NE: O prof. Charles Martim foi convidado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, dentro das comemorações alusivas ao Dia Internacional da Mulher, em homenagem a romancista maranhense Maria Firmina dos Reis.
Autora: Renata Barcellos (BarcellArtes), convidada da Academia Poética Brasileira.
Palestra proferida pelo professor, pesquisador, fotógrafo e cineasta de Charles Martin, no dia 16 de março, às 18:00, no Museu Histórico e Artístico do Maranhão, em São Luís, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher (8-3) e ao Dia da Mulher Maranhense (11-3: instituído pela Lei nº 10.763, de 29 de dezembro de 2017, em homenagem à escritora maranhense Maria Firmina dos Reis, autora do primeiro romance abolicionista do Brasil).
“Contar ou registrar?
“Em certos casos “estória” é entendida a ver com ficção, configurar um conto.
A “história” pode então ser tomada como fatos, como eventos reais. Na verdade: a história é apenas os fatos, os eventos, as pessoas envolvidas. A escrita desse material em relatos e livros é a historiografia: a escrita da história, assim como a biografia é a escrita de uma vida. A história acontece. Mas a forma escrita dela é feita.
Agora, vamos considerar uns aspetos da estória e da história do romance Úrsula e a escritora dele, Maria Firmina dos Reis. Para mim, a importância de Maria Firmina não tenha a ver com ela ter sido uma das primeiras escritoras ou escritores negros do Brasil, mas sim pelo trabalho dela ser essencial. Não pelo que era, mas pelo que ela fez: ela contou uma grande estória. É uma estória de respeito.
Respeito entre dois jovens homens, Túlio e Tancredo, o primeiro sendo um negro escravizado, o segundo um homem branco livre. Os dois ficam representados, cada um, de coração aberto e de mentes do mesmo nível alto de entendimento. Isso, na história, se encontra pouco nas estórias. Os dois entendem a importância, a essência da liberdade, e Tancredo faz que Túlio consiga alforria. Um outro aspecto de liberdade, igualmente forte no livro, é o desejo de ter igualdade num casal e nesta parte o Tancredo mais uma vez figura, esta vez pelo amor que se desenvolve entre ele e a heroína do romance, a Úrsula. Os dois do casal desejam simplesmente amar e ser amados: ser respeitados, o que o romance mostra ser dificultado pela sociedade e pela a desigualdade dela muitas vezes criada entre homem e mulher. O romance relata estórias disso indicando vítimas e auto-vítimas de tais atitudes. E, ao final da estória—coisa frequentemente vista na história de todos os tempos até agora – o desejo para amor sem tais obstáculos muitas vezes fica destruído.
Úrsula notavelmente conta várias estórias dos escravizados-- pessoas que, na história, tinham culturas, passados e lembranças das terras natais, mas só raramente recebiam em estórias tratamentos tal detalhados e balançados como neste romance.
Apesar da beleza e importância dessas estórias, a criadora delas, Maria Firmina, na história, foi geralmente negligenciada, esquecida. Hoje em dia a história reconhece ela muito mais. Há quem diz que um escritor como o Machado de Assis, também de ascendência negra ficou reconhecido mais facilmente por ele ser homem.
Certamente este é o caso, mas Machado foi promovido mais do que Maria Firmina por causa do conteúdo das estórias dele. Com certeza a escrita dele é lindamente feita, intrincadamente tramada, e cheia de ironia e insinuações. Muito mais sutil e elegante as estórias dele são para com a escrita de Maria Firmina. Porém, acho que a diferença que facilitou a elevação dele e atrasou a posição dela seria que ele não levantou as considerações difíceis de raça que são levantadas por Maria Firmina.
