos de uma determinada igualdade: a das mulheres para com os homens de mesma posição social. A partir desse contexto, como foi a sua entrada e participação? Ainda mantém contato com as integrantes de algum deles?

Resposta: Vou discordar um pouco de você nesta pergunta, pois, no Brasil, no século XIX, já temos relatos de mulheres extraordinárias que já lutavam pelos seus direitos. Podemos citar no Nordeste Bárbara de Alencar, a primeira presa política por lutar pela independência, em 1817, Pernambuco/Ceará e Bahia. No Rio de Janeiro, na Serra da Mantiqueira, Mariana Crioula liderou a fuga de escravos com Manuel Congo, em 1838. Princesa Isabel com a Lei Áurea em 1888. Isso dito, não eram mulheres de classe média, em exceção à Princesa Isabel. Quando chega a República, as mulheres vão à luta novamente por seus direitos. No início do século XX, em 1908, 15 mil mulheres marcharam pelas ruas de nova York por melhores condições de trabalho e diminuição de carga horária e direito ao voto. Em 1910, as mulheres no Brasil, seguindo a tendência mundial, fazem movimentos reivindicando o direito de votar. A Professora carioca Leoldina de Figueiredo Daltro, em protesto, fundou o Partido Republicano Feminino, considerado o primeiro partido político feminino. Em 1917, no dia 8 de março, na Rússia, houve uma greve de 90 mil operárias contra o Czar Nicolau II, pelo direito ao pão e à paz. Forçado o Czar a abdicar, elas conseguem, pelo governo provisório, direito ao voto. Neste contexto, as mulheres no Brasil se manifestaram durante a Semana de Arte Moderna, em 1922, e se projetaram (nesta época) Pagú, Tarsila do Amaral, Chiquinha Gonzaga, Maria Lacerda de Moura e Bertha Lutz. Elas fundaram a Liga para a emancipação internacional da Mulher, um grupo de estudos pela igualdade política das mulheres. Em 1932, durante o Estado Novo, Betha Lutz (bióloga e deputada) consegue o direito do voto para mulheres; em 1937, ainda durante o Estado Novo, Romy Medeiros, Jurista e Deputada, conseguiu a lei federal que acaba com a tutela do marido - a partir desta data as mulheres não precisam mais da autorização do marido para trabalhar ou estudar. A ditadura de Vargas se estende até início da II Guerra e os movimentos param, reiniciando nos anos do final da Guerra, em 1945, com a luta “O Petróleo é Nosso” e as mulheres voltam ao cenário. A volta da democracia faz com que os movimentos operários e camponeses ocupem um lugar de destaque com a participação das mulheres. Havia várias organizações femininas nos sindicatos, nos partidos políticos. Mas, em 1964, o golpe militar, a repressão mantém todos os movimentos sociais fechados. Durante esse período, já nos anos de 1970 (precisamente em 1973), com a legalização do aborto nos Estados Unidos, em 1975 na França, ressurgem os movimentos feministas. Nesse momento, Romy Medeiros reorganiza o Conselho Nacional de Mulheres do Brasil. É neste contexto, em 1975, que eu me integro aos movimentos, já como cidadã brasileira e não mais com imigrante sem pátria. Esse Conselho tinha o apoio de muitas feministas importantes, e tenho muito orgulho de ter convivido com essas mulheres brilhantes, algumas ainda vivas, outras já fazem parte da história. Segue nomes de algumas delas: Moema Toscano: socióloga, professora, escritora, feminista; Rose Marie Muraro: escritora, feminista; Carmen da Silva: socióloga, escritora, tinha uma coluna na Revista Claudia; Claudia. Heloneida Studart, escritora, teatróloga, feminista, mandatos de Deputada Estadual/RJ. Zuzú Angel: estilista, feminista; Eu, Rolande Paule Rozen Fichberg, na época: empresária, e várias outras, enfermeiras, domésticas, costureiras, camponesas, sindicalistas etc. Nossas reuniões eram na Escola de Enfermagem, no Flamengo, sempre com um número acima de 40 mulheres. Naquele momento, a luta era para a reconhecimento do direito de carteira assinada para empregadas domésticas, com direito a férias e fundo de garantia, e a lei para o divórcio. Não havia ainda movimentos separados como hoje temos, contra a violência doméstica da mulher, feminicídio, discriminação contra negras, o direito de escolha de gênero. Essas lutas hoje, com várias vertentes só é possível a partir das conquistas do passado.

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2-Em uma parte de seu relato no livro Meus companheiros de viagem, a senhora menciona a primeira assembleia realizada no dia 31 de janeiro de 1979, no restaurante Patati-Patatá, no Ingá, em Niterói. Quais foram as participantes? A iniciativa foi de quem? Quais foram as motivações?

