ROSSINI CORRÊA/MHARIO LINCOLN
ROSSINI CORRÊA 01 - A descoberta da poesia, em todos os tempos, para cada artista, tem um poder encantatório, em razão do deslumbramento que a envolve. Como foi a tua? Em que momento da vida? E o que significou?
Mhario Lincoln. Foi um momento mágico. Ribamar Bogea, meu diretor e dono do Jornal Pequeno me ofereceu uma espécie de estágio na redação. Ainda era pré-adolescente. Então a primeira matéria foi sobre o ‘Sitio do Físico’. Empolgado, após terminar de escrever, fui correndo mostrar para seu Bogéa. Ele leu e começou a cortar, com um lápis vermelho grosso, quase todo o texto. Olhou-me e disse: “não te pedi um texto de poesia. Eu quero um texto de jornal”. Bem aí, vim a descobrir, a grosso modo, que eu poderia vir a ser um poeta.
ROSSINI CORRÊA 02 - No ambiente literário de São Luís do Maranhão, sem dúvida, um dos mais densos do Brasil, em razão da tradição que o perpassa, quais as figuras com que mais te identificaste e que pesaram em tua caminhada?
Mhario Lincoln. Na verdade, sinto-me frágil quando tento analisar algo que interfere em minhas emoções. Quando se trata de arte, tenho alguma dificuldade em tornar-me racionável. A arte é emoção! Porém, essa mesma criação artística pode tocar em mim (e só em mim) de forma tão forte que acaba transmitindo, além, um forte vínculo, que transcende a línguas, crenças ou culturas. Desta forma, ilustre Rossini, geralmente não gosto de enumerar minhas preferências. Mas é impossível não citar neste momento, ex próprio marte, com pertinência à vida humana e às questões sociais de nosso tempo, Salgado Maranhão, Luís Augusto Cassas, Paulo Rodrigues, João Batista do Lago, Bandeira Tribuzi e José Neres. Há de se citar, ainda, um dos grandes pesquisadores da história maranhense, através do qual tenho lido inúmeros textos e respeitáveis pesquisas históricas interessantíssimas: Edmilson Sanches. E no romance, pela construção do todo, Ken Follett, Gustave Flaubert, Lev Tolstói, Machado de Assis, Josué Montello, e o realismo fantástico de Gabriel García Márquez. Foram essas as pessoas com quem tive mais acesso, seja por leitura, seja pessoalmente. Os meus pilares de compreensão ab initio.
ROSSINI CORRÊA 03 - Especificamente, o contato com a poesia de Bandeira Tribuzi foi marcante para mais de uma geração maranhense. Tu o conheceste? Como foi este contato? Se não, com a obra tribuziana.
Mhario Lincoln. Tribuzi é multidisciplinar. É o regional disponibilizado de forma ampla. O homem José Tribuzi Pinheiro Gomes, personificando-se como o imenso Bandeira Tribuzi. O lírico forte, mas com ideias progressistas, sociopolíticas e comportamentais. “Ó minha cidade deixa-me viver”, primeiro verso do hino à Cidade de São Luís, lá no fundo, é um grande grito. Como diria Pessoa, incorporado em Álvaro de Campos: “Esta velha angústia, / Esta angústia que trago há séculos em mim, / Transbordou da vasilha (...)”. Estou estudando alguns momentos muito interessantes de “Louvação a São Luís”, tendo encontrado nela, traços muito fortes de uma angústia histórica. Por isso, acredito haver alguma coisa de muito especial nessas entrelinhas. Dá-me a sensação de um ‘eu lírico’ habitando a cidade, sem possuí-la em seu todo. Vale então requisitar a presença memorável de outro maranhense. Será que em “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar, escrito durante o exílio, é um indício de gritos reverberados, os quais aparentemente, também, os possa considerar em “Breve Memorial do longo tempo”, de Tribuzi? Por essa razão, tenho analisado alguns poemas de Tribuzi com cautela, quando recebo certas rajadas de melancolia vindas de Edvard Munch (“O Grito”/1893). A letra-poema é linda, mas, neste instante, uma amostra explícita de como tento permanecer racionável (e nem sempre acontece), diante de minhas elucubrações.
