DISCURSO DA ACADÊMICA ESMERALDA COSTA AO TOMAR POSSE NA ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA- APB
Falar em público nunca foi o meu forte. Lembro que aos 17 ou 18 anos, fazendo um curso de iniciação teológica, no qual eu praticamente não participava na oralidade, um religioso franciscano me sacudiu fortemente e gritou: - Fala alguma coisa, você com certeza tem algo para dizer. Eu fiquei assustada e simplesmente chorei muito, naquele dia não consegui falar nada.
Na escrita porém, acontece o contrário, sempre tive uma grande intimidade com a caneta e o papel, talvez porque carregava a certeza de que não iriam rir ou reclamar do que eu estava escrevendo, nem mesmo, quando eu, pressionando fortemente a caneta contra o papel parecia que iria rasgá-lo, ele, o papel não reclamava.
Sou a sexta dos dez filhos do casal Antônio e Felicidade, durante a minha infância e adolescência, os estudos já eram bem mais acessíveis que na época da infância dos meus pais e avós, mesmo assim, a escola em que estudávamos resolveu pedir uma cota mensal a cada aluno para poder atender algumas necessidades como higiene, mimeógrafo e verduras para a merenda escolar. Quando dissemos isso em casa, meu pai falou para minha mãe: - Eles vão ter que parar de estudar, pois não posso deixar de comprar o alimento. E a minha mãe, a dona Felicidade, com sua fé, garra e coragem, respondeu: - Eles não vão parar! E então, ela começou a lavar roupas para outras famílias e cada centavo que ela ganhava, ela investia na nossa educação, era a cota da escola a compra de materiais escolares e outras coisinhas que precisávamos. Se hoje eu sou quem sou, eu devo muito a essa guerreira, que já fez e continua fazendo muito por mim e por meus irmãos. Eu tenho muito orgulho de ser filha da felicidade. Esse é realmente o nome da minha mãe.
Durante a faculdade, quando tinha que apresentar seminário, eu tremia dos pés a cabeça, mas a voz saía firme. Quando então, tínhamos que fazer produção textual e podia ser em dupla, mais de uma amiga queria fazer dupla comigo e se era em grupo então, elas ficavam despreocupadas quando eu estava na equipe. Escrever, sempre foi o meu forte, mas nunca imaginei que um dia iria me descobrir poetisa e me tornaria escritora.
Sempre fui também uma boa leitora, lembro que certa vez, tentando ajudar uma professora para que ela não perdesse o seu emprego, eu acabei passando por uma situação desagradável e constrangedora. Chorei tanto e não fossem os sábios conselhos do meu irmão eu teria entrado em depressão, mas o que realmente me ajudou a superar completamente o problema, foi quando, encontrei jogados fora de uma casa, perto de uma lixeira cerca de 10 livros e dentre eles estava "A Águia e a Galinha" de Leonardo Boff, me entreguei avidamente à leitura e a partir dela, amadureci e superei toda angústia que antes me consumia. Aquele livro, foi um presente fantástico na minha vida.
Na época em que encontrei os livros, eu estava casada e de certa forma o meu cônjuge, me limitava muito. Entre nós havia um abismo cultural enorme e eu acabei vivendo por quase 12 anos a experiência da águia presa no galinheiro.
Minha vida, porém mudou, quando recebi De um amigo o edital de um concurso intitulado "Sentimentos na Pandemia". Disse a ele que iria escrever um poema e me inscrever no concurso e ele me incentivou por demais, mesmo eu dizendo que não tinha tempo, que não era poetisa e que não iria conseguir, ele me disse: - Escreva!
