*Mhario Lincoln
No "Ressurreição", Lívia propõe a Felix: "Fiquemos amigos, disse ela. A amizade lhe fará esquecer o amor". Quem leu sabe que eles nem amigos ficaram. Isso qualifica esse primeiro romance de Machado de Assis, como um 'romance da negação'. Ele tinha 33 anos. Aliás, é a súmula para a 'negação de tudo', que dá cheiro de modernidade a este primeiro trabalho de Assis, pois de ressurreição, mesmo, nada tem no contexto da história. (MHL).
CONFIDÊNCIAS
É muito prazeroso ler Machado de Assis. Há 151 anos era lançado um romance que marcou minha adolescência: 'Ressurreição'. E por quê? Inversamente proporcional à história contada por Assis, eu me apaixonei por uma pessoa mais velha, na época (em ‘Ressurreição’ "Felix" é mais velho) e passei por quase todas as situações que envolvem os personagens da história, cujo livro foi lançado em 1872.
E ontem, navegando pelos meus arquivos de livros digitalizados, reencontrei ‘Ressurreição’ e, na intimidade de meu escritório relembrei essa minha aventura amorosa envolvendo (eu) um pré-adolescente e minha professora de Artes, no Liceu Maranhense, alguns anos mais velha. Diante disso, vi-me numa trama onde meus conflitos internos, minhas motivações ocultas e a complexidade da mente de um pré-adolescente fluíram de forma incontrolável diante desse ‘amor’ por uma pessoa mais velha, a quem dediquei muitos momentos pessoais e intransferíveis, nesse curto período.
Foi dando uma passada d'olhos em ‘Ressurreição’ que esses pensamentos longínquos povoaram meu mundo encantado do ontem. E revivi, em tom emotivo, a visão intimista e psicológica dessa obra, onde o foco está nos conflitos internos e nas escolhas morais dos personagens, explorando temas como arrependimento, redenção e - busca pela identidade - (Eita! Esta me pegou).
Revivi, repito, a história de amor entre Felix e Lívia, no meu caso de forma inversa: ela, minha professora, uma mulher sóbria, mas também envelhecida para a época. E como no romance de Assis, essa relação praticamente platônica (no meu caso) é marcada por intensos surtos de ciúmes de minha parte, a ponto de ficar vários minutos à porta do colégio, depois das aulas, esperando que ela saísse, para saber se alguém a viria buscar. Agora eu pergunto: quem não passou por isso? Aliás, Bentinho também passou por isso num relacionamento tumultuado entre ele e Capitu, na obra subsequente ‘Dom Casmurro’ (1899), relembrando Felix e Lívia, de 'Ressurreição'. O legal disso é que vários críticos literários acreditam ser o livro de 1872, a obra-laboratório ou a precursora da obra-prima ‘Dom Casmurro’, por essas simetrias textuais.
AS FASES DE MACHADO DE ASSIS
Claro que se deve anotar - numa questão comparativa entre as duas obras de Assis, algumas coisas, como, na de 1872, onde ainda acontece o amadurecimento do autor, enquanto na de 1899, surge a fase aguda e realista da maturidade romântica. Tanto que o personagem Felix cria fantasmas e vive atormentado por um ciúme doentio, sem qualquer conexão com o mundo real. Já Bentinho, mesmo demonstrando muita insegurança no relacionamento, não! Apesar disso, Assis o caracteriza com uma profundidade narrativa singular e distinta.
O que até agora não consegui entender direito (e quem quiser me ajudar comenta abaixo do texto), é o porquê de Machado de Assis não deixar claro se essa insegurança de Bentinho é fundamentada na realidade ou se existe apenas na mente imaginativa do próprio personagem.
Quanto às mulheres de Machado de Assis - meu título para esta conversa - acredito ser Capitu muito menos previsível e evidente em suas ações e motivações quando comparada a Lívia. Isso implica que Capitu é mais complexa e desafiadora de ser compreendida em sua natureza e comportamento. Por isso que essas interpretações destacam: 1- a profundidade narrativa de Bentinho; 2- a ambiguidade da insegurança do personagem; 3- a densidade comparativa entre Bentinho e Felix; e 4- a complexidade de Capitu, em relação a Lívia. Isso, em interpretação minha, prima facie.
