Redação do Facetubes/Releituras/Literatura Comentada(*).
Releitura de algumas confidências do escritor José Louzeiro, ao livro "Literatura Comentada."
O COMEÇO
José Louzeiro veio ao mundo no dia 19 de setembro de 1932, em um bairro de São Luís, no Maranhão. Seu pai possuía um nome bastante peculiar: Aproniano. Nas próprias palavras de Louzeiro:
"Ele começou como pedreiro e, mais tarde, evoluiu para mestre de obras, uma progressão natural na profissão. Era um excelente pedreiro, mas isso não trazia muito orgulho ao meu avô... Imagina só, um pescador ter um filho pedreiro? É realmente absurdo! Já o meu avô se chamava Severo. Quando o conheci, ele já era Louzeiro, mas na verdade seu sobrenome era Loureiro. Alguns dos seus filhos têm o sobrenome Loureiro, outros Louzeiro. Ele era pescador, mas nos momentos de folga trabalhava com madeira polida, confeccionando quadros-negros para as escolas da cidade de Guimarães (MA). Naquela época, o quadro-negro era chamado de lousa, e quem fabricava lousas era chamado de 'louseiro'. Então começaram a chamá-lo de Louzeiro, e ele, que sempre achou o nome Loureiro incompleto - por que eu não sei -, passou a assinar como Louzeiro."
"A família da minha mãe, Raimunda de Souza Louzeiro, é natural de Pinheiro, no Maranhão, uma cidade famosa pela quantidade de intelectuais. Tinha um certo status, digamos, de classe média. Seu pai era advogado e chegou a ser juiz. Eu presumo, só percebi isso mais tarde, que a família a excluiu porque ela se atreveu a casar-se com um simples pedreiro, filho de um pescador. Gostaria de mencionar o nome da minha avó, Dorotéia, que me contava histórias, insistia para que eu aprendesse a ler e me lia os primeiros folhetins de cordel e os almanaques com previsões das fases da lua e propaganda de remédios infalíveis, além de pitorescas histórias do Jeca Tatu. Esses almanaques eram distribuídos de porta em porta."
"No início, meu pai bebia muito. Eu já era mais crescido, devia ter uns oito anos, quando ele se converteu ao protestantismo. E aí aconteceu algo significativo: ele se tornou um chato completo, como costumam ser os protestantes convertidos. E não satisfeito com isso, tornou-se presbiteriano, que naquela época era o tipo mais rigoroso de protestante, o mais sectário. Para os presbiterianos, tudo era pecado: dançar, ir ao cinema, ouvir música, namorar, beijar, comer demais ou comer de menos... tudo!"
"Eu nunca me converti nem mesmo ao catolicismo. Quando você é filho de um protestante, não consegue ser outra coisa. De repente, meu pai transformou nossa casa, que antes era um santuário católico, em um santuário protestante. Isso é algo que nunca se esquece. Lembro-me quando o pastor e outros membros da igreja vieram. O pastor entrou na nossa sala onde estavam os objetos de devoção da minha mãe, retirou os santos, quebrou-os e os jogou no quintal. Foi chocante ver tudo aquilo que era tratado com carinho e respeito ser jogado de repente no galinheiro. Eu não sinto necessidade de religião porque acredito em tudo, principalmente no ser humano."
"Deixando isso de lado, entrei para um colégio público em São Luís chamado Curso de Aplicação Gilberto Costa. Meu pai me deu roupas, sapatos, livros, e acabei me tornando um bom aluno. No entanto, por volta do quarto ano primário, sofri uma queda que causou uma séria infecção no meu ouvido direito, e fui praticamente condenado à morte. Fiquei afastado por dois anos."
A infecção se transformou em uma ferida crônica que se espalhou por todo o ouvido. E progredia sem que a medicina pudesse fazer algo a respeito. Um dia, fui ao consultório do Dr. Carlos Macieira com meu pai. Eles se trancaram em uma sala reservada, mas eu fiquei ouvindo tudo através da parede. O Dr. Macieira disse: "Você vai aplicar uma injeção no garoto, mas não tem jeito para ele. A infecção vai se espalhar para o outro ouvido. Esse menino viverá mais um ano, talvez um ano e meio. Precisamos ter paciência". Fiquei angustiado. A situação estava tão grave que, para cauterizar a ferida, era necessário derramar água oxigenada dentro da orelha. Às vezes, a água não queimava apenas a ferida, mas também a orelha."
No entanto, graças à homeopatia e a uma pessoa que sempre lembrarei com saudade, chamada Umbelina, consegui me livrar da infecção. Gostaria de chamá-la de Senhora Umbelina. Ela era nossa inquilina. Deixe-me explicar. Meus pais tiveram dezesseis filhos, dos quais dez faleceram. Meu pai trabalhava muito para sustentar a família e, nos momentos vagos, construía casinhas para alugar. Em uma dessas casinhas, em frente à minha, morava Umbelina, que ficava na janela conversando com minha mãe. Um dia, ela disse: "Um médico homeopata do Piauí, um grande amigo meu, estará aqui comigo. A senhora deveria procurá-lo". Esse médico era amante dela. Infelizmente, não consigo me lembrar do nome desse homem, que na época devia ter por volta dos cinquenta anos e cabelos quase brancos. Meu pai achava que eu não deveria ir, pois seria inútil. Os protestantes têm uma característica engraçada: eles não acreditam em nada aqui na terra."
"Minha mãe foi comigo. O médico nos deu dois vidrinhos, um com gotas para pingar no ouvido e outro com um líquido para tomar. Ele me disse: "Em algum momento, você sentirá um barulho e coceira, mas tente não coçar, pois isso significa que a ferida está cicatrizando". Segui o conselho à risca e melhorei, sem nenhum problema auditivo."
*Entrevista concedida por José Louzeiro a Antônio Roberto Espinosa.
(Cont.)
Vídeo-Bônus
A última entrevista de José Louzeiro a Carlos Nina, convidado do Facetubes, à época, para a reportagem. Nina conseguiu uma entrevista histórica, mesmo que o áudio e o vídeo tenham sido gravados de forma artesanal, em razão da oportunidade única de entrevistá-lo. Abaixo, um trecho:
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