Entrevista Porakê Munduruku
Renata Barcellos (BarcellArtes)
Não poderia ser outra temática a primeira matéria de abril: culturas indígenas.
Conheci Porakê Munduruku pelas redes sociais e pela Maria Lídia Tupinambá (professora e pedagoga pela UEMA, membro da RENIU – articuladora dos coletivos indígenas no Estado do Maranhão), sempre, me indicando parentes, sempre, me indica parentes. A abordagem nas publicações sobre os povos originários me interessaram. Ele já participou do BarcellArtes e Programa Pauta Nossa. Vale a pena conferir!!!
Minibiografia
Porakê Munduruku: indígena em contexto urbano em Ananindeua no Pará, escritor, educador popular e engenheiro agrônomo especialista em educação ambiental.
1- O Dia dos Povos Indígenas é uma data comemorativa celebrada no Brasil no dia 19 de abril e tem como propósito celebrar a diversidade das histórias e das culturas dos povos indígenas brasileiros ; combater preconceitos contra osindígenas; e estabelecer políticas públicas que garantam os direitos dos povosoriginários. Foi criada, em 1943, durante a ditadura do Estado Novo. Seu surgimento se deu, em boa medida, pela pressão de Marechal Rondon, importante indigenista brasileiro. Ainda, a data foi criada por influência do Congresso Indigenista Interamericano que havia sido realizado no México em abril de 1940.
Há inclusive um projeto de lei do deputado Fábio Trad (PSD-MS) em tramitação na Câmara Federal. Segundo ele: “A comemoração do Dia dos Povos Indígenas homenageará aqueles que exerceram papel fundamental na formação cultural e étnica da população brasileira”. O que os povos originários pensam sobre a data comemorativa?
Porakê: Os povos originários são muito diversos, certamente há muitas visões diferentes e até divergentes entre os parentes sobre o significado do 19 de abril para nós. Não posso falar em nome de todos os parentes, nem sequer em nome de todo o povo Munduruku eu posso falar. Oficialmente, somos mais de 300 diferentes povos indígenas no Brasil e falamos mais de 270 línguas diferentes. {...}. Mas sobre a questão do 19 de abril, tenho que concordar com meu parente, Daniel Munduruku, que disse que comemorar o "Dia do Índio"; é comemorar uma ficção, uma ficção que apaga toda nossa diversidade e invisibiliza a nós, indígenas reais, e as nossas lutas e conquistas, em favor de uma visão idealizada, estéril e pacificada do ser indígena. Neste sentido, a recente lei proposta pela parenta Joenia Wapichana, que enfrentou o veto do ex-presidente Bolsonaro, e alterou o nome oficial da data para "Dia Nacional dos Povos Indígenas"; foi uma conquista a ser celebrada. E uma conquista ainda maior tem sido a resignificação da data feita pelos próprios parentes, desde 2004, com a instituição do Acampamento Terra Livre (ATL), quando lideranças e ativistas da causa indígena aproveitam a ocasião para tomar Brasília, articulando nossas pautas comuns e protestando contra as violações dos direitos indígenas. Com o ATL o 19 de abril se consolidou como uma data de luta de todos os povos indígenas do Brasil e foi a partir do ATL que surgiu a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que muito tem contribuído para unir e fortalecer as lutas indígenas, o que, sem dúvidas, foi fundamental para que hoje pudéssemos ter, enfim, um Ministério dos Povos Indígenas e um protagonismo indígena em órgãos como a FUNAI e a SESAI.
2- A literatura indianista é aquela na qual protagonista é um(a) indígena. Assim, os elementos das suas culturas são postos em evidência para dar verossimilhança à obra. No entanto, prevalecem os valores morais da sociedade burguesa do séculoXIX, em detrimento dos valores propriamente indígenas. É importante mencionar que não era escrito por indígenas. Era a visão do homem da cidade, não do indígena, acerca das culturas nativas. Esta cumpriu o seu papel principal: provocar no povo brasileiro o orgulho de ser fruto da miscigenação entre índios e portugueses. Os indígenas foram bem retratados¿ Se possível faça um panorama desde a Carta de Pero Vaz de Caminha. Como o indígena foi sendo retratado ao longo das escolas literárias?
Porakê: Embora eu seja uma aspirante a escritor e um leitor voraz, não posso falar de literatura com rigor acadêmico, nem teria a pretensão de ser capaz de fazer uma síntese de toda a história da literatura brasileira. Mas da forma como vejo, há várias possibilidades de nos referirmos a uma literatura indígena: Há a literatura protagonizada por personagens indígenas, há a literatura protagonizada por escritores indígenas e há a literatura que promove o protagonismo do modo originário de estar no mundo. São três coisas diferentes, que podem ou não caminhar juntas.
É possível termos uma literatura protagonizada por personagens indígenas, mas escrita por não-indígenas, que mesmo quando bem intencionados, tendem a não promover o protagonismo do modo originário de estar no mundo e que acabam perpetuando velhos estereótipos coloniais sobre "bom selvagens"; ou selvagens, apenas. Infelizmente, não conheço produção literária de não-indígenas que consiga escapar dessa armadilha. Afinal, não se pode escrever com propriedade sobre o que não se entende e para entender de verdade o outro é preciso se tornar o outro, romper a barreira que nos separa e nada exige mais esforço e compromisso.
Também é possível termos uma literatura sobre indígenas escrita por autores indígenas, mas que reproduz uma estar no mundo que não é necessariamente originário, mas que acaba perpetuando ideias que nos foram impostas pelo colonizador. E esta é uma questão bastante delicada, pois, além de estarmos todos imersos na cultura colonial, para quem considera que apenas o texto escrito é literatura há que ressaltar o fato de que escrever é uma tradição alheia grande maioria de nossos parentes e já implica em algum nível de assimilação da cultura do colonizador, há, ainda a questão de que mesmo entre nós, há diferentes concepções do que significa ser indígena e do que separa o nosso estar no mundo do estar no mundo do colonizador.
De qualquer forma, eu concordo com você que a "literatura indianista" do século XIX, feita por não indígenas, cumpriu seu papel, não por "provocar no povo brasileiro o orgulho de ser fruto da miscigenação entre indígenas e portugueses", mas por consolidar um mito fundacional da recém-nascida "nação brasileira"; como uma "nação mestiça", fruto do encontro quase que harmonioso entre "três raças" o indígena, o negro e o branco. O que ocultou, e ainda oculta, várias verdades incômodas para o colonizador: que raça é um conceito historicamente construído e não tem qualquer validade biológica; que as categorias negros" e "indígenas" foram inventadas pelo colonizador para apagar toda uma riquíssima diversidade de povos nativos tanto de África quando de Abya Yala; e que a identidade brasileira foi construída e imposta com base em séculos de roubos, massacres, torturas, estupros, sequestros, imposições, silenciamentos, apagamentos, conivências e omissões.
Saiba mais sobre as culturas indígenas pelo Instragam de Porakê, dentre os temas:
*O truque do IBGE para apagar a presença e a identidade indígena*
https://www.instagram.com/p/Cpdji7QPTF6/?igshid=YmMyMTA2M2Y=
Dia 19 de abril, às 18:00, Porakê Munduruku participará da mesa-redonda em homenagem ao Bicentenário de Gonçalves Dias, no canal BarcellArtes:
(https://www.youtube.com/live/1QCeHvqEnVg?feature=share ),
com a temática: "A presença de indígenas nas literaturas brasileiras".
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