A INCLUSÃO DO PERSONAGEM IAGO
Outra coisa interessante em ambas as obras, é a semelhança entre os romances, através da notória figura de "Iago", personagem de Shakespeare, que desperta ciúmes em Otelo. Está presente em ambos os livros: em ‘Ressurreição’, o narrador afirma: "Ele não adotou o método de Iago, considerando-o arriscado e infantil; em vez disso, inseriu as suspeitas nos olhos dela". Em ‘Dom Casmurro’, Iago retorna com uma sutileza maior: "Essas eram as ideias que passavam pela minha mente, vagas e confusas, enquanto o mouro se debatia e Iago destilava sua calúnia".
AS INFIDELIDADES
Em relação à dúvida sobre a fidelidade de Lívia é importante analisar a obra dentro do contexto literário e cultural da época. Nas obras de Machado de Assis, há uma preocupação com os relacionamentos humanos e suas complexidades psicológicas. O ciúme, a falta de confiança e as dúvidas sobre a fidelidade são temas recorrentes em sua escrita. Sobre a fidelidade de Lívia essa dúvida persiste, acho eu, devido à perspectiva e insegurança do protagonista Felix, que é atormentado por seus próprios sentimentos e suspeitas.
DIÁLOGOS
As críticas literárias sobre o livro ‘Ressurreição’, também, reagem sobre os diálogos dos personagens cheios de frieza e artificialismo. No entanto, é importante levar em consideração o contexto histórico em que a obra foi escrita. Na época de Machado de Assis, era comum o uso de uma linguagem assim e a técnica de diálogo presente nesse livro pode refletir essa tendência. Além disso, Machado estava experimentando e desenvolvendo sua própria voz literária, o que pode explicar algumas características de estilo presentes na obra.
Outra perspectiva crítica argumenta que os diálogos frios e artificiais em ‘Ressurreição’ são uma escolha consciente do autor para mostrar a sociedade daqueles dias. Machado de Assis era conhecido por sua crítica social e por descrever as convenções e hipocrisias da sociedade brasileira do século XIX. Nesse sentido, os diálogos artificiais podem nos fazer entender como sendo uma representação da falsidade e superficialidade das relações sociais da época.
EPÍLOGO
Ler ‘Ressurreição’ e ‘Dom Casmurro’ é perceber que Machado de Assis alcançou seu objetivo, unindo as duas extremidades de sua vida.
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Excertos:
Numa conversa com Viana, irmão de Lívia, o qual Felix, com os seus botões, nomeia sempre de "parasita", misto de oportunista e adulador para se dar bem na vida a meu ver a protoforma menos digna de José Dias, de ‘Dom Casmurro’, chega-se à seguinte conclusão:
"- Livia tem esse defeito capital: 6 romanesca. Traz a cabeça cheia de caraminholas, fruto naturalmente da solidão em que viveu nestes dois anos, e dos livros que há de ter lido. Faz pena porque é boa alma."
Como não ver nesse juízo parasitário de Viana a sombra quase explícita de EMMA BOVARY, acusada por FLAUBERT de ter sido vítima dela mesma, das leituras românticas que fazia, enchendo a cabeça de tolices romanescas?
Madame Bovary é de 1857 e "Ressurreição", de 1872. Mesmo que alguns críticos digam o contrário, "não se pode dizer que nesse comentário do irmão de Lívia não esteja presente o escritor francês. Para a confirmação disso valho-me aqui da última carta escrita por Machado de Assis ao amigo MÁRIO DE ALENCAR, datada de 29 de agosto de 1908, a um mês do falecimento do escritor (...). Na carta, ele diz com todas as letras: 'Meu querido amigo, hoje à tarde reli uma página da biografia de Flaubert; achei a mesma solidão e tristeza e até o mesmo mal, como sabe o outro". Solidão e tristeza de Flaubert; solidão e tristeza de Machado; e solidão e tristeza de Lívia (...)".
Excertos com base na leitura de artigos escritos pelo professor Roberto Sarmento Lima, doutor em Estudos Literários e professor titular da Universidade Federal de Alagoas. Autor do livro "O narrador ou o Pai Fracassado: revisão critica e modernidade em Vidas Secas", 2015, pela Omini Scriptum, Alemanha.
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