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A cronista do Facetubes, poeta Joizacawpy Costa, faz entrevista exclusiva com NATÉRCIA GARRIDO

Joizacawpy Costa é convidada da Academia Poética Brasileira.

05/05/2023 09h36 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joizacawpy Costa/Natércia Garrido
Arte: MHL
Arte: MHL

 

Especial: Joizacawpy Costa* 

Joizacawpy Costa : Natércia como foi seu despertar para literatura?

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Natércia Garrido = Meu despertar para a literatura se deu em casa, pois fui muito estimulada a ler desde criança. Minha mãe e meu avô (o pai dela) sempre foram grandes leitores, e livros eram o que não faltavam para mim. Comecei lendo história em quadrinhos – gênero que até hoje tenho paixão – e depois segui para os livros, orientada por minha mãe e meu avô.

 

JC: qual  seu  critério de escolha  para abordar  a poética modernista de Nascimento Morais Filho em Azulejos, tema de sua dissertação de mestrado?

NG = Eu quis demonstrar os procedimentos poéticos observados em Azulejos (1963) que a colocasse como obra representativa do Modernismo maranhense. Sendo assim, eu esperava que ela alcançasse o reconhecimento e validação para entrar no rol de obras modernistas em âmbito nacional. E creio que na minha dissertação eu demonstrei os pontos fundamentais que a caracterizam como modernista: o uso marcante da linguagem oral; os poemas dispostos em letras minúsculas e sem título; a presença forte da figura da mãe; a predominância de um eu lírico criança  - algo inovador; reflexões sobre a infância, sobre a memória da cidade, cultura e religiosidade em uma espécie de fragmentação do EU e das imagens. A fragmentação é uma característica extremamente importante para o Modernismo enquanto estética.

 

JC: Qual o peso de estudar e trazer à tona a obra de Morais Filho sendo você neta dele? 

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NG = Quando eu quis trazer as obras do Morais Filho para o estudo acadêmico, eu pensei em agregar meus próprios conhecimentos relacionados à literatura e crítica literária, já que esse foi o rumo que escolhi desde 2010 para fazer pesquisa. Também sabia que muitas pessoas da minha geração não o conheciam como poeta, e sim como ecologista. A minha família já esperava que eu fizesse isso haja vista que eu tinha, como eles gostam de dizer, “a faca e o queijo na mão”, ou seja, os livros e o conhecimento que eu vinha construindo há bastante tempo; nesse quesito, portanto, não houve peso ou pressão. Creio que as maiores cobranças e expectativas chegaram oriundas de meus colegas de profissão, algo como se minha relação afetiva com o objeto de minhas pesquisas fosse interferir ou até mesmo tornar minha opinião parcial em relação à crítica do autor e sua obra. Uma das razões pelas quais optei por fazer mestrado e doutorado em Literatura longe do Nordeste (fui para São Paulo) também foi essa: eu precisava entrar em contato com outras mentes, outras teorias e professores com outras formações. E foram minhas professoras da PUC-SP que sempre me incentivaram a seguir adiante com o meu projeto de estudo e crítica literária voltada para a obra poética do Morais Filho. Nunca vou me esquecer das palavras da prof. Dra. Maria Aparecida Junqueira, crítica literária de renome, uma das avaliadoras de minha banca de defesa da tese de doutorado: que a minha tese é o resultado da união entre ciência e amor. Então acho que é bem isso que resume minha trajetória de pesquisa com as obras do Morais Filho até esse momento.

 

JC: Quais os traços mais marcantes na poética de Moraes Filho ?

NG = O fio condutor nas obras dele é o tema da liberdade, explorada em diversos níveis de linguagem e imagens poéticas. A escolha desse tema é condizente com a própria vida do autor, que sempre se envolveu em causas que considerasse justas e voltadas para o conhecimento e a crítica social. O primeiro livro dele, Clamor da hora presente (1955), demonstra esse pensamento.

 

JC: Como ocorreu o processo de inserção de Moraes Filho no Modernismo?

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NG = O Nascimento Morais Filho assim como outros intelectuais de sua geração – aqueles que começaram a escrever e publicar seus textos, poéticos ou não, a partir da década de 1940 – se inserem em um Modernismo tardio, pois o Maranhão ainda seguia muito os preceitos clássicos e não conseguia compreender o que ocorreu 20 anos antes com o evento da Semana de Arte Semana e as profundas transformações desencadeadas a partir daí nas artes em geral – inclusive na literatura. No tocante especificamente ao Morais Filho, ele se insere no Modernismo maranhense ao fundar com vários amigos poetas o grêmio literário nomeado Centro Cultural “Gonçalves Dias” em 1945. Este grêmio apoiará inúmeros eventos culturais, fomentará várias iniciativas no âmbito de produção e publicação proporcionando novos espaços aos novos e aos já consagrados escritores maranhenses, como a edição de dois cadernos literários e do Suplemento Cultural – parte integrante do extinto jornal Diário de São Luiz. O Centro finaliza seus trabalhos em 1950 e então cada um dos integrantes segue sua própria trajetória literária.

