O ULTRANEO-ESCRAVISMO BRASILEIRO
João Batista do Lago1
INTRODUÇÃO
Neste artigo tenho a intenção de demonstrar que o processo do escravismo ou escravagismo brsileiro nunca se o desfez da condição de “Ser” do Brasil.2 Nesses primeiros dias do ano em curso (2023)3 assistimos estarrecidos ao desmonte de vários acampamentos de trabalhadores que se encontravam na condição/modo ou estádio de verdadeiros ultraneo-escravos. Esse desmonte dos acampamentos fez-me acreditar que há, ainda, muitos outros pelo país afora. Diante dessa perspectiva ou por causa dessa perspectiva, ouso inferir que, no Brasil, a escravidão e o seu principal epígono – o Racismo - jamais foi (totalmente) eliminado. A pergunta que não quer calar é: por quê convivemos com esse paradigma até os dias atuais?
Apesar da complexidade que a resposta invoca tentarei traçar, sob o manto do meu empirismo, resposta plausível capaz de desenvolver e provocar no leitor comum alguma tipologia de curiosidade, conhecimento ou sabedoria, sobre esse terrível e abominável ‘mau’ brasileiro, convicto de que estou proporcionando material mínimo para o entendimento dessa problemática. Antes, porém, de lhes sugerir qualquer resposta penso ser indispensável e fundamental – mesmo que superficialmente – entender genericamente o que é estádio4 de escravidão e como e porque se concretiza; seja no particular, seja no público.
Penso que, originalmente se cria, a partir do desejo subjetivado no ser humano, ou seja, pessoas trazem consigo, cognitivamente, a tipologia do egoismo inteligente e raciocinado. Isto me faz lembrar uma hipérbole criada por Arthur Schopenhauer5 no livro Dores do Mundo, onde infere que “(…) Muita gente seria capaz de matar um homem para se apoderar da gordura do morto e untar com ela as botas (…)”. Seguidamente ele auto interroga-se dizendo para si que “Só me resta um escrúpulo: será realmente uma hipérbole?”. Essa interrogação axiomática do filósofo alemão sugere-me depreender que na origem da escravidão reside em alto grau o Egoísmo ― racional e consciente.
Ao escravizador ou escravagista, pouco ou mesmo nada, importa, pois, subjetivamente ele arroga-se no direito de decidir sobre a vida e morte do outro em prol de si mesmo, isto é, o que interessa mesmo é sobrepor-se ao escravizado, garantindo dessa forma o naco de poder que subjuga outros corpos. Pode-se, ainda, traduzir o pensamento de Schopenhauer naquilo que conhecemos contemporaneamente como capitalismo selvagem (mas isso não vem ao caso aqui e agora).
Outro filósofo (também alemão) que não pode ser dispensado desse diálogo ― quer concordemos ou não com ele ― é o Sr. Hegel.6 É claro que o considero um dos principais mestres da filosofia universal; mesmo assim, há coisas nele que são de arrepiar e com as quais não concordo, ainda que respeite seu tempo de fala ou seu topoi. Quando, por exemplo, escrevera em suas Lições sobre Filosofia da História, destacando que a África não tinha interesse histórico e que os africanos eram pessoas que viviam na “barbárie e na selvageria sem se ministrar nenhum ingrediente da civilização”, nada mais fez a não ser banalizar, naturalizar, justificar e, até mesmo, legitimar a dominação de uns corpos sobre outros corpos.
É lógico que, para esse caso, queria dar preponderância e prerrogativa de poder a uma tipologia maquínica do europeísmo hegemônico. Com isso, o Sr. Hegel produziu histórica e dialeticamente a ideologia do dominador/dominado ― no caso presente do escravizador-escravagista/escravizado ou do senhor/escravo.