ROSSINI CORRÊA 04 - Cedo tu ingressaste nas lides jornalísticas, descobrindo, inclusive, o manejo de multimeios de comunicação. O que significou a televisão em tua formação literária e profissional?
Mhario Lincoln. Quando o assunto recai sobre televisão, lembro-me de uma palestra que ministrei a alunos de Comunicação. Nela, referi-me a Nicholas Negroponte, Fundador do “Media Lab” do MIT/Massachusetts. Institute of Technology. Ele é claríssimo quando ensina: “A transmissão televisiva é um exemplo de um veículo no qual toda a inteligência encontra-se no ponto de origem... Em vez de pensar numa resolução mais elevada, em cores melhores ou em mais programas como o próximo passo evolutivo da televisão, imagine esse passo como sendo uma mudança na distribuição da inteligência (...)”. Aí está uma prova irrefutável de que a Televisão, enquanto instrumento de massa, tem provocado muito mais polêmica do que aplausos. Certa ocasião, em um programa onde entrevistava celebridades, fiz uma pergunta nesse rumo a um conhecido produtor televisivo. Ele realmente não gostou e pediu minha demissão da emissora, no ar, fato esse, prontamente atendido pelos diretores da casa. Portanto, minha passagem por esse veículo de comunicação (em duas emissoras) não foram românticas. Até hoje encaro Negroponte como uma certa seriedade. E, numa evolução normal, com estudos aqui e acolá, tento aplicar resultados lógicos em meu canal ‘VídeosTV’, da plataforma www.facetubes.com.br. Ainda sonho em ver uma empresa desse nicho intercalando à 'grade' altamente comercial, fragmentos ou indícios mínimos de formação da cidadania, a fim de traduzi-los em cidadãos críticos, conscientes, até mesmo, na formação de um cidadão consumidor. Por que não? Porém, os novos arquétipos apresentados pela grande mídia televisiva, há anos, são discutíveis, ineficientes e altamente egóicos ao ponto de um proprietário de uma das grandes redes de TV da América Latina, um dia, dizer abertamente: “Sim, eu sou o Poder”, retratado em um ‘livro de terror’, escrito pelo jornalista Daniel Herz.
ROSSINI CORRÊA 05 - Como tu chegaste às grandes vozes da poesia brasileira? Em especial, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes?
Mhario Lincoln. Li quase tudo dessas celebridades literárias. João Cabral de Melo Neto, contudo, é inesquecível com “Morte e Vida Severina”. O que me encanta é a relação do poeta com sua poesia, além de observar outra peleja: a do ‘eu-lírico’ com o ‘fazer poético’. Quando li “Morte e Vida Severina” pela primeira vez, minha performance mental foi sendo forjada em cima da “Filosofia da Composição”, do poeta americano do século XIX, Edgar Allan Poe, onde ele rejeita severamente a ideia do conceito de intuição artística como, pura e simplesmente, algo espontâneo. Mas, resultante de um processo metódico e analítico. Com certeza, não foi, apenas, intuição o que João Cabral escreveu – “-Essa cova em que estás, / com palmo medida, / é a conta menor / que tiraste em vida. (...). - Não é cova grande, / é cova medida, / é a terra que querias / ver dividida. (...)”. Um trecho poético marcante com imenso caráter social e político. Isto é, um lavrador sendo enterrado na absoluta miséria, após trabalhar a vida toda em terra alheia, sendo eternamente explorado. Por isso, João Cabral de Melo Neto é diferenciado. Produz arte com consistência, misturando tons e ritmos sem perder a nordestinidade característica de boa parte da terra pernambucana. Entretanto, há de se notar, ainda, nessa mistura energética e mágica, uma densidade estrutural e metafórica, remetendo à poesia erudita. "Morte e Vida Severina", ratifica, mais uma vez, o que diz Poe. O poema é um trabalho com a linguagem, seleção das palavras, disposição nas frases, sem esquecer, jamais, a sonoridade, a semântica e a morfossintaxe. Mutatis Mutandi, quase todos tentam escrever poesias hoje em dia, não obstante, serem poetas. Os verdadeiros poetas, como Drummond, Bandeira e Vinicius de Moraes, são basílicas extracurriculares, especialmente por conhecer a emoção humana. Com odor, cor, dor e amor da nossa gente.
