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"'Casa sem Janelas', de Rogério Rocha, é pura essência do existencialismo", diz o poeta João Batista do Lago

Com esta publicação, o Facetubes parabeniza o poeta, filósofo e confrade Rogério Rocha/APB-MA

27/04/2023 10h56 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: João Batista/Rogerio Rocha
Rogerio Rocha em arte de MHL
Rogerio Rocha em arte de MHL

De João Batista do Lago

Resenha

CASA SEM JANELAS

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Vivo numa casa sem janelas

Vivo nela tal como posso

Em meio aos troços

Que me sufocam

Vivo numa casa fechada

Vivo assim enclausurado

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Minha gaiola alardeada

Ainda cheira puro enfado

Vivo numa casa sem janelas

Com a mobília incendiada

Moro, deito e morro nela

Em sua aura empesteada

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Vivo numa casa sem ares

Sem pressa de um tempo

Em devires

Com medo de haver existido

Em meio a existires

Vivo numa casa sem janelas

Sacrifício de pagas incertas

Vivo na casa que não sustenta

A fome que morde as panelas

(Rogério Rocha é filósofo, poeta, ensaísta e crítico literário)

 

Inicio esta resenha ousando afirmar que “Casa sem janelas” é, aos meus olhos, a melhor expressividade e representatividade do Existencialismo lítero-poético da atualidade na literatura maranhense, e quiçá, brasileira. É ousado afirmar? Claro que sim. Mas corro o risco de assim manifestar-me. E poderia intuir a partir de perspectivas várias; porém inferirei meu raciocínio partindo de conceitos oriundos de um dos filósofos mais caros ao

autor do poema: Martin Heidgger – que foi um dos principais (se não o principal!) personagens da escola do existencialismo europeu. Há outros poemas (na mesma

dimensão) do autor, Rogério Rocha, que poderiam juntar-se ao epigrafado, contudo, entendo que (eu) perderia o foco deste texto.

Penso que, em “Casa sem janelas”, assim como Heidegger, o poeta Rogério Rocha (também) dá luz ao seu Dasein, ou seja, ele (o poeta) pare na “mundidade do mundo” o seu projeto ontológico: o ser-em; o ser-aí. E aqui vale a observação de fundamental importância, isto é, Rogério Rocha, como demiurgo pleno sabe que não criou simplesmente um Ente como atributo infinito da natureza, mas O Ser finito no tempo e no espaço. E é exatamente nesse ponto que se dá o existencialismo, posto que é-aí que se manifestam as angústias, as dores, as tristezas… enfim, todos os afetos e afetações (alegres ou tristes) manifestos no poema, paradoxalmente translúcido de metáforas, sendo a principal delas a “Casa sem janelas” ou o “Corpo fechado” do sujeito que se dá no poema.

A “Casa sem janelas” (entenda-se: o corpo fechado), metáfora de raríssima beleza, para o meu entendimento, é a representação da vida cotidiana do homem moderno, notadamente a partir do conceito heideggeriano de “ser-no-mundo”, dissociado dos seus atributos humanistas, sem conexão com o mundo exterior, sem horizontes e sem perspectivas. Heidegger argumenta que o ser humano é essencialmente um ser-no-mundo, isto é, ele está sempre imerso em um contexto histórico-cultural e em uma rede de relações sociais. No entanto, o mundo contemporâneo tende a reduzir o ser humano a um mero objeto do tecnicismo, em que a tecnologia domina a natureza e a vida humana se torna uma questão de eficiência e produtividade. E isto, aos meus olhos, é a representação factual e representacional da dialogação que propõe o poeta com o seu leitor. (A dialogação com a poesia, para Heidegger, consiste na doação da linguagem aos outros, que preserva a palavra e sua abertura. Essa dialogação se estabelece entre o pensador que lê e a poesia que a ele se doa na leitura.)

Nesse sentido, a "mobília incendiada" e a "aura empesteada" da casa sem janelas podem ser interpretadas como símbolos da devastação da natureza e da degradação da vida humana pelo poder tecnológico. O eu lírico parece estar aprisionado em sua própria existência, sem conseguir escapar do ciclo vicioso de pagar contas e sobreviver à fome.

A frase "Com medo de haver existido / Em meio a existires" evoca a angústia existencial heideggeriana diante da finitude e da contingência da vida humana. A falta de janelas pode ser vista como uma metáfora da falta de transcendência, da impossibilidade de vislumbrar algo além do cotidiano trivial.

Outro conceito importante em Heidegger é a ideia de "existência autêntica", que envolve uma compreensão profunda do ser e uma autenticidade na forma de viver. No poema, o eu lírico parece viver em uma casa incendiada, onde mora, deita e morre, mas sua "aura empesteada" sugere uma insatisfação e um enfado com essa existência. Essa descrição pode ser interpretada como uma crítica à vida inautêntica, onde o ser humano vive de forma superficial, sem uma compreensão, profunda de si mesmo e do mundo ao seu redor, como se estivesse apenas passando o tempo sem verdadeiramente viver.

Em resumo, o poema "Casa sem janelas" pode ser lido como uma crítica à alienação e à superficialidade da vida contemporânea, em que o ser humano perdeu a conexão com a natureza, a comunidade e sua própria essência. A falta de janelas simboliza a falta de horizontes e perspectivas, que levam a uma sensação de sufocamento e claustrofobia.

 

CONCLUSÃO

O poema "Casa sem Janelas" pode ser interpretado a partir da escola do existencialismo, que se concentra na condição humana, sua liberdade, responsabilidade e busca por significado em um mundo aparentemente absurdo.

A "Casa sem Janelas" pode ser vista como uma metáfora para a condição humana em que a pessoa se sente enclausurada, limitada e sufocada. A falta de janelas representa a falta de visão para o mundo exterior, ou seja, a incapacidade de explorar outras possibilidades e escolhas.

 

VÍDEO-HOMENAGEM. Interpretação Robson Junior

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JAIME Há 3 anos atrásBSB/DFMagnífico, SHOW, Sensacional, Que preciosidade!!!
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