 

JC: O eixo de contexto social influenciou no estilo modernista de Morais Filho, como podemos visualizar essa questão em suas obras?

NG = O contexto social sempre influenciou a escrita dele, pois criticava constantemente as injustiças, opressões impostas aos mais pobres, a exclusão social e o poder irrefreável nas mãos de poucas pessoas. E tudo isso está relacionado ao que ele mais defendia: que a liberdade nasce da consciência de cada um de nós. E como esta liberdade de consciência é alcançada? Por meio da educação, leituras e críticas. O Morais Filho sempre foi um grande defensor dos estudos, sendo ele prova disso. Seu pai, o professor, escritor e jornalista Nascimento Moraes, ensinou-lhe pelo exemplo de vida a lutar por seus ideais e a nunca desistir.

 

JC: Qual a maior contribuição de Nascimento Morais Filho para o modernismo maranhense?

NG = Como muitos escritores modernistas, sua maior contribuição é trazer a reflexão e a crítica social para um debate maior, por meio de vivências, fatos e imagens que não são apenas particulares, mas compartilhadas com muitos de seus leitores. Toda a obra autoral do Morais Filho foi escrita durante o Modernismo maranhense, ou seja, até o fim da década de 1970; então ele percebeu as mudanças sociais e políticas que o Estado e sua população passaram até aquele momento. A luta pela liberdade e pelo fim da miséria e a valorização de nossa cultura com certeza são suas maiores contribuições.

 

JC: Em que consiste perceber em Azulejos o retorno a infância?

NG = As memórias da infância se manifestam pela expressão poética do olhar do eu lírico menino José com o mundo ao seu redor e em suas relações sociais – com a mãe, os colegas de rua, as brincadeiras. Para além da infância, Azulejos traz outros contextos que marcam o conjunto lírico do poeta, como podemos perceber isso melhor nessa obra? O eu lírico menino vive em um contexto de muita influência cultural e religiosa, além de não pertencer a uma classe social abastada. Existem poemas que mostram ele esperando os presentes de Papai Noel, por exemplo, mas não ganha; existe a felicidade expressa em fatos simples da vida, como empinar papagaio e comprar doce no comércio; existe a forte relação com a mãe, que o educa de muitas formas e o prepara ética e moralmente para a vida.

 

JC: Por que o título Azulejos?

NG = Analiso que o título se refere não só à cidade São Luís e seus azulejos, que a tornam um símbolo de patrimônio cultural da humanidade, mas também constitui uma metáfora dos fragmentos de memória do sujeito lírico.

 

JC: Como interpretar a escolha do predomínio da linguagem oral e de subversão da língua normativa de Moraes Filho em Azulejos contrariando os rigores academicista do século XX?

NG = Subverter a linguagem, renová-la e transgredir suas normas é um belo exemplo de característica modernista.

 

JC: Como você analisa essa autonomia poética de Nascimento de Morais Filho num contexto que teve que romper com padrões estéticos e mesmo no que se refere a norma culta de construção da escrita?

NG = É importante destacar que Morais Filho também escreveu sonetos em sua fase inicial, como tantos outros escritores maranhenses, a exemplo de Horizonte Vesperal. Mas conforme ele vai estudando mais sobre literatura e sobre outras áreas de conhecimento, com o tempo sua escrita muda e a escolha de seus temas também. É um processo natural, aliado a seu crescente interesse pela cultura popular, que ele tem a oportunidade de experimentar 'in loco' quando começa a viajar pelo interior do Maranhão exercendo sua profissão de Fiscal de Rendas do Estado a partir de 1950. Seu livro de trovas Pé de Conversa (1957) é fruto disso.

 

JC: Saindo um pouco do foco da obra Azulejos, como você enxerga a relação de Nascimento Morais com a grande Maria Firmina dos Reis?

