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Brasil Renata Barcellos

A entrevista com Flaviano Menezes da Costa sobre Graça Aranha

Renata Barcellos é convidada da Academia Poética Brasileira.

20/06/2023 08h19 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Renata Barcellos
Uimar Jr. Flaviano da Costa, Renata Barcellos e o esposo.
Uimar Jr. Flaviano da Costa, Renata Barcellos e o esposo.

 

1-Você publicou “O sublime jogo estética da vida: ensaios lítero-filosófico sobre a vida e a obra de Graça Aranha” (São Luís: EDUFMA, 2018. 184p. 2ª edição) organizou a edição da obra “O meu próprio romance: edição comemorativa aos 150 anos de nascimento do escritor Graça Aranha” (São Luís: UFMA, 2018)). No dia 21 de junho, Graça Aranha completaria 155 anos. Graça Aranha (ou José Pereira da Graça Aranha) nasceu em 21 de junho de 1868, em São Luís do Maranhão.

Flaviano da Costa: Antes de completar 15 anos de idade, em 1882, conseguiu permissão governamental para cursar a faculdade de Direito. Nesse mesmo ano, começou o curso de Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito do Recife. Em 1897, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Em seguida, iniciou sua carreira diplomática, e, nas duas primeiras décadas do século XX, atuou em países europeus.). 

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2 - Qual a importância deste autor maranhense no cenário literário brasileiro?

Flaviano Menezes da Costa: Lembrando que, dentre outras várias atividades diplomáticas, empreendeu também uma missão em Londres para defender os direitos dos brasileiros acerca das novas delimitações territoriais com a Guiana Inglesa e, no período entre 1900 e 1920, realizou viagens a países como Itália, Suíça, Noruega, Portugal, Dinamarca, França, Holanda e quase todas as nações latino-americanas.

De forma similar, quando reflito sobre a vida do escritor Graça Aranha: sendo convidado, aos vinte oito anos de idade, pelo José Veríssimo e por Machado de Assis, para ser um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1897, sem ter escrito nenhuma obra literária até então; que junto com o convite, é também desafiado (pelo próprio presidente da Casa: Machado de Assis) a escrever uma “obra-prima” para fazer jus ao convite; assim o fazendo, com a publicação do romance “Canaã” (1902); que ajudou na organização de uma de nossas mais festejada manifestação artística (a Semana de Arte Moderna); produziu diversos artigos sobre a estética brasileira, inclusive organizando e produzindo a primeira revista modernista (Klaxon: mensário de arte moderna, ainda em 1922); escrevendo peculiares e belas obras teatrais e romances na qual uni a cultura nórdica, a mitologia brasileira e o folclore maranhense; percebo que é incontestável que a obra e o legado de Graça Aranha são dignos de profunda admiração e apreço no cenário político, acadêmico e literário.

 

3-Por que muitos críticos não apreciam o cidadão Graça Aranha?

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Flaviano Menezes da Costa: A imagem que Graça Aranha carregava era a de um “artista europeizado” que, na verdade, ele mesmo cultuou por muito tempo, já que morou boa parte de sua vida em outros países: em missões diplomáticas, fazendo parte da comissão de secretários de Joaquim Nabuco ou visitando filósofos famosos, como o francês Henri Bergson; trazendo sempre em suas obras, referências de autores e personagens estrangeiros. O que muitos não entendiam (ou ainda não entendem) é que Graça Aranha tinha como principal intenção, naquele momento de debates e variações artísticas, propor uma reforma nas artes brasileiras (usando suas próprias obras como modelo), de debater quem realmente fazia parte das discussões estéticas no país e qual a importância das Instituições (como a própria Academia Brasileira de Letras; da qual o próprio fazia parte) para se repensar aquilo que, posteriormente, irão chamar de “brasilidade”. Ele publicou apenas dois romances (“Canaã” e “A viagem maravilhosa”). São obras inclassificáveis (temos narrativas, teses filosóficas, metalinguagens, mitologia...), isso deve confundir ou irritar os críticos literários. Em um artigo, intitulado “Tintas e poder: dois maranhenses na Academia Brasileira de Letras” (Cadernos Zygmunt Bauman, vol. 8, num. 17, 2018), afirmo que: “Para Graça Aranha, impregnados da tônica nacionalista, os discursos dos imortais que ecoavam pelo país, apenas criavam poderes e não propostas”; já os modernistas da Semana de 22, estes “tinham muito a aprender”; o que é ratificado pelo próprio Oswald de Andrade quando este confessa que na época da Semana, eles sabiam que queria mudanças, mas não sabiam “o que queriam mudar ou como mudar”. E, por fim, muito da dimensão das críticas negativas que se construiu nas obras gracianas, vem de resquício das “opiniões” dos modernistas da primeira geração; que também eram jornalistas e produziram vasto material acusando Graça Aranha de não saber discutir sobre a “alma do brasileiro” e que viabilizou toda uma série de críticas inférteis atuais de intelectuais que nem leram as obras do autor.