Ou seja, ele foi um escritor mais fácil de digerir para a época, não só do Brasil escravizador, mas de toda a máquina de produção cultural do ocidente. Ela enfrentou as questões, ainda por encarar, que ele deixou ao lado. Machado não tinha personagens como ele mesmo: personagens negros pensativos, como se encontra em Úrsula. Ele escreveu estórias que seduzem. Ela fez estórias que analisam. Provavelmente ele nem entendeu que ele era negro, ou tinha sido treinado para esquecê-lo ou fugir o fato. Essa atitude não faz parte da obra de Marina Firmina, e aposto que tenha a ver com a relativa diferença do tratamento dela pela história: Ela contou estórias que a história não facilmente registrava. O que acontece quando a estória é diferente? Quando a estória vai contra a corrente?
Quando a estória vai contra o típico? Quando a estória vai contra a história?
Hoje em dia, há muita discussão de “inclusão” de pessoas variadas de raça, gênero, idade, origem. Mas devemos lembrar que diferença de ponto de vista é importante reconhecer e respeitar e o exemplo de Maria Firmina se ergue bem.
Somos produtos de treinamento, não só de vontade. Precisa de muito valor para quebrar e abrir treinamento, educação. Nesse sentido, a história, em muitos aspetos, são as estórias usadas para explicar eventos e ocorrências. Pessoas como Maria Firmina mudam as estórias, e fazendo assim, abrem a história ou, mais precisamente, alteram e abrem a historiografia para melhor e mais amplamente contar história.
A revisão, claro, é uma prerrogativa da história: revisar a maneira como a história é vista. Não necessariamente para mudar os fatos e eventos -- mas para interpretá-los de maneira diferente, para contar estórias diferentes sobre eles, de acordo com os tempos atuais, ou para mudar os tempos atuais. A história não muda, mas a historiografia sim: o modo de contar a história muda: a ênfase, as escolhas do que contar e o que deixar de fora. Ou seja, a forma como a estória é contada muda, e às vezes, os contadores e as contadoras mudam também.
Maria Firmina dos Reis contou uma grande estória e sua própria história está sendo revisada. José Nascimento Morais Filho falava dela como a primeira escritora a escrever um tema genuinamente brasileiro. Vamos lembrar que ela foi esquecida em seu tempo. Quem é esquecido em nossos tempos?
Mais uma estória: um pesquisador norte-americano encontra um brasileiro, o Nascimento Morais Filho. Este conta para o outro a história de Maria Firmina dos Reis. O pesquisador, procurando coisas de destaque da cultura negra no Brasil, presta atenção. E coloca a obra da Maria Firmina em contextos no campo mundial, vendo além do Brasil. De fato, descobri informações sobre Úrsula por sorte. Pela sorte, em 1982 de visitar São Luís do Maranhão depois de algumas pessoas terem me indicado aquela região. Pela sorte de ter conhecido— provavelmente num café, não me lembro onde—o escritor e pesquisador José Nascimento Morais Filho. Ele, ao saber que eu estava procurando produções de cultura negra, especialmente em formas escritas, me fez conhecer o romance, Úrsula. Ele me levou à biblioteca Benedito Leite, pegamos uma cópia do livro, e comecei a lê-lo. Repito: tive muita sorte. E isso faz parte da história, agora. Mas a sorte não deve ocupar um papel tão importante em nossa aprendizagem.
Vamos continuar repetindo a história de Maria Firmina dos Reis, contando mais e mais estórias variadas para, como esta escritora, abrir e estender o alcance da história. Espero que, nestas notas, tenha uma estória para lembrar e continuar, não pensando dos primeiros a contar, mas aos conteúdos. Vamos reconhecer estórias que mudam a história, como vários momentos de Maria Firmina dos Reis. Vamos ver os riachos abrindo em rios!”
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Minibiografia de Charles Martim: Escreveu o prólogo à edição 1988 do romance, Úrsula, de Maria Firmina dos Reis. Serviu como chefe do Departamento de Literatura Comparada na Queens College-City University of New York de 2006-2010. Em 1992, deu o Curso de Extensão:"Raízes: Utopia, Imaginário e Identidade em Populações Negras," na Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Cuiabá. Norte-americano, ele é fluente em português e francês. Link da entrevista no Pauta Nossa: https://www.youtube.com/live/4Jds10MiG7w?feature=share
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