ROSSINI CORRÊA 06 - Como tu defines a presença da poesia em tua vida de Artista e como tu situas a dimensão lírica em tua obra literária?
Mhario Lincoln. Posso perceber a eclosão do meu ovo poético de uma forma um pouco diferente dos poetas que eu costumava ler na década de 70, a maioria, na minha cidade, envolvida com um movimento muito forte chamado ‘Antroponáutica’, nascido com bases construídas na poesia de Viriato Gaspar, Raimundo Fontenele, Chagas Val, Valdelino Cécio e Luís Augusto Cassas. Esse grupo – a meu parecer – poetas novos com interesse maior de renovar a poesia local, além de romper com as antigas escolas literárias do Século XIX. O detalhe é que o nome desse movimento foi uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzi, também cultuado por todos nós. Acompanhei de perto, igualmente. Acompanhei também, no nível nacional, a bela organização artística chamada por Hélio Oiticica de Movimento Marginal (ou) Geração do Mimeógrafo. Conheço e respeito vários valores que surgiram na época. Todavia, não me formei nessas escolas - a regional ou na nacional - as quais admiro por lançarem ao mundo nomes que citei anteriormente ("Antroponáutica") e mais Paulo Leminski, José Agripino de Paula, Waly Salomão, Francisco Alvim, Torquato Neto e Chacal, na literatura e na música, Tom Zé, Jorge Mautner, Jards Macalé e Luiz Melodia ("Mimeógrafo"). Por ter ouvido e lido tantas pessoas maravilhosas no mesmo cenário, sempre fui extremamente crítico comigo, apesar de escrever com muita facilidade – como se o esboço estivesse na nuvem, esperando para sê-lo copiado. Quanto a lírica, esta, continua sendo-me apresentada bastante flexível, onde sou obrigado a atualizá-la em meus diferentes momentos literários. Mesmo com essas variações, tudo leva a crer que meu ‘eu-lírico’ é, sim, bem explícito na maioria de minhas produções, pois é a expressão abundante dos meus sentimentos. Minha carteira de identidade. Minha impressão digital. Meu DNA. Eis o meu segredo!
ROSSINI CORRÊA 07 - Já que, de maneira inexorável, todos escrevemos uma história geracional, quais os teus maiores diálogos geracionais no plano literário maranhense? Pessoas, grupos, movimentos...
Mhario Lincoln. Segundo Joffre Dumazedier, sociólogo francês, as velhas gerações continuam a ter uma função de transmissão de conhecimentos às novas. Até os 45 anos, vivi, assim, exclusivamente colhendo as experiências de pessoas muito mais velhas, contudo, com diálogos geracionais presos à uma linhagem técnico-social, fruto das minhas atividades como auditor fiscal ou, furtivamente e a sós, com diálogos afeitos às leituras penduradas em minha prateleira de curioso pré-erudito. Especificamente minha inserção em grupos poéticos, propriamente ditos, se deu após minha virada de mesa e minha saída de São Luís (MA) para Curitiba (PR). Aqui, refiz conceitos e tentei-me ambientar nos grupos que respiravam literatura e arte 24 horas por dia. Bem diferente dos experimentos vividos em minha terra. Essa integração (geração nativa/geração agregada) principalmente nesta banda brasileira, tornou-se algo impossibilitador da continuidade de uma relação saudável. Então, tive que tentar descobrir quais critérios estavam sendo ajustados entre ambas as gerações. O quanto as pontes regionais poderiam influênciar em todo esse processo geracional futuro. Será que essas, pelo fato de interagirem muito mais com a família local construída, poderiam comprometer trabalhos novos de pessoas agregadas como eu no universo poético paranaense, por questões sociológicas, psicológicas ou por algum conceito bairrista? Por essa razão, em minhas elucubrações, sentia a falta de pedaços e eu precisava preencher essas lacunas, sem tornar-me egocida, mas garantindo minha integração, e não caindo nas ‘armadilhas geracionais’ invisíveis a olho nu, mas reais na minha produção lírica ‘estrangeira’. Precisava pensar rápido e dirimir dúvidas em minha cegueira do contraditório. Indiretamente – e desta forma – deu-se a gestação da Academia Poética Brasileira, agregando poetas paranaenses, sem esquecer os maranhenses e somando a outros amigos artistas que povoam outras cidades brasileiras, até mesmo residindo em outros países. Acho que a partir daí, aconteceu o ‘start’, desse eloquente diálogo geracional com os indivíduos arrolados ao processo literário.