NG = É uma relação para sempre marcada pela História, isso é inegável, e que nenhum maranhense ou pesquisador de Firmina pode esquecer. Ao descobrir os textos de Firmina em jornais e semanários do século XIX em 1973, Morais Filho parou com a pesquisa que estava fazendo – sobre textos natalinos de autores maranhenses – e se dedicou totalmente a resgatar a memória desta grande mulher. Ele sempre valorizou as obras de nossos conterrâneos. O resultado desta pesquisa hercúlea está registrado em seu livro Maria Firmina – fragmentos de uma vida (1975), que pretendemos reeditar em 2023. É importante ressaltar que foi Morais Filho quem mexeu no cânone da literatura brasileira daquele momento ao inserir Maria Firmina dos Reis afirmando que ela é a primeira romancista do Brasil com seu romance Úrsula (1859). Mas não só isso: que a primeira romancista de nosso país é também uma professora negra e a primeira a expressar um discurso abolicionista em uma época que nem se podia pensar em verbalizar algo do tipo. De muitas formas, Morais Filho se orgulhou de trazer para o mundo a trajetória de Firmina e devemos a ele o fato de hoje estudarmos, pesquisarmos e lermos a obra dela, difundindo-a e celebrando-a para o mundo inteiro.

 

JC: Natércia qual poema de Azulejos tu escolherias para imprimir em nós a memória viva e marcante de Nascimento Morais Filho?

NG = Eu gosto muito deste aqui, pela singeleza com que o sujeito lírico explica sobre liberdade, fantasia e maternidade, tudo expresso no ato de sonhar e voar; este poema também enseja o pensamento ecológico do autor, que se manifestaria mais fortemente a partir de 1980:

 

solta o passarinho!...

mamãe disse que o passarinho é criança

que estava presa no escuro...

e que chorava...chorava...

porque não via a mãe dela!

aí, apareceu uma fada chamada liberdade

e ficou com pena da criancinha,

porque não conhecia a mãe dela e chorava...

aí, que a fada disse assim:

- ‘vou te encantar num passarinho

e vai procurar a tua mãe

pra rir pra ti...e brincar contigo!’...

aí, a fada deu duas asas para a criança voar...voar...

até encontrar a mãe dele!... 

(MORAIS FILHO, 2013, p.160).

 

JC: Qual a tua perspectiva em relação aos estudos da literatura maranhense na atualidade e na posteridade?

NG = Creio que já há mais de duas décadas as pesquisas em torno da Literatura Maranhense tem se expandido gradativamente, sob os esforços de dois estudiosos: o prof Dr. Dino Cavalcante e o prof Dr. José Neres, ambos também escritores e críticos literários com vasta obra publicada nesta seara. O acesso a mais obras reeditadas e a digitalização de textos provenientes de acervos raros pelas bibliotecas tem proporcionado que mais estudiosos – e nisso me incluo – possam pesquisar nossa história literária e divulgá-la nos meios acadêmicos. Essa perspectiva só tende a aumentar e melhorar, pois com certeza queremos que mais pessoas se juntem a nós.

 

JC: Como você avalia o cenário literário vigente no Maranhão e no Brasil?

NG= Existe hoje, na contemporaneidade, uma geração que se preocupa em estudar e publicar seus textos em vários canais de informações e que utiliza a literatura como expressão crítica de nosso momento social. Temos bastante produção literária de qualidade, vários eventos que divulgam os trabalhos desses autores; as diferentes mídias e o uso das redes sociais também faz com que a sociedade perceba que a literatura não é algo estanque ou distante de seus leitores. Pelo contrário: a literatura, como qualquer expressão artística, caminha lado a lado com todas as transformações. É ela que nos faz desautomatizar o olhar e nos deslumbrar diante da vida que acontece no presente, passado e futuro.

 

* Professora, Poeta e escritora. (Conforme o original).

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Dilercy Aragao AdlerHá 3 anos atrásSão LuísParabéns às duas escritoras! Nascimento Morais Filho é, de fato,um grande poeta, pesquisador, ambientalista, um intelectual que deixou marcas inapagáveis na cultura e educação do Maranhão.
Mama TrindadeHá 3 anos atrásSalvador BahiaSeu José, Saravá. Eparrei. Me emocionei com suas palavras e como mãe, posso dizer que a voz poética de seu Nascimento Filho é de uma criança que está seguindo o conselho de sua mãe para soltar o passarinho. A mãe, nesta história, é a personagem que representa a sabedoria e a experiência de vida que a criança ainda não possui.
Prof. José de Ribamar GomesHá 3 anos atrásBrasília DFMinha cara Natércia. O seu Nascimento frequentou muito minha casa quando kmorávamos na rua São Pantaleão. era garoto e ouvia dele muitas histórias. Vez por outra recitava um poema para meu pai. Hoje, sou professor de literatura e gostaria de dizer que "solta o passarinho!..." é um poema comovente que traz à tona questões importantes sobre a vida, a liberdade e o respeito aos seres vivos. Ele é uma prova do poder da poesia em transmitir mensagens significativas de maneira simples e direta.
Lauande TrintaHá 3 anos atrásRio de JaneiroEssa forma de fazer entrevista com essa sublinhado de amarelo ficou show
LourdesHá 3 anos atrásRio de JaneiroBoa leitura. Fantástico.
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