LITERATURA E MEDICINA: UMA CONEXÃO FASCINANTE
José Rafael de Oliveira*
A literatura estabelece uma conexão precisa entre ficção e realidade ao explorar temas ligados às ciências, como filosofia, história, arquitetura, culinária, teologia, direito e medicina, entre outras.
Essa conexão nos permite refletir sobre a condição humana em meio aos seus mistérios e desafios.
Em várias obras literárias, a realidade e a ficção se entrelaçam para abordar temáticas bastante específicas, especialmente no campo da medicina.
Um exemplo marcante dessa interação pode ser encontrado em "O Médico e o Monstro", de Robert Louis Stevenson. Nessa obra, o Dr. Jekyll assume uma personalidade dupla ao ingerir uma fórmula produzida com esse propósito. O bondoso e respeitável Dr. Jekyll se transforma no psicótico Mr. Hyde, que comete uma série de crimes nos lugares mais sombrios de Londres. Essa dualidade, representada pela metáfora do anjo e do demônio, continua a desafiar as mentes mais brilhantes da psiquiatria forense contemporânea.
Em "Frankenstein", de Mary Shelley, o Dr. Frankenstein brinca de ser Deus ao reunir partes de cadáveres, como cabeça, coração, rins, membros, olhos, cabelo, mãos e demais partes anatômicas, para a criação de um novo ser humano (?). Essa obra já antecipa os princípios teóricos ou hipotéticos das futuras experiências com clones, fornecendo, assim, a base fictícia para as possíveis criações de seres a partir de uma única célula, como a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado por transferência de material de células somáticas no Instituto Roslin, na Escócia, entre 1995 e 1996.
Em "Madame Bovary", de Gustave Flaubert, a personagem Emma Bovary representa aqueles que recorrem a substâncias tóxicas para enfrentar conflitos existenciais, especialmente quando sonhos e projetos fracassam. Enquanto o livro discorre sobre o uso crônico do arsênico e seus efeitos adversos sobre o organismo humano, o mundo real convive com as diferentes interfaces dessas substâncias, como o "chumbinho", um organofosforado carbamato, que pode ser encontrado facilmente em qualquer esquina de nossas cidades. Felizmente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) proíbe a sua comercialização devido ao poder letal sobre aqueles que pretendam encerrar sua história de maneira trágica. Por outro lado, as drogas impactam a sociedade e as famílias por seus efeitos nocivos tanto para o físico quanto para o psíquico, além do potencial perigo de morte por overdose, principalmente entre os jovens.
Em "Erro Médico", de Robin Cook, o Dr. Jeffrey Rhodes, mesmo seguindo as normas da American Society of Anesthesiology (ASA), é condenado por erro médico após a morte de uma paciente submetida à analgesia do parto. Ao fugir da prisão, Jeffrey promove uma investigação clandestina e, em meio a aventuras mirabolantes, descobre uma rede de advogados que, interessada em processos médicos, suborna funcionários de hospitais para contaminar os "anestésicos locais" com uma toxina letal. Na realidade, os anestesiologistas estão o tempo todo sujeitos ao rigoroso controle de qualidade dos laboratórios fabricantes de anestésicos, confiando que as substâncias contidas nos recipientes sejam exatamente as mesmas indicadas no rótulo.
Em "A Peste", de Albert Camus, o Dr. Bernard Rieux enfrenta uma epidemia de peste bubônica na pequena cidade de Oran, na Argélia. Já em "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago, as personagens são acometidas por uma "cegueira branca" sem precedentes na história da medicina.
Em "Compasso Binário", de Arlete Nogueira da Cruz, uma paciente é operada em condições precárias em um pronto-socorro da cidade de São Luís, Maranhão, na década de sessenta. E em "Dom Casmurro", de Machado de Assis, a cena do afogamento na praia do Flamengo equivale a tantas outras que ocorrem em nossas belas praias nos fins de semana, evidenciando assim as possíveis falhas no sistema de segurança aos banhistas e no atendimento médico de emergência.
Em "Médico de Homens e de Almas", de Taylor Caldwell, o Dr. Lucano (apóstolo Lucas) demonstra que, além do conhecimento científico necessário para realizar diagnósticos, tratamentos, prescrições e orientações, o médico precisa também acrescentar "gotas" de esperança na vida de seus pacientes.
Assim, ao explorar questões éticas, sociais, existenciais e também estéticas, a literatura amplia nossa consciência sobre a complexidade das experiências humanas. Através das obras literárias, somos levados a refletir sobre temas cruciais como vida, morte, amor, ódio, esperança etc., a fim de compreendê-los a partir das perspectivas literárias e/ou médicas. Nesse sentido, a conexão entre literatura e medicina revela a própria condição humanizada das personagens, que vivem de forma metafórica nas páginas dos livros.
José Rafael de Oliveira
Médico, membro da SOBRAMES-MA.
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