BALLET DE SANTOS E DEMONIOS tem um valor histórico inestimável, reunindo artigos de mais de vinte anos de experiência jornalística de seu autor, refletindo vários momentos políticos e sociais do Maranhão. O leitor identificará, na obra, o estilo conciso, belo e simples, capaz de arrastá-lo à leitura da primeira a última página, onde não observamos apenas o fogo da sua trincheira, mas páginas de elevado calor humano, onde estão refletidas as qualidades mais raras de um homem que se dedicou a quase todos os gêneros da literatura, sempre colocando, acima de qualquer interesse pessoal, a defesa dos espoliados, dos aflitos, dos modestos, enfim, da própria comunidade brasileira".
(Dos editores do livro de Carlos Cunha).
A DIMENSÃO DO VALOR HUMANO
Wolney Milhomen
Quando conhecemos Carlos Cunha, há mais de 3 décadas, logo nos ficou a impressão de que aquele jovem, de semblante determinado, iria exercer posição de relevância intelectual na vida do Maranhão e do País, para que não lhe faltariam enormes recursos, e por demais necessários à sustentação de uma guerra de ideias. E aos 17 anos de idade, já o víamos jornalista, firme e ardoroso nos embates, embora tivesse de lutar durante aproximadamente 5 anos para romper o casulo do anonimato. Ocorre que o vigoroso talento e o incontido respeito pela condição humana, dele fizeram o grande jornalista, com marcante ressonância nos meios políticos e sociais.
Entendendo exercício da imprensa como sacerdócio do pensamento, Carlos Cunha manteve-se ileso ao curso de todas as erosões existenciais, mantendo vivo aquele ideal de menino iluminado. Assim, apaixonado pela causa dos fracos e dos humildes, não fez, em ocasião alguma, concessões À injustiça, preferindo - tantas foram as vezes - o ostracismo voluntário.
É imperioso exaltar, também, que o escritor, o poeta, o critico literário Carlos Cunha expressando-se em estilo desenvolto e cintilante tem mais de 20 livros publicados, o que lhe proporciona suporte cultural admirável, a par de alta reputação no Estado e em toda a Nação. Preferimos, no entanto, interpretar a personalidade do jorna- lista versátil, elevado coerente, para quem e o modus- vivendi estreito e mesquinho é inegociável, optando destarte pelas batalhas em campo raso, contanto possa preservar os seus sentimentos na verdade bíblicos.
Lançando agora o livro BALLET DE SANTOS E DEMÔNIOS, que reúne artigos divulgados durante larga época, o autor consagra a sua postura de jornalista, por tratar-se de obra de expressiva abrangência, onde se observa a travessia da adolescência à maturidade, num belo roteiro de lutas. Mas é oportuno assinalar as emoções que descem da pena do jornalista, tão sensível e profundo nos temas que levanta e comenta. E como o filósofo que se opõe a pisar os tapetes do castelo nobre, a busca a tenda encantada para clarear a noite com as suas centelhas de raro fulgor, Carlos Cunha é um vocacionado para as coisas do espírito, e em nenhuma de suas produções se detectam resíduos de maldade ou incompreensão.
É um jornalista definitivamente livre. Manejar a pena para ele é mover um pensamento ou agitar uma ideia com a mais alta inspiração, como se estivesse armando poemas peregrinos no universo aberto. E vale sublinhar que os seus gestos de severa meditação indicam o analista do homem coletivo, a evitar a individualização primária no exame dos comportamentos políticos e sociais, porque sem dúvida a altitude é indispensável, enquanto o enfoque subalterno não lhe convém sob qualquer pretexto. Por isso, ao estudar os mais variados quadros da terra e do povo, o jornalista configura em seus textos a certeza de que é fiel às regras do idioma e às exigências da ética. Bem sabemos - nesta linha de raciocínio - que a impressionante popularidade do autor é creditada ao tipo conceitual de atuação no âmbito do jornal e do livro. Evidentemente, esse fator de prestígio pessoal poderia ter-lhe proporcionado amplas vantagens. Mas o jornalista a tudo isso renuncia com a curiosa simplicidade de uma figura monástica.
O Maranhão, como secular celeiro de inteligências, não apresenta declínio em seus níveis, a propósito de declararem, alguns críticos estéreis, ter a Atenas Brasileira perdido a sua imagem. Absolutamente. A terra maranhense continua a desfrutar do melhor conceito, com intelectuais pontificando em todas as áreas e com respeitável projeção no País, sendo Carlos Cunha um dos maiores expoentes de nosso âmbito de potencialidades culturais. E ressalte-se: como jornalista do melhor embasamento, não recuou uma só vez neste sublime e sa criticado oficio, que dele requer toda a constância. A esta altura, ao transpor as fronteiras estaduais, fez-se conhecido e reconhecido pela clarividência dos círculos intelectuais, admirado pelos verdadeiros críticos. Assim, por ser cioso no apostolado de examinar e comentar o perfil dos fatos, pode o autor dar-se por satisfeito nessa longa trajetória.
Sempre o vimos de pena à mão, censurando ou exaltando com a sua parcimônia de mestre consumado. E segue o autor de BALLET DE SANTOS E DEMÔNIOS a sua destinação agitada e reluzente, acreditando que a opinião pública, imparcial e livre, não deixará de reconhecer-lhe o mérito. Pois a sua mesa de trabalho é uma forja de cultura atenta às manifestações do povo. E vale acentuar que a forma expositiva de seus artigos dispõe de essência social, poder que lhe confere a faculdade de promover a hermenêutica de todas as causas saudáveis, com as quais assumiu firme compromisso.