 

4-Comente pensamentos de Graça Aranha: em 19 de junho de 1924, Aranha declarou: “A fundação da Academia foi um equívoco e foi um erro” e “Se a Academia não se renova, morra a Academia”. E também: “Nenhum preconceito é mais perturbador à concepção da arte que o da beleza”.

Flaviano Menezes da Costa: Graça Aranha confiava na capacidade da cultura nacional assimilar as experiências humanas que lhe chegavam de todas as partes, mais de fora do que de dentro, através dos mais diversos caminhos dialógicos. Considerava importante que a Academia renovasse não somente os seus membros, mas sua estrutura e dinamicidade. A primeira frase se encontra no discurso "O espírito moderno", (1924), proferida, como já apontado na questão anterior, na Academia Brasileira de Letras. Mas ela, sozinha, tem um sentido mais pessimista do que “realista”; este, como sempre a enxerguei. Vejamos: “Para essa criação integral a Academia Brasileira é chamada. A fundação da Academia foi um equívoco e foi um erro. No sentido em que comumente se entende ser uma academia, é esta um corpo de homens ilustres nas ciências, nas letras e nas artes, consagrados pelo talento e trabalhos, sumidades espirituais de uma cultura coletiva. As academias são destinadas a zelar tradições e supõem um povo culto, de que são os expoentes. Diante desse conceito, a Academia Brasileira foi um equívoco”.

Lendo com um pouco mais de atenção, podemos compreender que Graça Aranha mesmo não usando a particular “se”, enquanto uma conjunção condicional, ela está ali: Se a ABL não foi criada para integrar toda a cultura brasileira, se não assumir a coletividade intelectual brasileira, se não zelar pelos novos assim com o faz com os antigos, ela é um equívoco.

A segunda frase vem da conferência de abertura da Semana de Arte Moderna, proferida por Graça Aranha no Teatro Municipal de São Paulo, em 13 de fevereiro de 1922. O discurso é simplesmente o primeiro aval de um escritor brasileiro famosos para com os novos artistas da década de 1920. Para Graça Aranha, cada indivíduo é um ente pensante autônomo, e todo criador artístico manifestará de forma desimpedida, sem concessões, a sua própria interpretação da existência humana, bem como a emoção estética que surge a partir de suas interações com o ambiente natural. Não podemos, portanto, ter preconceito, pois os nossos juízos estéticos podem ser limitados. Portanto, com tais considerações, o esteta brasileiro pretende convidar ao público presente no Teatro a de despirem dos seus (pré)conceitos e aceitarem a verdade da beleza da arte que nem sempre se confunde com a beleza da natureza. Por isso, encontramos vários questionamentos no discurso: Cada um que se interrogue a si mesmo e responda que é a beleza? Onde repousa o critério infalível do belo? A arte é independente deste preconceito? Estas indagações ajudaram, de certa maneira, ao publico presente a se prepararem para o que viria pela frente.

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Flaviano da Costa.

Minibiografia: Mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). É docente do Departamento de Filosofia do Instituto de Estudos Superiores do Maranhão (IESMA). Docente da Rede Pública Municipal de São Luís - MA. É membro do Núcleo Docente Estruturante (NDE) do Curso de Filosofia e membro da Comissão Própria de Avaliação (CPA) do Instituto de Estudos Superiores do Maranhão (IESMA). Autor das obras: “Moradas e memórias: o valor patrimonial das residências da São Luís Antiga através da literatura” (São Luís: EDUFMA, 2015. 232p.) e “O sublime jogo estética da vida: ensaios lítero-filosófico sobre a vida e a obra de Graça Aranha” (São Luís: EDUFMA, 2018. 184p. 2ª edição). Organizou a edição da obra “O meu próprio romance: edição comemorativa aos 150 anos de nascimento do escritor Graça Aranha” (São Luís: UFMA, 2018). Integrante do Grupo de Pesquisa Studia Brasiliensia (UFTM/IESMA) desde 2020.

 

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Linda BarrosHá 3 anos atrásSão Luís -Maranhão"Se a Academia não se renova, morra a Academia” o que será que diria hoje Graça Aranhão sobre as Academias?
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