
06 - WANDA CUNHA – “A Poética do Espaço”, do poeta francês Gaston Bachelard, reúne, em dez capítulos, as relações entre o homem e os espaços, mostrando quão influentes são os espaços nos quais habitamos para desencadeamento de emoções. Ele diz que espaços como o quarto, o porão, o sótão, ou as gavetas, cofres e armários são espaços íntimos. A casa é, de forma simbólica, onde a vida é criada e, simultaneamente, o refúgio. Por outro lado, lê-se: “Chuvas do Hoje molham a cidade com glórias do Ontem e ensopam de Amanhãs as úmidas esperanças. Por fim, banham meus olhos de Saudade! Ave, São Luís!” (Poesia de Mhário Lincoln). Baseado nos espaços sugeridos por Bachelard e na tua poesia supracitada, qual a tua relação com teus espaços dentro da tua poética, ancorada na ilha de São Luís, da qual saíste para o alcance de voos virtuais que te presenteiam com a onipresença cultural?
MHARIO LINCOLN - Quem leu esse fantástico Gaston Bachelard, sabe que suas conjecturas precisam de bastante atenção e discernimento para entender o espírito quase matemático constante em “A Poética do Espaço”. Ou seja, o mesmo espaço que nos encerra, nos comprime, nos obriga a percorrer trajetórias retas ou circulares, nos confronta com obstáculos, nos coloca frente a frente com a necessidade de agir e reagir, acaba sendo o mesmo forjador da própria imaginação, com base em nossas memórias. No meu caso específico com São Luís: inúmeras memórias afetivas.
Pois bem! É exatamente nesse encontro entre "o espaço objetivo e o espaço subjetivo, que surgem as poéticas do espaço, as narrativas que damos a ele, as significações que atribuímos", diz Bachelard. Ora, explorar as múltiplas dimensões do espaço, claro que vai levar quem pensa e raciocina, a desvendar as profundezas de nossa própria existência "(...) e a compreender as simbologias que o espaço carrega e a reconhecer a importância da intimidade que estabelecemos com os lugares que habitamos (...)".
Ou seja, mutatis mutandi, quando se trata de espaço-mãe, que também incluo nesse contexto bachelariano e adaptando-o para algo como, "ubi nati sumus", posso acrescentar: "A gente sai do sertão. Mas o sertão não sai da gente!", versos cantados pelo imenso Patativa do Assaré. Assim estou eu: pertíssimo de lá, mas longe daqui.
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