Ouso afirmar que o impacto do seu pensamento foi deveras aterrorizante, além de ter sido um golpe fatal no pensamento humanista ― e socialista ― de então, com reflexos até os dias de hoje. Ouso afirmar que o pensamento do Sr. Hegel contribuiu sobremaneira para a solidificação do Capitalismo, tendo como pano de fundo o Liberalismo surgente de então, e que congregava na sua anima a noviça elite capitalista desejosa de ascender ao Poder ― de fato e de direito. Ouso afirmar que historiadores e filósofos, assim como intelectuais de toda espécie, além de políticos e empresários em geral, e ainda os grandes produtores rurais, à direita e à esquerda, não só ‘compraram’ a ideia como a reproduziram e a difundiram efusivamente, nas academias e nos mais diversificados campi geradores do conhecimento científico (ou não!), com apoio incondicional da imprensa burguesa hegemônica e tradicionalista.
Esse paradigma do Sr. Hegel vestiu com perfeição ímpar os adoradores da Ideologia do Dominador/Dominado. Serviu, inclusive, para invisibilizar o liberal-capitalismo europeu e norte-americano, prenhes da vontade do poder social, político e econômico; consequentemente ávidos do desejo do egoismo inteligente e raciocinado. Para além disso, invisibilizou (também) povos indígenas originários da América do Sul e da América Latina. Serviu mais ainda para invisibilizar o principal epígono da Escravidão ― o Racismo.
Do alto da sua cátedra, o Sr. Hegel, obrou e rezou o catecismo do senhor e do escravo, ou seja, para ele só existem dois modos de vida: o dominador e o dominado; para ele o dominador é o corpo do reconhecimento ou do reconhecido: o senhor; para ele o corpo dominado é o corpo do desconhecimento ou do desconhecido: o escravo. Aos meus olhos, portanto, é nisso que se resume a dialética do Sr. Hegel: devido a esse modo de ser, o senhor intimida o escravo e o obriga a trabalhar para ele. Este trabalho não é um processo que “cria” o escravo, senão uma imposição que o transforma em um simples objeto de trabalho. No entanto, o senhor acaba dependendo do escravo para a sua própria sobrevivência. E sempre existe um momento onde os papéis se invertem, porque o escravo acaba sendo indispensável para o amo, mas ele não é imprescindível para o escravo.7
(Continua)
1João Batista do Lago é jornalista, livre-pesquisador, poeta e escritor.
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2“Para Aristóteles e Cícero a Filosofa tem origem no desejo e na curiosidade naturais de conhecer a verdade, porque conhecendo a verdade o homem orienta-se para viver bem. O desejo de conhecer a verdade ou as coisas universais e viver bem são impulsos que derivam da espontaneidade natural do ser humano. Se o homem reflete a verdade que nasce do seio da própria identidade ele aprende como agir para construir os valores da própria existência e realizá-la. Conhecendo a si mesmo, as coisas e as razões das mesmas, o homem usufrui de um prazer ordenado. Quando o homem conhece as coisas em base à causa primeira ou última que é seu ser, ele aprende administrar a própria existência em vantagem da vida pessoal e social. Esse conhecimento denomina-se sabedoria.” - (172.pdf (ontopsicologia.org.br).
3Este artigo foi escrito em março/23
4Fase, época, período de um processo: os diversos estádios de uma evolução (NA)
5"Arthur Schopenhauer foi um filósofo que criticou as explicações racionalistas sobre o fundamento da realidade e elaborou uma reflexão centralizada em um conceito metafísico que nomeou como “vontade”. Embasou muitos aspectos de sua teoria em Immanuel Kant, criticando-o, contudo, pela sua proposta de fundamentação moral. Opôs-se fervorosamente a Georg Wilhelm Hegel, estendendo sua crítica a Friedrich Wilhelm Schelling e a Johann Gottlieb Fichte."
6 Georg Wilhelm Friedrich Hegel (conhecido como Hegel) foi um importante filósofo alemão do final do século XVIII e começo do século XIX. Foi o fundador do Hegelianismo que se baseava na ideia principal de que a realidade é capaz de ser expressa em categorias reais.
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