Redação do Facetubes
O casamento de Machado de Assis e Carolina Augusta Xavier de Novais foi marcado por dificuldades e obstáculos impostos pela sociedade da época.
Machado, um mulato de origem humilde, encontrou-se inserido em um círculo social dominado pela elite branca. Carolina, por sua vez, era de família abastada e intelectualmente conceituada. Essa disparidade social se tornou um fator de tensão, contribuindo para uma série de limitações impostas ao casal.
Apesar das dificuldades enfrentadas, Machado e Carolina construíram uma relação sólida e duradoura. Carolina era uma mulher de grande inteligência e sensibilidade, características que provavelmente atraíram Machado e o inspiraram em sua vida e obra. O escritor tinha um profundo afeto por ela e seu falecimento, aos 70 anos, representou uma perda irreparável em sua vida.
A dor pela morte de Carolina é evidente em uma carta que Machado de Assis escreveu ao amigo Joaquim Nabuco, na qual ele expressa seu sentimento de solidão e declara que “a melhor parte de sua vida se foi”.
Ele compartilha sua tristeza por terem envelhecido juntos e sua expectativa de morrer antes dela, considerando isso um favor. Essas palavras revelam a profunda ligação emocional e afetiva que Machado tinha com Carolina, bem como a angústia causada por sua ausência.
Alguns estudiosos da obra de Machado de Assis garantem que ela desempenhou um papel significativo em sua vida pessoal, sendo uma fonte de apoio, inspiração e companheirismo e sua influência pode ser vista de maneira sutil em várias passagens de suas obras.
Carolina era irmã de seu amigo e poeta Faustino Xavier de Novais. A morte da mulher, em 20 de outubro de 1904, depois de 35 anos de convivência, lhe inspirou o antológico soneto “A Carolina”.
Soneto à Carolina
Machado de Assis
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
Trago-te flores – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Machado ainda exprimiu a dor da perda nesta carta a Nabuco.
"(...) Meu caro Nabuco,
Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes que a consolariam das saudades, e eu não tenho nenhum. Os meus são os amigos, e verdadeiramente são os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas preocupações do espírito e na própria carreira que a cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará. (...)". Machado de Assis, Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1904.
Excerto original de: (Correspondência Machado de Assis & Joaquim Nabuco. Organização de Graça Aranha. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/Topbooks, 2003, pp. 126-127).
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