Autor: Renata Barcellos
"Era uma pessoa alegre, muito criativa, que vinha
aprimorando e amadurecendo o seu fazer
poético". Josias Sobrinho
Conheci o cantor, compositor, cordelista e repentista Jeremias Pereira da Silva, cujo nome artístico é Gerô através de Jeanderson Mafra do Sarau Poético Ludovicense, quem sempre me faz excelentes indicações. Fui perguntar-lhe por um escritor negro que eu pudesse apresentar no Dia 31 de março, no III SiGELMA do grupo de estudos em Literatura Maranhense (GELMA), cuja temática é Nossa Terra tem mais África. Prontamente, digitalizou e me enviou o livro póstumo, publicado em 2008, um ano após seu assassinato, intitulado Os frutos não colhidos. Este foi um presente do filho e da viúva. Segundo ele, “um raro exemplar no qual há poemas marcantes, cordeis de profundo cunho social e de denúncia das mazelas sempre intensificadas por negligência do poder político e que se abatem fatalmente contra o povo”. Assim, quando conheci sua trajetória e seu fim trágico, compreendi a adequação do título. Infelizmente, faleceu sem ter sido reconhecido (devidamente) assim como muitos artistas e escritores maranhenses: Lima Barreto, Maria Firmina dos Reis, dentre outros.
MINIBIOGRAFIA
Gerô morreu aos 46 anos de idade e trazia a cultura e a tradição nordestina no sangue. Filho de Pedro Correia da Silva e de Maria do Carmo Pereira da Silva, nasceu no município de Monção no dia 6 de janeiro de 1961. Cordelista, fã de João do Vale, foi parceiro do ator e cordelista Moisés Nobre, de Joãozinho Ribeiro, de Escrete, de Josias Sobrinho, de Ribão da Flor, o Ribão de Olodum, hoje Ribão da Favela, entre outros. Com seu inseparável chapéu de couro, gravou quatro álbuns. Um mês depois do seu assassinato, lançaria seu primeiro CD intitulado Gerô, uma voz diferente, produzido por Ronald Almeida. Este levou mais de 2 anos e teria 2 convidados especiais: Josias Sobrinho e César Teixeira.
Vale ressaltar que ele é um dos autores da música “Passarinho”, defendida por Fátima Passarinho (esta composição define o nome da cantora), no Festival Viva!, em 1985. Não pode assinar a canção porque já tinha inscrito outra.
A TRAGÉDIA
O caso aconteceu no dia 22 de março de 2007, em São Luís. De acordo com as investigações, três policiais foram abordados por uma pessoa informando que um criminoso havia abordado uma mulher próximo à ponte de São Francisco. Os militares foram ao local e encontraram Gerô. Ele estaria exaltado quando foi agarrado à força e jogado no porta-malas de um veículo. Depois, em uma delegacia, torturado e, em seguida, foi levado ao Socorrão I, mas não resistiu aos ferimentos.
DIA 22-3: DIA ESTADUAL DE COMBATE À TORTURA E DO CORDEL
No Maranhão, o dia 22 de março é o Dia Estadual de Combate à Tortura. A data foi instituída através da Lei nº 8.641/2007, por causa do trágico episódio que culminou com a morte do artista popular maranhense Jeremias Pereira da Silva. Já o projeto de Lei 511/21, de autoria do deputado Zé Inácio Lula (PT) institui o Dia Estadual do Poeta de Cordel, no calendário de eventos do Maranhão.
MÚSICA COM MOIZÉS NOBRE
https://www.youtube.com/watch?v=TyCqf0ETp0s
Neste link, há fragmento de imagens originais gravadas em 1998 para programa partidário do PT. Participação especial de Moisés Nobre e Gerô: “Nós estamos aqui para convocar você. Para gente se defender de quem pretende nos vender”.
Temas abordados nos poemas:
- Descontentamento com a situação da pátria e a esperança: “Resta-nos um aceno a Deus, ou um último gemido de contestação, em versos panfletários de indignação aos ouvidos que porventura ainda não estejam surdos: “Brasil, és terra prometida/ mas é tão triste a tua sorte-/ enquanto no deserto há vida,/ em teu verde cresce a morte./ Tens povo, mas não tens Moisés;/ tens doce maná e terra farta,/ a esperança a teus pés,/ mas quem te manda só te mata/ de fúria e dor a cada dia-/ ao invés das flores, o fuzil;/ divina ou humana ironia-/ canaã e pátria amarga és, Brasil.”
-Efemeridade da vida: “A Vida é uma lâmina afiada A vida do homem é nada O beco da vida é a estrada A Vida é uma grande chama Que se apaga com o vento." (Poema "SEM SAÍDA")
-Religiosidade: desde os agradecimentos “A Deus, em primeiro lugar”, apresentação “Deus, agradeço por este dia...”, os poemas “Resta-nos um aceno a Deus”; “só Deus sabe onde dá”.
-Tempo: “Ei, o tempo já passou. Não vale mais”. “O amanhã não existe”. “O tempo é que nos ensina”. “Qual é mesmo o tempo que nos resta¿. “O meu tempo foi vendido”.
-Consumismo: “Pra entrar no céu. Pra poder ser feliz. Tem que ter capital”.
-Denúncia: “traiu o povo. Agora, Deus vai te amaldiçoar”. O poema Algemas excelente exemplo.
- Conselho: “concentre-se... Tenha muito cuidado. Não brinque com a solidão. Se te abraçares a ela, Não terás mais salvação”. “Meu amigo, escute bem o que te digo”.
-Questionamentos: “Me diga qual a medida. Qual é o metro da vida? Quem costurou a ferida?”. “O que fazer? Fazer o que? “Quem viu/ O que viu/”.
Depois desta brevíssima abordagem sobre vida e obra de Gerô, podemos ratificar o quão (através de uma linguagem simples e diretiva) ele abordava diversos temas como foi apresentado. Cabe ressaltar que o uso dos recursos expressivos (metáforas: “o pecado é traiçoeiro”; alusões: Amélia, Deus, Torre de Babel e expressões idiomáticas: “a sete palmos do chão”, “quem tem cu, tem medo”, “costela de Adão”) fazem parte de sua estética. O multiartista levo o leitor a refletir sobre vários aspectos de sua vida. Mas sempre com um tom de esperança e fé. Ele é um exemplo de como, apesar de todas as dificuldades, uma pessoa pode superar desafios. Afinal, são esses dois elementos fundamentais na vida do ser humano para prosseguir, não se entregar, ser resiliente. Viva Gerô!!! Obrigada pela rica contribuição à cultura maranhense!!!
Gostaria de agradecer mais uma vez ao Jaenderson Mafra pelo envio da obra digitalizada, ao Rômulo Reis quem me passou o contato do cordelista Paulinho Nó Cego, ao Moisés Nobre (parabéns pelos 20 anos do Coletivo Cultural Tapera do Cordel) pelas explicações e envio de material, à Aline Nascimento (Bibliotecária e gestora da Biblioteca Pública Benedito Leite, onde ocorre o Terça com Cordel, semanalmente) pelo envio por email das fotos das reportagens sobre o assassinato.
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