ROSSINI CORRÊA 08 - Como foi o processo de criação da Academia Poética Brasileira, com que agenda tem trabalhado e que universo ela tem alcançado no Brasil e fora dele?
Mhario Lincoln. Essa pergunta interliga-se diretamente à pergunta anterior, com pertinência à origem. Nosso plano tem sido divulgar, através de todos nossos canais virtuais, VídeosTV, Plataforma de Notícias e Radioweb, toda a obra produzida pelos membros da APB, além de participar de conferências poéticas nacionais e internacionais, interagindo com grupos de defesa da Paz Mundial. Tem sido muito dignificante obter tantas respostas positivas ao longo desses anos. Sugiro a leitura do texto assinado pela confreira Linda Barros nesse sentido, link a seguir: https://www.facetubes.com.br/noticia/1231/academica-e-escritora-professora-e-atriz-linda-barros-escreve-sobre-a-academia-poetica-brasileira
ROSSINI CORRÊA 09 - Odylo Costa, filho dizia que o primeiro ar que respiramos no mundo impacta e impregna a nossa existência para sempre. Qual a relação da tua poesia com a cidade de São Luís do Maranhão?
Mhario Lincoln. Acredito que São Luís entra nessa história como um instrumento participativo e complementar no meu processo criativo. Caso se observe a análise intrínseca da minha poesia, acredito chegar perto do conceito teórico da filosofia existencial-ontológica de Heidegger. É o caso do meu ‘eu-lírico’, novamente. O existencial pode perfeitamente ter a cidade encíclica como mote ou, o mais importante, a extração abrupta do todo existencial vivido na cidade, como uma forma de desvelar alguns sentimentos e atitudes que sempre acabam desembocando na minha angústia em forçar-me poeta, diante da vida. Contudo, acredito ser, ainda, a linguagem lírica, única reveladora do contexto abstrato dos seres humanos.
ROSSINI CORRÊA 10 - Tens o projeto de reunir em livro as tuas Poesias Completas, ainda que a obra constitua apenas uma primeira síntese de um processo de criação em plena marcha, da qual são esperados novos frutos e acontecimentos?
Mhario Lincoln. Na realidade, somente há uns dois anos decidi reunir alguma coisa que publiquei na internet, entre frases, poemas e sonetos. A esse agrupamento dei o nome de A BULA DOS SETE PECADOS, que já enviei para você ler e fazer alguns comentários que, com certeza, me serão importantes. Afora isso, meu romance O MARIA CELESTE está na gaveta há mais de 20 anos e não consigo reorganizá-lo. Todas as vezes que abro, acendem novas oportunidades de pesquisas e complementos. No primeiro texto que fiz, como já citei, o diretor do ‘Jornal Pequeno’, onde trabalhei desde os 14 anos, rasgou meu texto porque eu havia escrito uma “prosa poética, ao invés de um texto jornalístico”. No caso do meu romance, tento fazer exatamente o contrário. Livrar-me do texto meramente jornalístico e transformá-lo em algo próximo à linguagem romanceada. Quem sabe ainda consiga realizar esse sonho. (Muito obrigado por suas inteligentes perguntas. Gostei demais).
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