Nem todos os grandes sábios e escritores são humildes ao ponto de transcenderem ao amor-próprio exacerbado. Todavia, alguns deles conseguem fazê-lo. A capacidade de ‘doar’ as próprias descobertas, romances e poesias requer um alto nível de humildade e desapego do ego.
Quando um escritor ou sábio é capaz de transcender ao próprio ego, acaba por compartilhar suas ideias e obras com maior facilidade e generosidade, sem se prender a expectativas ou necessidades de reconhecimento ou recompensa. Posso garantir que isso até demora, mas acontece. No caso de Maria Firmina dos Reis, foram mais de 100 anos. Entretanto, hoje, é aplaudida no Mundo inteiro.
Vale lembrar que a humildade não é uma característica que se aplica universalmente a todos os grandes sábios e escritores. Cada pessoa é única e tem suas próprias qualidades e limitações. Alguns são mais generosos e desapegados do que outros, e isso é algo que faz parte da natureza humana. Não estou aqui condenando nenhuma atitude pertinente. Sabe-se, contudo, que ao final, a grandiosidade está em valorizar e reconhecer aqueles que são capazes de transcender ao amor-próprio e ‘doar’ suas obras e descobertas para um bem comum.
Esse fato é importante por trazer um feedback de resposta afetivas dos leitores, repassando suas ideias, citando-as e fazendo-as bússolas de suas vidas e objetivos. Isso é maravilhoso e nunca se comparará a vendas milionárias, com negociatas e vantagens comerciais de marketing.
Aristóteles, Platão e vários nomes dessa época incrível, nunca venderam um livro sequer, porque a força do pensamento platônico ou aristotélico, não estava no livro impresso. Estava, sim, na influência da ideia oral, repassada ao longo dos séculos. A doação de conhecimento e ideias é uma forma de contribuir para a sociedade e ajudar as pessoas a expandir a compreensão sobre o mundo e sobre si mesmas.
No Maranhão há um grupo que discute ideias literárias, estuda autores, dá opinião e faz acontecer e correr a boa ideia por vários lugares. Esse grupo tem a liderança de meus dois confrades da APB, José Neres e Linda Barros. Ou seja, não necessariamente vendendo 1 milhão de livros que fará a ideia correr os quatro cantos do Mundo. Mesmo com apenas algumas dezenas de livros comercializados, a boa ‘ideia’ será discutida e difundida por grupos de literatura, (ou outros meios virtuais), através das redes sociais, como o que citei acima. Isso reforça a conceituação oral desse bom mote, fazendo-o passar de geração em geração. Especialmente agora, gravado na nuvem.
Volto a teclar: 1 milhão de livros vendidos não é garantia de compartilhar a ideia central. Quer um exemplo? Antes, perdão por citar este – mas poderia elencar dezenas deles: "Poder sem Limites", extremamente popular na década de 2000. E aí? Alguém poderia citar um momento marcante dessa obra que lhe tenha influenciado a maneira de agir ou pensar de 2000 pra cá? Esse livro vendeu mais de 1 milhão de cópias. Alguém se lembra? Digo: quando um sábio compartilha (esse não é o caso do livro acima) seu conhecimento de maneira altruísta, ajuda a criar um ambiente de aprendizado e crescimento para todos, independentemente de sua posição social ou econômica.
Vale ainda dizer, que o verdadeiro valor das obras está no impacto que elas têm na vida das pessoas. Quer coisa mais gratificante do que ver a citação de sua obra por um leitor? É uma resposta afetiva que indica que a mensagem foi compreendida e teve uma motivação positiva na vida desse leitor. Essa resposta pode ser mais valiosa do que pagamentos financeiros ou elogios pessoais. Lembra da piadinha?
Certa vez, numa fila de banco, alguém aborda um escritor e lhe faz elogios sobre a obra lançada há tempos, citando, inclusive, alguns parágrafos. O autor, surpreso, diz: "Então foi você que comprou meu livro?"
Brincadeiras à parte, Confúcio já havia dito oralmente: "A verdadeira sabedoria está em compartilhar o que se sabe com os outros". Sócrates também: "O conhecimento é uma riqueza que se multiplica quando é dividida". E mais: esta frase de Albert Camus que eu acho genial: "A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente". (Mutatis Mutandis).
Falei dessa 'transmissão oral' de conhecimento ser importante, porque exatamente isso aconteceu com Maria Firmina dos Reis, mais de 100 anos depois de "Úrsula" ser publicado. Uma prova real das frases citadas acima que enfatizam a importância de compartilhar o conhecimento e a sabedoria com os outros, em vez de guardar egoicamente para si mesmo, tornando-a pública para o enriquecimento coletivo. E esse exemplo aconteceu de forma maravilhosa envolvendo José Nascimento de Morais (um homem de raro altruísmo nesse meio), o legítimo (‘encontrador’) e não descobridor de Maria Firmina dos Reis, (em meu bestunto), e o pesquisador americano Charles Martin, houve uma mensagem oral entre eles e essa manifestação gerou algo extraordinário, depois: a Gênesis!