Esquecendo-se de si mesmo, por viver num universo de alto humanismo, Carlos Cunha é um homem superior e um intérprete do espirito do povo. E aos 52 anos de idade, já realizou uma obra que, tanto pela extensão como pela densidade, impressiona qualquer observador erudito, revelando alta sensibilidade nos aspectos em abordagem, quando se identifica o senso de grandeza do articulista. E o notável jornalista Carlos Cunha deixa à nossa análise a serena convicção de que só a palavra, nobremente talhada, resiste ao julgamento da consciência da História.
WOLNEY MILHOMEM
Brasília, 10 de setembro de 1985
******************
Carlos Cunha: nem Anjo, nem Demônio. Apenas, CARLOS CUNHA!
*Mhario Lincoln
Carlos Cunha começou sua carreira no jornalismo jovem e aprendeu a arte de escrever através de sua experiência diária nas redações. Ele trabalhou em várias, desde a produção até a edição, e escreveu reportagens, crônicas e editoriais que tiveram um impacto significativo na opinião pública. Por algumas vezes estivemos juntos. Quando encontrava com ele no Abrigo da João Lisboa, na nossa cidade de origem, São Luís-MA, ouvia atentamente os rascunhos do artigo que ele publicaria no dia seguinte.
Assim, fui colhendo frutos lendo muito Carlos Cunha. E, através dessas leituras, aprendi a ser um jornalista forte e independente, também. Isso me custou caro, assim como a ele.
Aplaudo toda trajetória que ilustra como a escrita pode ser uma poderosa ferramenta para buscar a verdade e despertar a consciência coletiva. Muitos escritores ao longo da história, se dedicaram à mesma causa da verdade e da integridade, lutando contra a desonestidade e as mentiras que permeiam nossa sociedade, mesmo estando em lugares distantes, uns dos outros. Exemplos que me vêm à cabeça neste instante: George Orwell, autor de "1984" e "A Revolução dos Bichos", cujas obras denunciaram os abusos de poder e a manipulação da verdade. Carlos Cunha se junta a esse grupo de escritores corajosos e comprometidos com o povo. Sua reputação é baseada em sua honestidade e integridade profissionais.
Muitas vezes, acrescentava em seus artigos impactantes que "nunca toleraria a falsidade e a desonestidade". Aí é que entra o ódio imbatível dos 'poderosos', cuja coragem de Cunha foi gerando antipatia entre eles (e seus seguidores), resultando na mais brutal injustiça e discriminação já vista em solo maranhense, contra um pensador-poeta dos mais brilhantes de toda uma geração.
Apesar dessas adversidades, ele perseverou e tornou-se imortal. Tanto que nas conversas entre amigos, quando alguém é rígido na busca por integridade ou valores da justiça, liberdade e amor ao próximo, tem sempre alguém que ressalta, "tá dando uma de Carlos Cunha". Por isso, essa luta está adjetivada no coração de todos aqueles que o conheceram e o aplaudiram, como eu.
Destarte, eu acredito que essa trincheira de luta está firmemente estabelecida na imprensa e na literatura, pós-Carlos Cunha, mesmo que ainda haja - e em ruim quantidade - aqueles que seguem submissos aos controladores da grande mídia. Mas há os que conseguem respirar brilhantemente no espaço-trincheira do enfrentamento corajoso a seus oponentes, defendendo seus ideais.
Para mim, Carlos Cunha sempre será um farol de coragem e determinação. Convido meu pai José Santos para a conversa (primo de Cunha). Em muitas oportunidades ouvi dele, quando ainda cursava Comunicação (UFMA), "(...) é descomunal a resiliência de Carlos. São exemplos inspiradores para você e para todos aqueles que acreditam na importância da verdade e da honestidade, usando uma das maiores forças da humanidade: a pena (...)".
Enfim, vale ressaltar que o jornalismo ajudou Carlos Cunha a se consagrar no campo literário. Sua dedicação e talento lhe renderam o reconhecimento de instituições culturais de grande prestígio, como a Academia Maranhense de Letras e o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, bem como entidades de renome nacional, como a Associação Brasileira de Imprensa, Academia Brasileira de Literatura (ABDL) e Academia de Letras José de Alencar, entre outras. Essas afiliações destacam não apenas a importância de Carlos Cunha no mundo literário e cultural, mas também suas conquistas e contribuições significativas para a sociedade.
Ninguém esquecerá, por exemplo:
"Papai-Noel, que vergonha! Eu/confesso de você/Sonhei muito, mas quem sonha/não vive bem, já se vê./Ainda tenho os sapatinhos/que guardava pra você/Andei por muitos caminhos/não o vi, não sei por que...///Ainda guardo os sapatinhos/empoeirados, tristonhos,/mas dentro deles sozinhos/os fantasmas dos meus sonhos!/ Papai-Noel, que vergonha,/se você me visse agora:/alma cansada, tristonha, cheia/do nada de outrora/Quantos sonhos disfarçados/em seu saquinho, Noel,/castelos alicerçados/em colunas de papel./ Papai-Noel, por favor,/não minta para as crianças/traga mensagens de amor/e um Natal só de esperanças!"
E como ele mesmo disse, "Nunca pretendi ser e desejei ser o maior poeta do meu Estado. Eu que talvez não seja o maior poeta de minha cidade, do meu bairro, da minha rua e de minha casa. Só sei que a minha poesia sobe e desce as ladeiras de São Luís nos braços do povo. Isto me dá a convicção de que sou poeta...". (CC).
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