Resposta: No desdobramento deste movimento, surge, no Rio de Janeiro, um grupo de mulheres, que cria o CMB - Centro da Mulher Brasileira. Este movimento também era reivindicatório, mas era político no sentido amplo do termo, organizando vários debates, jornadas e congressos, para debater a questão feminista, com a visão, entre outras, de Simone de Beauvoir, Betty Fridan... Era um grupo formado por outro tipo de mulheres, que se voltavam para a cultura, para direitos iguais para homens e mulheres, mas não para um ativismo de reivindicação de leis, como as ações de Romy Medeiros. A Professora Hildete Pereira, a Advogada Comba Marques, e algumas mulheres do Conselho se integram a esse novo movimento, inclusive eu. Posteriormente, criamos um núcleo do CMB em Niterói, fizemos várias reuniões no Patati -Patatá, e tivemos várias adesões de mulheres na cidade - Professoras da Universidade Federal Fluminense, estudantes, podemos citar entre elas Prof.ª, Ismênia Lima Martins, Prof.ª Maria Felisberta Trindade Jardim, Dr.ª, Celina Vargas do Amaral Peixoto Moreira Franco (então Primeira-Dama do Município), Ligia Cunha, e tantas outras... Chegamos a fazer 4 congressos, vários eventos com palestras; a instalação se deu em março de 1979, durante três dias, antes do dia 8 de março Dia Internacional da Mulher.

3-Em outra parte de seu livro Meus companheiros de viagem, a senhora menciona o ano de 1982 e relata “... a Constituinte e as Diretas Já, que acabaram por suplantar o Movimento Feminista e consequentemente causaram seu esvaziamento”. Qual era o contexto e influência nos movimentos feministas?

Resposta: Eu integrei como Vice-presidente por dois mandatos, mas a luta pela redemocratização era muito forte - em 1979, já se falava em abertura política e a volta dos companheiros exilados. Neste contexto, as mulheres se empenharam em iniciar o movimento pela Anistia, aproveitando o momento em que tínhamos direito à voz. E assim se deu o início do nosso apoio à ex-presa política, advogada Terezinha Zerbini, em São Paulo, que criou Movimento Feminino pela Anistia. E, assim, eu passei a integrar também esse movimento, no núcleo de Niterói como tesoureira, fazendo campanhas para angariar fundos para receber os exilados. E, posteriormente, no movimento Diretas Já.

4-O Decreto 23.769, de 6 de agosto de 1985, criou a primeira delegacia da mulher e estabeleceu que esta deveria investigar determinados “delitos contra a pessoa do sexo feminino”, previstos no Código Penal. Qual a contribuição desta conquista e como observa o funcionamento efetivo delas no Brasil contemporâneo?

Resposta: Esta uma das conquistas da atualidade das mais importantes, pois as mulheres eram sempre destratadas pelo machismo histórico brasileiro.

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5- Qual mensagem deixa para as mulheres das diferentes idades, cor, credo?

Resposta: As mulheres devem continuar indo à luta por seus direitos. Tanto faz a vertente, o importante é que, mesmo sendo difícil se chegar às vitórias, mesmo existindo derrotas, continuarmos este caminho, pois, com certeza, um dia chegaremos lá. Com igualdade, sem discriminações, sem preconceitos, com direito a escolha de gênero, em um mundo onde se respeite a natureza, em um mundo de paz.

De feminista para feminista: pergunta de outras engajadas em movimentos feministas:

Marlene de Fáveri (professora da UDESC e autora de livros como Se pulsa, arde e resiste): Olá, Rolande, prazer de falar com você. Curiosa para ler seu livro O Moinho. Sou Marlene de Fáveri, participo de movimentos Feministas a partir de Florianópolis, capital de Santa Catarina, sou Historiadora, escritora e poeta. Os movimentos feministas hoje são plurais, com pautas variadas incluindo raça, classe, geração, sexualidades, antietarismo, anticapacitismo e outras lutas.  Você fez parte de movimentos feministas, eu gostaria de ouvi-la sobre estes movimentos, suas pautas e onde. Muito obrigada!

