Entro no táxi. Feliz e cansada ao mesmo tempo, consigo me render a rotina de estudos que criei para mim. Estou com meu cordão de identificação do autismo, um acessório que muitas pessoas no espectro utilizam quando saem de casa. Impressionado com meu vocabulário, meu jeito comunicativo e boa dicção, o motorista afirma:
— Nossa! Mas você nem parece autista!
Eu dei um sorriso leve e, pela educação, fui obrigada a agradecer o suposto elogio. De fato, muitas pessoas acreditam que essa frase é de bom tom. Não gostaria de tirar o brilho dessa gente toda, mas nós não nos sentimos confortáveis ao saber que, para o resto do mundo, não parecer ter a nossa deficiência é algo benéfico.
Recebo diversos comentários de mães, pais e profissionais. Eles gostam de saber que escrevo bem, que consigo me expressar de maneira "apresentável" e que pareço conviver bem com minha "condição". Condição é uma palavra que os não autistas adoram, apesar de não soar bem para as pessoas que vivem no transtorno espectro. Não me cabe julgar.
O que é preciso deixar claro aqui: cada autista é único. Óbvio que carregamos muitas características em comum, mas nada é definitivo. Existem graus diferentes de autismo, formas diferentes de expressar os sentimentos vividos, interesses diferentes em cada indivíduo, habilidades diversas, dificuldades opostas, crises variadas e que dependem de cada caso, ambientes sociais diferentes e, claro, comorbidades que geralmente um têm e outro não.
Ficou muito nítido aqui o meu hiperfoco na escrita. Escrever é um refúgio que se tornou profissão de forma muito precoce para mim. Cada vez mais eu me especializo, treino, divulgo meus trabalhos e faço parcerias a fim de viver disso futuramente. Nada é simples, mas ser autista é ter percepções peculiares do mundo. Quando uma pessoa atípica tenta se destacar naquilo que realmente a fascina, ela só não obtém êxito se não quiser.
Quando pensamos na questão dos autistas, geralmente enxergamos o lado negativo e imaginamos uma incapacidade. Não estou propondo uma romantização neste texto, mas uma reflexão. Nossas lutas são reais e diárias, mas quando conseguimos ter o apoio necessário de familiares, profissionais adequados e um pouco de esperança, nossa vontade de persistir na vitória profissional, acadêmica e pessoal cresce consideravelmente. O que você faz todos os anos por um TEA? Já tentou entender, motivar e acompanhar a vida de algum? Já procurou observar as diferenças de cada um? Caso você tenha uma empresa, ela é inclusiva e oferece um salário digno ao PCD? Sua equipe é preparada para acolher o funcionário com deficiência?
Você tem amigos autistas? Você acha que autistas não namoram ou não têm relações íntimas? Tudo isto é um tanto quanto polêmico, mas a informação correta é capaz de transformar o mundo quando bem assimilada. Mais respeito, mais acessibilidade, mais conhecimento e, sobretudo, inclusão.
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