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Brasil TEXTOS ESCOLHIDOS

Uma das maiores radiografias existenciais de São Luís, fora da Caverna de Platão

É assinada por um bravo e inesquecível cronista: Bernardo Coelho de Almeida.

23/03/2023 09h38 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Bernardo Coelho de Almeida/Bandeira Tribuzi
Bernardo Almeida e sua obra.
Bernardo Almeida e sua obra.

Bernardo Coelho de Almeida, cronista, jornalista, político, poeta, romancista, autor de dois grandes romances: "A Última Promessa" e "O Bequimão", além de "Luz! Mais Luz" e "A Gênese Azul" (poesias) e o indescritível livro de crônicas "Galeria".

PARTE 01

Bandeira Tribuzi (mais abaixo, ilustração original do texto publicado no livro "Éramos Felizes e Não Sabíamos"). Capa de Fernando Almeida. Ilustrações de Mário Garcês. Arte-Final: Ribinha. Revisão gráfica: Herbert de Jesus Santos. Segunda edição: 1992. Obs: esta publicação consta do livro acima referido. Vem datada do ano de 1988, mas com as características urbano-sócio-comerciais de 1938, época da chegada de Bernardo a São Luís. Está conforme o original.

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NE: Esta reprodução não visa lucros, nem publicidade pessoal ou 'transferível'. Apenas uma homenagem aos grandes nomes da história literária do Maranhão e do Brasil.

 

A CHEGADA

No dia oito de setembro de 1987, quando a cidade de São Luís festejava os 375 anos de sua fundação, e rememorávamos o décimo aniversário da morte do poeta Bandeira Tribuzi, o caderno alternativo do jornal O Estado do Maranhão publicava uma crônica de minha autoria, que assim começava:

Poeta Bandeira Tribuzi. (Ilustração original: Mário Garcês).

"Pela vigia de um dos camarotes do navio Comandante Ripper, o olhar do garoto de dez anos de idade alcança a paisagem chuvosa: a colina adormecida e o casario sobreposto em diferentes planos acima do rodapé pontilhado de luzes que se refletem nas águas da baía de São Marcos. A partir daquela madrugada de fevereiro de 1938, o meu destino estaria para sempre encravado em São Luis igual aos empedernidos alicerces de seus velhos sobrados, de cujos mirantes apascento sonhos, luares e saudades".

Naquele tempo não podia existir cidade mais amena e encantadora do que São Luís do Maranhão. Sua população não ia além de noventa mil habitantes. Ninguém falava em desemprego, palafitas e gente faminta. As fábricas de fiação e tecelagem Santa Isabel, Santa Amélia, Camboa, Rio Anil e Cânhamo - que nos acordavam ao alvorecer com o silvo de seus longos apitos davam guarida a milhares de operários saudáveis e felizes.

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O grande comércio local orgulhava-se da solidez inabalável de seus estabelecimentos, com reduto na Praia Grande. Ali estavam Martins & Irmãos, fabricantes do algodão hidrófilo de melhor qualidade do Brasil e do sabão Martins "sempre imitado e nunca igualado", referido nos apelos de solidariedade humana, quando se dizia que "uma mão lava a outra e o sabão Martins lava as duas". Subia-se ao escritório dos aristocráticos diretores da firma em um pequeno elevador gradeado, o primeiro de São Luís, hoje transformado em peça de museu.

Cunha Santos, Gaspar Marques, Chagas e Penha, Lages & Cia., Romão dos Santos, Azevedo e Moreira, Chames Aboud, Baptista Nunes, Moreira Sobrinho, Lima Faria, Francisco Aguiar (com sede na Avenida Pedro II), Silva Linhares e outras firmas formavam uma elite comercial que não dependia de crédito bancário para reforço de seus negócios, salvo do Banco do Brasil, nas transferências de valores a outras praças, e, mais para prestigiá-lo, dos serviços do velho Banco do Maranhão, detentor da segunda carta patente mais antiga do Brasil, concessão de uma época em que lhe era assegurado o privilégio de emitir papel-moeda.

Nas tradicionais mercearias da cidade éramos saudados sempre em amável sotaque lusitano; nelas podíamos comprar o melhor bacalhau, puro azeite de oliva, bons queijos, nozes e requintados vinhos portugueses, mais facilmente e de melhor categoria do que se compra hoje uma mercadoria qualquer nos modernos supermercados. A Casa Dias (onde agora funciona a Sapataria Clark), a Casa Branca e o magazine A Exposição sustentavam a moda masculina - a primeira com a venda exclusiva dos famosos chapéus Ramezzoni, indispensáveis adereços da elegância dos cavalheiros.

O Bazar do Japão, as livrarias Universal e Moderna, as padarias, as alfaiatarias, estúdios fotográficos (um se chamava Londres, e o outro Berlim) e as farmácias, com laboratórios de manipulação, localizavam-se em pontos dispersos. Contudo, o império do comércio varejista concentrava-se, no "quarteirão sucesso da cidade", como era denominada a primeira quadra da Rua Grande.