Resposta: Hoje, tenho 83 anos, sou escritora, escrevi dois livros, o último, lançado no ano passado O moinho, revisitando a minha história com a organização de Sofia Debora Levi. Sou sobrevivente do Holocausto e de dois CA, é muito difícil para mim atuar em várias frentes. Hoje, me dedico mais à questão da volta do Nazi-fascismo que está ressurgindo no mundo. Como sobrevivente ainda viva, deste horror que foi o Holocausto, estou me dedicando mais a esta tarefa, levando a minha voz para alertar as novas gerações para que fatos iguais não se repitam jamais. Tenho feito palestras presenciais e online por este Brasil afora, em Universidades, escolas fundamentais, profissionalizantes, grupos de estudos, igrejas, além de ser ativista na comunidade judaica. Sendo assim, hoje, depois de escrever dois livros sobre o tema, acho que minha missão mais importante é essa. Deixo para as mulheres mais jovens seguirem esta luta dos direitos da mulher, que tanto fez parte de minha viagem pela vida, tendo muito orgulho de ter participado dessas mil transformações da Humanidade através do século XX e XXI. Mas, com certo pesar por não ter visto, nestes meus 83 anos, a Paz mundial tão almejada.

Maria Mary Ferreira (professora e pesquisadora, na UFMA): O feminismo na atualidade se divide em muitas correntes de pensar, entre as quais o feminismo liberal, o feminismo plural, o feminismo negro. Todas essas linhas de atuação se articulam em torno de bandeiras, dentre elas a Luta contra a Violência de Gênero, ponto aglutinador das lutas feministas. Você poderia comentar quais as bandeiras que as feministas históricas do início do Século XX além do voto, quais as bandeiras que eram consenso? Quais as vitórias mais comemoradas além da conquista do Voto Feminino?

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Resposta: As lutas e as reivindicações de hoje, neste desmembramento, são grande parte as mesmas do passado. Porém, ainda não alcançadas. A luta continua, porem as conquistas não são suficientes, ainda não alcançamos todas as vitórias. Mas para chegarmos a este ponto, muitas águas rolaram neste oceano e hoje a nossa voz é mais forte, pois nos sentimos mais seguras, por ter chegado até aqui. Vamos lembrar algumas conquistas do século XX: primeiramente, em 1932, o direito ao voto logo depois, a conquista da emancipação da mulher com relação a tutela do marido. Elas já não precisariam mais da autorização para trabalhar ou estudar. Com isso, puderam ingressar para universidades e escolher a carreira que queriam seguir. Saíram de casa e foram trabalhar fora, aí veio a conquista da carteira assinada, e o direito de aposentadoria, para as mulheres que eram “do lar” ampliando para as empregadas domésticas. Outra luta importante foi a lei do divórcio, as mulheres puderam se dar o direito a reconstruir suas vidas, pois enquanto havia o Desquite, as mulheres se tornavam “mal vistas” e não podiam se casar novamente. Nos anos 50 e 60, aconteceu a revolução da pílula anticoncepcional, foi quando a mulher teve condições de querer ou não ter filhos, ou escolher o momento mais propício. Mas a luta foi muito grande no sentido de alertar as mulheres, de não permitir que a tutela do Estado, durante a ditadura militar nos anos 70, de fazer o controle da natalidade distribuindo anticonceptivos para mulheres de camadas mais pobres. O que era isso?  O Governo autoritário decidiu, reduzir a pobreza, fazendo com que as mulheres não tivessem mais filhos, novamente a tutela do homem sobre as mulheres e a tentativa de   serem manipuladas.  Assim, as feministas levantaram mais esta bandeira. A Violência doméstica nunca foi esquecida, para as feministas, nem a questão do direito de ser donas do seu próprio corpo. A questão sexual e de gênero sempre esteve na pauta. Por isso, a luta deve continuar e diversificar, pois hoje a realidade está escancarada. A mídia e os canais de divulgação e aplicativos estão praticamente ao vivo,  a violência a descriminação,  contra o negro, contra a comunidade LGB é vista , no ato, graças a câmeras espalhadas por todos os lados e celulares. Já, no século XXI, as conquistas foram mais expressivas, mas ainda falta muito, não vamos relaxar. Estamos atentas...

Ao elaborar as questões para Rolande Paule Rozen Fichberg e convidar Marlene de Fáveri e Maria Mary Ferreira para dialogar com ela, não imaginava quão de informações, de experiências relatadas... Agradeço as 3 convidadas pelas contribuições e parabenizo-as pelo engajamento nos movimentos feministas. Que venham mais conquistas!!!

Concluo esta entrevista com um fragmento do poema Feminismo, de Marlene de Fáveri: O Feminismo é generoso: assevera //direitos e assegura a equidade, // denuncia opressões, sexismo, // violências e propõe a igualdade. // Afirma-se com a democracia // e não tem volta: é liberdade. // Mulheres de todo o mundo, uni-vos!” (pág. 33 do livro Se pulsa, arde e resiste).

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JAIME Há 3 anos atrásBSB/DFMagnífico, excelente, show!!!
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