José Rafael de Oliveira*
Os genes SPCH1 e FOXP2 já foram identificados no genoma humano, sendo o primeiro associado à gramática e o segundo à linguagem. Seguindo essa linha de pesquisa genética, é possível que um gene ligado à leitura também seja identificado. Quando estimulado adequadamente, esse gene pode despertar uma verdadeira paixão ou compulsão pela leitura, tanto de obras clássicas quanto contemporâneas.
No entanto, uma pesquisa divulgada em 2020 pelo Instituto Pró-Livro, intitulada Retratos da Leitura no Brasil, revelou que 48% da população brasileira não possui o hábito de leitura. A situação é ainda mais preocupante, uma vez que o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) indica que 38% dos universitários brasileiros são analfabetos funcionais. Talvez por isso, uma encenação de Hamlet no cinema ou no teatro seja mais atrativo e mais acessível do que enfrentar as inúmeras páginas escritas por Sheakeaspere no século XVIII. De todo modo, essa forma de apreciação da arte proporciona prazer ao observar imagens, ouvir sons e vozes, interagir com a ação, além de poder admirar a habilidade dos autores em cena, além de economizar tempo e imaginação. Mas, por outro lado, perde-se a experiência deliciosa do tocar, do folhear, do cheirar, compartilhar cumplicidade e desfrutar da magia que um livro sempre oferece
A leitura nos permite experimentar sensações visuais, táteis, olfativas, gustativas, auditivas, levando-nos a uma viagem pelas palavras, frases, versos, parágrafos, capítulos até chegarmos ao cerne da linguagem. Cada leitor tem a liberdade de apreciar à sua maneira as palmeiras descritas no poema “Canção do Exílio” (Gonçalves Dias); os seios dourados de Saraminda (José Sarney); a fala rústica de Fabiano (Graciliano Ramos), os olhos de ressaca de Capitu (Machado de Assis), os lábios de mel de Iracema (José de Alencar), a sensualidade de Vanju (Josué Montello), as metáforas tão originais na poética de Nauro Machado. Dessa forma, a delicada lamparina da nossa imaginação ilumina os labirintos das entrelinhas de um texto, revelando a sua inesgotável fonte de significados.
Mário Vargas Llosa afirma que “um dos momentos mais importantes da vida é quando aprendemos a ler”. Harold Bloom, por sua vez, reconhece que “Uma das funções da leitura é nos preparar para uma transformação”. Essa transformação nos permite compreender o tempo, o espaço, a vida e a realidade sob uma perspectiva crítica ou autocrítica. Através da leitura, somos capazes de entender a sociedade em seus diversos paradigmas, sejam eles filosóficos, sociológicos, históricos, religiosos, científicos, pedagógicos, políticos, literários, entre outros. Além disso, podemos apreciar e compreender as diferentes manifestações humanas, incluindo pintura, dança, música, escultura, desenho, grafite, literatura, folclore e muito mais. É por isso que aprendemos a nos encantar com seres brilhantes ou especiais como Van Ghoh, Mozart, Dostoiévski, Drummond, Jorge Amado, Patativa do Assaré, Bumba meu boi e até mesmo a biografia de personalidades locais ou mundiais, como a do poeta chileno Pablo Neruda.
Portanto, os livros ocuparão sempre uma posição de destaque em qualquer biblioteca, seja ela pública ou particular. Apesar do tempo, obras como “Cem anos de Solidão” de Gabriel Garcia Marques, “Ulisses” de James Joyce, “O vermelho e o Negro” de Stendhal ou “Grande Sertão-veredas” de João Guimarães Rosa, sem dúvida, ocuparão um lugar privilegiado na imaginação do leitor.
*Médico, membro da SOBRAMES-MA
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