Ali ficavam as grandes lojas de tecidos Rianil e Pernambucanas, a Sapataria Cleópatra (do Romualdo), a Padaria Cristal (do português Frias), a Farmácia Garrido, o bazar de Valentim Maia e o café do baixote Pataquinha, pois acima do cinema Éden era menor o movimento, sobressaindo-se a Mercearia Lusitana (embrião da poderosa cadeia de supermercados dos dias atuais), a loja Otomana e outra, de um carcamano alto, magro, que usava enormes suspensórios (pai de Hédel Azar), a alfaiataria de Carlos Souza (que confeccionava a farda de gala azul-marinho, com alamares dourados, dos alunos dos Maristas), o "Quatro e Quatrocentos" (Lojas Brasileiras) e, lá adiante, no canto da Rua de Santa Rita, em belo prédio "art nouveau", a conceituada Mercearia Neves. Nenhum de nós poderia imaginar o que seria a Rua Grande de hoje, com essas movimentadas agências bancárias, os fervilhantes magazines e a multidão dos camelôs aos quais se juntam milhares de transeuntes para torná-la um formigueiro humano.

A cidade contava apenas com meia dúzia de "carros de praça". O automóvel do Dadeco dava "status" a quem lhe contratava as corridas nas festas de bodas e batizados. O transporte urbano resumia-se nos bondes da Ullen Company: "Gonçalves Dias", "São Pantaleão", "Estrada de Ferro", "Areal", "João Paulo-Anil", este com o "cara dura" a reboque, para que os granjeiros da Maioba, Paço do Lumiar e outros sítios do interior da Ilha pudessem conduzir cofos de frutas e hortaliças. Nos demais, podia-se tomar assento ao lado de senhoras e senhoritas elegantes da alta sociedade, e de circunspectos desembargadores a caminho do Tribunal de Justiça.

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Era muito agradável andar num daqueles trepidantes bondinhos, que subiam e desciam as ladeiras de São Luís, com as sinetas a tocarem em aflitos pedidos de passagem às lerdas carroças, à carreta de venda de gelo, aos verdureiros, sorveteiros e vendedores de frutas da terra, camarões e peixes frescos: "Olha o peixe-pedra de Ribamar."!

Nas tardes de domingo, o passeio de bonde fazia parte do nosso lazer. Caso não se consagrassem à simples satisfação de dar umas voltas, os passageiros, todos bem trajados, desciam até à "Pracinha" (Benedito Leite), entregue à animação de uma banda de música em retreta. Além disso havia o indeclinável "footing" na Avenida Pedro II, onde a rapaziada ia flertar com as pequenas, e ficava-se a andar para lá e para cá, prazerosamente.

Depois ia-se tomar o sorvete de bacuri, graviola, murici, cajazinho, juçara ou coco, no Lauande ou Moto Bar, até a hora da sessão das oito no cinema Éden, ou do espetáculo, no Arthur Azevedo, durante as temporadas de companhias teatrais de passagem para Belém e Manaus.

Nosso pequeno mundo provinciano era singelo, tranquilo e amável. Mesmo assim fomos atingidos, à distância, pelos horrores da II Grande Guerra, transformada em prato do dia dos noticiários da imprensa e das emissoras de rádio, assim como das rodas de bate-papo no Café do Chico. O afundamento dos primeiros navios da Marinha Mercante brasileira arrastou às ruas milhares de pessoas a clamarem por uma declaração de guerra às nações do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). De repente o ódio invadia nossos corações.

Bernardo Coelho de Almeida

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José Machado:
Crédito/Câmara Federal.

(Na segunda parte, os respingos da II Grande Guerra, as Passeatas Cívicas, onde surgiram grande oradores e tribunos. Um deles, o conhecido e respeitado José de Ribamar Farias Machado, inúmeras vezes reeleito Deputado Federal/MA).

 

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Dilercy Aragão Adler Há 3 anos atrásSão LuísVerdadeira viagem por sentimentos, lembranças e a linda e velha São Luís.
Judith Bogéa Bittencourt Há 3 anos atrásSão Luís-MALembranças remotas de São Luís do Maranhão que permanecem em nossos corações, grata a você, Mhario Lincoln , por revivê-las através do seu belo artigo.
ANTONIO AÍLTON SANTOS SILVAHá 3 anos atrásPaço do LumiarVerdadeiro documento histórico e memorial da cidade de São Luís, este lugar que se transforma num próprio estado (de estar) poético. Viva BCA, ele mesmo um componente dá nossa historiografia literária, Viva SLz!
Antonio Guimarães de Oliveira Há 3 anos atrásSão LuísMagnífico! Bernardo Coelho de Almeida, era um diplomata, raiz mesmo. Educado e um homem de livros importantes. Jornais e televisão. Um excelente cidadão. Louvo esse resgate.
Maria José da Silva Há 3 anos atrásRio de Janeiro Aplauso para vc Mhario Lincoln. Uma excelente Matéria. Você da vida ao narrar artigos. Parabéns!!!
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