Assim, em poucas horas daquela manhã, eu escrevi o soneto "Quarentena", após cada estrofe mostrada ao meu amigo, ele me motivava a escrever a próxima, enquanto eu colocava impedi-los, mas tudo bem, naquele mesmo dia, gravei um vídeo para enviar ao concurso, o primeiro não ficou muito bom, mas orientada pelo meu amigo, gravei o segundo e foi este que enviei para o concurso. Tive apoio de várias pessoas espalhadas por todo o Brasil e também de algumas de outros países. Meu vídeo foi o mais visualizado e curtido na página do concurso, e embora os robôs tivessem tentado modificar o resultado, não conseguiram. Se tivessem conseguido, eu teria sido retida no meu dom e não estaria aqui hoje. Mas estou, não tenho nada para reclamar, três coisas tenho a pedir, peço paz, saúde e proteção, não apenas para mim, mas para todos os que conheço e principalmente para os que moram no meu coração. Tenho muito para agradecer, agradeço primeiramente a Deus, por tudo que Ele tem feito na minha vida, agradeço a minha família pelo apoio de sempre e em terceiro lugar, agradeço aos meus amigos, professores, professoras, poetas e poetisas. Três poetas, eu agradeço de forma bem peculiar pela relevância de cada um no desenrolar da minha escrita, são eles, Pedro Sampaio, Marcos Silva e Pádua de Queiroz. Através do primeiro, descobri-me poetisa, através do segundo, descobri-me cordelista e do terceiro, eu ganhei a publicação do meu primeiro cordel. Hoje, eu quero agradecer também ao meu querido Papai Mhario Noel Lincoln (Mhario Lincoln), presidente da Academia Poética Brasileira, por acreditar em mim e confiar-me a responsabilidade de assumir a coluna Cordel Brasileiro no Facetubes, Plataforma virtual da APB. Estou aprendendo muito com esta experiência.
Agradeço a Linda Barros, secretária executiva nacional da APB, por todo carinho, suporte e atenção. Como é bom tomar posse hoje, tendo a oportunidade de conhecê-la pessoalmente.
Quão maravilhoso é tomar posse aqui no Grêmio de Recreio e Estúdio de Caucaia, estou em família e me sinto em casa. Tive a oportunidade de ler uma fantástica crônica de Suevan Braga sobre o Grêmio de Caucaia e acreditem, eu nem tinha chegado aqui e já me imaginava em cada canto deste lugar. Parabenizo Suevan, não só pelo texto, mas por tudo que ele, Valéria Travassos a atual presidente e todos os componentes das duas últimas gestões dos últimos quatro anos fizeram e têm feito por esta casa. Agradeço ao admirável amigo Carlos Augusto Vasconcelos por me proporcionar a oportunidade de apreciar o precioso texto, e ao mestre e amigo Pedro Sampaio por viabilizar a chegada do texto até mim.
Parabéns a todos que amam este espaço e contribuem para que ele se torne cada vez mais agradável e acolhedor. E aqui cito Tobias Correia, que Suevan nos apresenta como o cidadão que salvou o Grêmio de Caucaia nos anos 90, "afirmando ainda, que se não fosse ele, não teríamos mais esta valiosa morada. Berço da arte, da cultura e dos encontros de Caucaia. Um lugar de todos os caucaienses, que merece ser zelado, amado valorizado e respeitado por cada um. Por isso caucaienses, amém, valorizem, respeitem e cuidem deste espaço como cuidam da própria casa de vocês.
Peço desculpas por alongar-me tanto, mas quando a alma e o coração querem falar, é impossível calá-los.
Quis lhes contar tudo isso para reforçar que por mais difícil que seja o caminho, é preciso caminhar, mesmo que os problemas sejam grandes, nós temos uma força superior e outra interior que são bem maiores que todo e qualquer problema.
Atualmente, alguns me chamam de Joia Rara, outros de Esmeralda e muitos me chamam de poeta e poetisa. Mas o verdadeiro poeta é Deus, é Ele que escreve a minha história. Eu sou apenas, a caneta em suas mãos.
Muito obrigada a todos!
Esmeralda Costa,
Caucaia, 18 de março de 2023
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