Renata Barcelos, em recente texto sobre Charles Martin, publicado no www.facetubes.com.br, conta essa história:
“(...) um pesquisador norte-americano encontra um brasileiro, o Nascimento Morais Filho. Este conta para o outro a história de Maria Firmina dos Reis. O pesquisador, procurando coisas de destaque da cultura negra no Brasil, presta atenção. E coloca a obra da Maria Firmina em contextos no campo mundial, vendo além do Brasil. De fato, descobri informações sobre Úrsula por sorte. Pela sorte, em 1982 de visitar São Luís do Maranhão depois de algumas pessoas terem me indicado aquela região. Pela sorte de ter conhecido— provavelmente num café, não me lembro onde—o escritor e pesquisador José Nascimento Morais Filho. Ele, ao saber que eu estava procurando produções de cultura negra, especialmente em formas escritas, me fez conhecer o romance, Úrsula. Ele me levou à biblioteca Benedito Leite, pegamos uma cópia do livro, e comecei a lê-lo.(...)”.
Através desse encontro, então, Maria Firmina dos Reis e suas obras foram gradativamente sendo amadas, estudadas, resenhadas e lidas no Brasil e fora dele. Porém, há um segredo que poucos notaram e que está embutido no prólogo da primeiríssima edição do livro. Aliás, não há registros precisos sobre o número de exemplares da primeira edição de “Úrsula”, publicado em 1859. Eu já li sobre 250 exemplares. Há quem afirme, também, algo em torno de 500 exemplares. Independentemente do número exato de cópias, sabe-se que a obra teve uma circulação bastante limitada na época de seu lançamento.
Voltando ao prólogo, ela, com humildade (e até receio), escreveu uma linda página que deveria servir de exemplo para muitos dos que se intitulam 'literatos', em nossos dias e por essa razão, o título desta matéria.
O prólogo está dividido entre as páginas (07 e 08), da edição primorosa de "Úrsula", (foto), lançada pela Editora LaFonte, em 2022. Logo de cara, Firmina se mostra com personalidade única, guerreira e vitoriosa, um pouco acanhada é certo, nos primeiros parágrafos, mas agiganta-se enquanto escreve essa apresentação, mesmo que tenha qualificado sua obra como "Mesquinha e Humilde".
Abaixo, o prólogo do livro "Úrsula" (Editora LaFonte, edição 2022, às páginas 07 e 08).
PRÓLOGO
"Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros, e ainda assim o dou a lume.
Não é a vaidade de adquirir nome que me cega, nem o amor-próprio de autor. Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.
Então por que o publicas?, perguntará o leitor. Como uma tentativa, e mais ainda, por este amor materno, que não tem limites, que tudo desculpa - os defeitos, os achaques, as deformidades do filho - e gosta de enfeitá-lo e aparecer com ele em toda a parte, mostrá-lo a todos os conhecidos e vê-lo mimado e acariciado. O nosso romance, gerou-o a imaginação, e não o soube colorir, nem aformosentar. Pobre avezinha silvestre, anda terra a terra, e nem olha para as planuras onde gira a águia.
Mas, ainda assim, não o abandoneis na sua humildade e obscuridade, senão morrerá à míngua, sentido e magoado, só afagado pelo carinho materno. Ele semelha à donzela que não é formosa porque a natureza negou-lhe as graças feminis, e que por isso não pode encontrar uma afeição pura, que corresponda ao afeto da sua alma; mas que com o pranto de uma dor sincera e viva, que lhe vem dos seios da alma, onde arde em chamas a mais intensa e abrasadora paixão, e que embalde quer recolher para a ‘corução’* move ao interesse aquele que a desdenhou e o obriga ao menos a olhá-la com bondade.
Deixai, pois, que a minha Úrsula, tímida e acanhada, sem dotes da natureza, nem enfeites e louçanias de arte, caminhe entre vós.
Não a desprezeis, antes amparai-a nos seus incertos e titubeantes passos para assim dar alento à autora de seus dias, que talvez com essa proteção cultive mais o seu engenho, e venha a produzir coisa melhor, ou, quando menos, sirva esse bom acolhimento de incentivo para outras, que com imaginação mais brilhante, com educação mais acurada, com instrução mais vasta e liberal, tenham mais timidez do que nós. (Grifos meus).
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*Como no original
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Que assim seja,
Curitiba, Sábado de Aleluia de 2023.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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