Se liga, galera!
Aposto que você já ouviu ou leu essa frase em algum momento. E é pra se ligar mesmo, porque se trata de um chamado. E também porque, hoje, as pessoas andam meio desligadas, pisando em reticências.
Essa é apenas uma entre tantas expressões que passeiam pelo cenário da linguagem informal. E a responsável por isso é a inteligência humana (com iniciais minúsculas). Inquieto desde que balbuciou as primeiras palavras, o homem está sempre buscando novidades para não cair em silêncios ensurdecedores.
E “se liga” não é pouca coisa, não! Descobri no Google variados cartazes com essa frase grudenta em anúncios, avisos, comunicados. Um deles, da Fiocruz ― nos dias da pandemia da covid-19 ― alertava sobre os cuidados com a saúde: Se liga no Corona! Outro, numa seara evangélica no Facebook, ressoava uma antiga boa-nova cristã: Se liga, Jesus está voltando!
E, assim, liguemo-nos, pois, na linguagem coloquial da mesma forma como cultivamos a norma culta. Porque ambas têm suas páginas no manual da comunicação. Na página culta, tudo bem arrumadinho, regido por regras rígidas. Na coloquial, expressões idiomáticas e gírias. As primeiras, mais próximas da língua-padrão, são mais facilmente assimiladas. As segundas, afinadas com grupos específicos, são malandrinhas que escondem suas reais intenções num palavreado despreocupado e desconexo.
Quem estuda uma língua estrangeira consegue sacar melhor as peripécias de uma expressão de “cabeça pra baixo” ou as macaquices de um leão tentando se passar por gatinho. Ou seja: as idiomáticas se vestem de um significado relativamente previsível; as gírias, você não sabe se estão nuas ou não.
Essas modalidades ― inquietas e momentâneas ― nascem e crescem. E se cansam e se aposentam. Quem ainda usa “broto” ou “morou” ― gírias dos tempos da Jovem Guarda? Acho até que o “auê” da Rita Lee já se camuflou na névoa pálida do esquecimento.
Eu me amarro nessa linguagem solta e engraçada. E me solto no tom coloquial que damos às nossas conversas com amigos, colegas e familiares. Não raro, antes de uma palestra, a audiência joga conversa fora para desopilar o intelecto. Mas logo se ligam, se o assunto realmente lhes interessa.
Engana-se quem pensa que as gírias e as expressões idiomáticas são almas penadas. Não e não! Há quem estude esse aspecto da linguagem humana, utilizando-se dos princípios da linguística. E elas, vivinhas da silva, estão por aí, pintando e bordando nos palcos da interlocução.
Atores dessa peça comunicativa, precisamos saber em que palco estamos atuando antes de soltar o verbo. Desde cedo aprendi que “Quando em Roma, faça como os romanos”. Uma lição e tanto para quem vai a qualquer lugar. Na arena romana, deve-se conversar com os romanos como alguém que conhece sua cultura ― seja na Basílica de São Pedro ou no Pasta Chef.
Para frustração do cantor Paulo Ricardo, nem sempre dá pra “escolher entre o bem e o mal, entre ser ou não ser” ― versos de “Vida Real”, música-tema do BBB. Porque essas expressões estão por toda parte. Na rua, são amigas de todo mundo. Em reuniões sociais, um pouco mais recatadas. Na internet, metidas em tretas e mimimis. Se estiver sem elas numa balada, você tá f*. E, se imaginou outra coisa, se liga, senão é você quem estará “ferrado”.
Por falar em BBB, foi de lá que pesquei a ideia de escrever sobre o coloquialismo. Enquanto MC Guimê, astro paulista do funk ostentação, esteve no programa, os brothers e sisters exageravam no uso da expressão “tá ligado?” Diziam três palavras e soltavam a danadinha. Depois de sua saída, por causa de sua “mão boba” (importunação sexual), a expressão se escafedeu do reality mais popular do mundo.
Na festa dos 50 anos da Semana de Arte Moderna, em 1972, Carlos Drummond de Andrade comparou as agitadas comemorações a um "grito no salão bem-comportado". Pois é exatamente assim que se comportam nossas artistas neste palco mágico da comunicação.
Ainda bem que essa linguagem tem passe livre na crônica, gênero que aprecia aspectos da vida cotidiana com humor, ironia e sensibilidade. Nesse sentido, o grito de Drummond ressoa numa constatação do Jornal do Brasil (Dez/1980): “O prodigioso coloquialismo dos textos de Nelson Rodrigues aparece como uma autêntica revolução”.
Na vibe dessa turminha arretada, os compositores da música popular dão um show de bola. Que o diga Seu Jorge com sua “mina” maneira e a “gata” amiga de sua mulher. Sobre a segunda, ele jura que “nunca rolou”. Numa tirada engraçada, uma jurada do “The Masked Singer” (show da REDE GLOBO com artistas vestidos de bichos, plantas ou coisas) trocou as bolas ao elogiar um dos participantes: “Galo, você é um gato!”
Acho que deu pra perceber como as gírias e as expressões idiomáticas se viram nos trinta e só vão embora quando percebem que a fila andou.
E pra você, que chegou até aqui: Valeu! Valeu mesmo!
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Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.
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