De João Batista do Lago
Resenha
CASA SEM JANELAS
Vivo numa casa sem janelas
Vivo nela tal como posso
Em meio aos troços
Que me sufocam
Vivo numa casa fechada
Vivo assim enclausurado
Minha gaiola alardeada
Ainda cheira puro enfado
Vivo numa casa sem janelas
Com a mobília incendiada
Moro, deito e morro nela
Em sua aura empesteada
Vivo numa casa sem ares
Sem pressa de um tempo
Em devires
Com medo de haver existido
Em meio a existires
Vivo numa casa sem janelas
Sacrifício de pagas incertas
Vivo na casa que não sustenta
A fome que morde as panelas
(Rogério Rocha é filósofo, poeta, ensaísta e crítico literário)
Inicio esta resenha ousando afirmar que “Casa sem janelas” é, aos meus olhos, a melhor expressividade e representatividade do Existencialismo lítero-poético da atualidade na literatura maranhense, e quiçá, brasileira. É ousado afirmar? Claro que sim. Mas corro o risco de assim manifestar-me. E poderia intuir a partir de perspectivas várias; porém inferirei meu raciocínio partindo de conceitos oriundos de um dos filósofos mais caros ao
autor do poema: Martin Heidgger – que foi um dos principais (se não o principal!) personagens da escola do existencialismo europeu. Há outros poemas (na mesma
dimensão) do autor, Rogério Rocha, que poderiam juntar-se ao epigrafado, contudo, entendo que (eu) perderia o foco deste texto.
Penso que, em “Casa sem janelas”, assim como Heidegger, o poeta Rogério Rocha (também) dá luz ao seu Dasein, ou seja, ele (o poeta) pare na “mundidade do mundo” o seu projeto ontológico: o ser-em; o ser-aí. E aqui vale a observação de fundamental importância, isto é, Rogério Rocha, como demiurgo pleno sabe que não criou simplesmente um Ente como atributo infinito da natureza, mas O Ser finito no tempo e no espaço. E é exatamente nesse ponto que se dá o existencialismo, posto que é-aí que se manifestam as angústias, as dores, as tristezas… enfim, todos os afetos e afetações (alegres ou tristes) manifestos no poema, paradoxalmente translúcido de metáforas, sendo a principal delas a “Casa sem janelas” ou o “Corpo fechado” do sujeito que se dá no poema.
A “Casa sem janelas” (entenda-se: o corpo fechado), metáfora de raríssima beleza, para o meu entendimento, é a representação da vida cotidiana do homem moderno, notadamente a partir do conceito heideggeriano de “ser-no-mundo”, dissociado dos seus atributos humanistas, sem conexão com o mundo exterior, sem horizontes e sem perspectivas. Heidegger argumenta que o ser humano é essencialmente um ser-no-mundo, isto é, ele está sempre imerso em um contexto histórico-cultural e em uma rede de relações sociais. No entanto, o mundo contemporâneo tende a reduzir o ser humano a um mero objeto do tecnicismo, em que a tecnologia domina a natureza e a vida humana se torna uma questão de eficiência e produtividade. E isto, aos meus olhos, é a representação factual e representacional da dialogação que propõe o poeta com o seu leitor. (A dialogação com a poesia, para Heidegger, consiste na doação da linguagem aos outros, que preserva a palavra e sua abertura. Essa dialogação se estabelece entre o pensador que lê e a poesia que a ele se doa na leitura.)
Nesse sentido, a "mobília incendiada" e a "aura empesteada" da casa sem janelas podem ser interpretadas como símbolos da devastação da natureza e da degradação da vida humana pelo poder tecnológico. O eu lírico parece estar aprisionado em sua própria existência, sem conseguir escapar do ciclo vicioso de pagar contas e sobreviver à fome.
A frase "Com medo de haver existido / Em meio a existires" evoca a angústia existencial heideggeriana diante da finitude e da contingência da vida humana. A falta de janelas pode ser vista como uma metáfora da falta de transcendência, da impossibilidade de vislumbrar algo além do cotidiano trivial.
Outro conceito importante em Heidegger é a ideia de "existência autêntica", que envolve uma compreensão profunda do ser e uma autenticidade na forma de viver. No poema, o eu lírico parece viver em uma casa incendiada, onde mora, deita e morre, mas sua "aura empesteada" sugere uma insatisfação e um enfado com essa existência. Essa descrição pode ser interpretada como uma crítica à vida inautêntica, onde o ser humano vive de forma superficial, sem uma compreensão, profunda de si mesmo e do mundo ao seu redor, como se estivesse apenas passando o tempo sem verdadeiramente viver.
Em resumo, o poema "Casa sem janelas" pode ser lido como uma crítica à alienação e à superficialidade da vida contemporânea, em que o ser humano perdeu a conexão com a natureza, a comunidade e sua própria essência. A falta de janelas simboliza a falta de horizontes e perspectivas, que levam a uma sensação de sufocamento e claustrofobia.
CONCLUSÃO
O poema "Casa sem Janelas" pode ser interpretado a partir da escola do existencialismo, que se concentra na condição humana, sua liberdade, responsabilidade e busca por significado em um mundo aparentemente absurdo.
A "Casa sem Janelas" pode ser vista como uma metáfora para a condição humana em que a pessoa se sente enclausurada, limitada e sufocada. A falta de janelas representa a falta de visão para o mundo exterior, ou seja, a incapacidade de explorar outras possibilidades e escolhas.
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