*Mhario Lincoln
Ratificar-me quantas vezes forem necessárias. Não há, dentro de mim, nada que possa exemplificar mais a essência desta obra - "A Camiseta de Atlas" -, do imenso Antonio Aílton, do que - a contemplação -, bem ao estilo dos grandes poetas, como a americana Jane Hirshfield: "(...) cada momento não é apenas ele mesmo, são todas as coisas", escreveu ela. E tudo começa nesse título originalíssimo, "A Camiseta de Atlas", cuja percepção 'do todo' é a lógica da força ailtoniana, evocando emoções, criando, através da própria contemplação dos arredores sensoriais, uma rica experiência contada através dos momentos vividos in lato sensu.
"O maior peso de estar vestido/ é o preço de fazer sentido. O mundo se acumula sobre o peso fosco da pele/ e dos molambos que tombam sobre meus ombros(...)". AA.
Nas contruções de Aílton se vê muito dessa exploração do momento presente e da natureza interconectada da existência. Foi assim, como algo me guiando para a varanda do Éden, que iniciei a leitura dessas poesias. Houve imediata interconexão entre certas coisas que balouçam dentro de mim e o magma contemplativa de Aílton. O autor me fez refletir, lendo seus poemas, sobre uma multiplicidade de experiências que a vida lhe ofereceu. A mim me pareceu dar de cara com uma exploração da natureza paradoxal da existência.
Alguns duetos explícitos:
"Em minha cabeça há um homem livre/ no restante de minha condição, há um homem responsável/ Um homem responsável não é livre (...)". AA
Ou, de certeza e dúvida:
"E pairam sobre minha cama/ entre restos de sono e um cheiro de café/ como laivos de tempestade e ímpeto/ todos os trens em que não parti com Ela". AA
Ou, ainda: de fraqueza e força:
"Eu te amo, ele disse./ Eu te amo, ela disse./ Por que dizê-lo só agora/ tão perto da morte?/ Mistério./ Há uma aragem nos ipês./ Esperança de renascer/ como um casal de gatinhos." AA
Visto isso, nesse introito, impossível não chamar Aristóteles para esta conversa: leia o que está escrito numa obra sensacional, no Livro X de "Ética a Nicômaco", onde há total intenção de fazer compreender - a contemplação - fulcro desta obra, como um estado de atividade intelectual, considerado a forma mais elevada de realização humana:
"The life of contemplation is the highest form of life, for it is the most divine and it is also the most continuous. (...). The contemplative person engages in the noblest of activities, focusing their intellect on the eternal truths and the highest realities. In this state of contemplation, one achieves the highest level of wisdom and attains a sense of fulfillment that surpasses any other human pursuit."
"A vida de contemplação é a mais elevada forma de vida, pois é a mais divina e também a mais contínua. (...). A pessoa contemplativa se ocupa da mais nobre das atividades, concentrando seu intelecto nas verdades eternas e as mais altas realidades. Nesse estado de contemplação, alcança-se o mais alto nível de sabedoria e atinge-se uma sensação de realização que supera qualquer outra busca humana." Aristóteles.
Para Aílton, acredito, tal fato, ab origine, da contemplação, fê-lo induzir neste livro, que ora leio, uma tábua de valores, cheia de analogias de natureza imperecível, como imortal será esta obra anunciada. Posso enumerá-las, começando pela porção mágica dos pensamentos e emoções interiores, tão rápidas como devem ser:
"... vestígios despencam/ cabelos de chuva/ minha alma à porta". Ou ainda, "Um poema é um guarda-chuva sonhando/(...) Onde teremos ancorado nossa alma/ para abrir a porta desse dia". (AA).
Posso falar igualmente da imersão espetacular do autor entre imagens e simbolismos: "Laura, estou nu novamente/ Alguém roubou meu Traje de Luzes!". Aqui, vale bastante atenção nos detalhes vívidos e sentidos neste exemplo minimalista. Outra característica do poema contemplativo é a linguagem e o tom, as metáforas e os recursos poéticos do autor. Vide: "Nasceu em São Luís do Maranhão/ Pescava sua infância no rio Bacanga/ Considerava ter vivido numa espécie de paraíso trocipal/ Quando chegou à adolescência ficou chocado? em ter que se tornar adulto / e tornou-se poeta".
Falo isso porque na maioria de suas criações rapsodas, nesta obra, há explícitos exemplos pertinentes a esse 'contemplativo', repito: "... se não fosse/ este roto/ chapéu de espantalho/que se DISSIPA/ no próprio ato/ em que convida/ partilharia contigo/ a dura dignidade/ que trago dentro/ quem sabe embaixo/ deste/ caderno/ de agasalhos".
E como então uma poesia contemplativa pode incorporar ritmo e som? Aílton é perfeito nesse ítem: "Repita em sequência: basta!/ basta! / basta!/ e aos poucos as coisas farão sentido". Notou o ritmo, a cadência e os recursos sonoros do poema "AcrediTe", utilizando a musicalidade para criar uma qualidade reflexiva?
Então, como uma linha vai levando a outra linha simétrica e consecutiva, tais elementos me levaram à rainha da poesia contemplativa: Hannah Arendt, teórica política e filósofa, cuja obra enfatizou a importância do pensamento contemplativo, em uma frase clássica: "pensar sem corrimão". Com base nessa concepção, Antonio Aílton acerta na mosca quando escreveu:
"A carne fechada/ que aduba a cama/ estica a data de vencimento (...)/ Novo corpo/ ou novo/ copo/ o que o tempo/ Prometeu/ e a vida não cumpriu/ já não importa/ é o gole do santo/ ou do abutre (...)/ partir no óbvio/ a corrente/ ou simplesmente/ partir". AA
Nessa contrução doída e real, o poeta, também autor de "Os dias Perambulados & outros tortos Girassóis - prêmio Cidade de Recife/2008", ensina que o pensamento genuíno ao construir um bardo poético requer um afastamento do imediatismo, o que vai permitir uma compreensão hermenêutica mais profunda do que está sendo produzido. E o mais legal de tudo isso é que na observação, também cabe a construção poética sensual, pois os momentos contemplativos fornecem uma rica fonte de imagens e emoções para alguns ótimos poetas, como é o caso de Charles Baudelaire - "Les Fleurs du mal" - onde parte de suas poesias exploram temas de beleza, desejo e decadência, muitas vezes combinando imagens sensuais com reflexões introspectivas. Vide: "Les Bijoux". Nesse poema, Baudelaire descreve sugestivamente joias usadas por uma mulher, criando uma atmosfera sensual, de forma observatória. Abaixo, excertos:
"Le plus cher était nu et, connaissant mon cœur,
Ne gardez que vos bijoux sonores,
Dont le riche attirail lui donnait l'air de la victoire
Que les esclaves des Maures avaient dans leurs beaux jours.
Quand ton bruit vivant et moqueur danse,
Ce monde rayonnant de métal et de pierre
Me plonge dans l'extase, et j'aime furieusement
Des choses où le son se mêle à la lumière.
(...)
Et ton bras et ta jambe, et ta cuisse et ton rein,
poli comme l'huile, ondulant comme un cygne,
passé devant mes yeux clairs et sereins ;
Et ton ventre et tes seins, ces grappes de ma vigne,
(...)
Et la lampe, résignée à mourir,
Comme seule la cheminée éclairait la pièce,
Chaque fois qu'il laissait échapper un soupir extravagant,
J'ai inondé cette peau d'ambre de sang !"
Mutatis Miutandi, juro que não me surpreendi quando Antonio Aílton, também abraça o tema, ao produzir algo semelhante, ao final de seu borbulhante "A Camisa de Atlas":
"(...) enfim tirastes tuas roupas
Eu, sem pressa, as minhas
e após desabrigá-las, mergulhamos
O tempo abriu-se languidamente
em brechas
e farfalhou de leve onde tocamos
Foi tão bom entrar em ti,
agora vamos" . AA
*********
Enfim, com extrema sinceridade confesso ter lido uma obra diferenciada e com base nisso, reproduzo a frase de um apreciador da língua latina quando se há que qualificar uma excelente obra literária, escrita em um plaquinha, em alguma parte da Biblioteca Pública do Estado do Paraná:
"Bonus liber ad lyricos novae linguae humanoe conceptus generandos".
Desta forma, interpretei seu livro. Obrigado por compartilhá-lo comigo.
Curitiba-Paraná, 04/07/2023.
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira
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