Augusto Pellegrini
Parte 2
Ao desembarcar em Nova York, o provinciano Smack se deparou com os primeiros obstáculos.
Primeiro, o frio com o qual ele não estava acostumado, tanto no que dizia respeito à temperatura como quanto ao relacionamento entre as pessoas. Ao contrário da jovial cidade de Atlanta, onde as pessoas se cumprimentavam e se sorriam, a iluminada, porém carrancuda Nova York transformava os cidadãos em grandes anônimos.
É certo que Smack foi muito bem recebido na cidade por uma amiga da família que lá residia havia alguns anos – uma professora aposentada também vinda de Atlanta – na casa de quem ficou hospedado por algumas semanas. Ele, no entanto, possuía um espírito bastante independente e se sentiu um bocado desconfortável tendo a sua liberdade tolhida. Logo que foi possível, Smack decidiu fazer as malas e morar numa pensão até que as coisas começassem a clarear.
A pensão ficava na animada Rua 12, próxima a bares, lojas e livrarias, e possuía um conveniente piano instalado no salão principal, no qual ele exercitava seus dedos e sua imaginação, chamando a atenção dos outros hóspedes, na sua maioria caixeiros-viajantes de passagem pela cidade, pela forma sincopada com que executava a música negra do momento.
Com o passar do tempo, Henderson começou a perceber que teria dificuldades em ingressar no tal curso de pós-graduação para dar prosseguimento à sua vida acadêmica, pois aparentemente não existiam vagas nas poucas escolas disponíveis na cidade.
Nas cartas que escrevia para os pais, Fletcher demonstrava claramente esta preocupação, e um tom de nostalgia e saudade fluía das suas palavras chorosas. A família, os amigos, a vida sossegada e sem atropelos e principalmente a sinceridade das pessoas haviam ficado para trás, em Atlanta. Nova York era uma metrópole imensa e sem alma, onde as pessoas se desconheciam e competiam entre si, não se importando em passar por cima uns dos outros para obter sucesso ou vantagens.
Não demorou muito para que Fletcher Henderson entendesse que a sua dificuldade em encontrar uma escola não tinha muito a ver com falta de vagas, mas tudo a ver com a sua cor, o que piorou seu estado de espírito.
Apesar de possuir alguns traços caucasianos, por ser fruto de uma miscigenação qualquer havida no passado, Fletcher não deixava de ser um afrodescendente, e isto estava sendo um obstáculo para suas pretensões acadêmicas.
No entanto, ele tinha necessidade de sobreviver por si próprio, pois não queria passar o resto da vida dependendo da mesada que o pai lhe mandava para a sua manutenção. Além do mais, revoltado com a situação, decidiu lutar para provar a si mesmo que venceria mais esta batalha contra a cidade. Fletcher Henderson não se renderia às atitudes racistas de Nova York.
Para tanto, confiando nos seus dotes de pianista, ele começou a trabalhar como divulgador musical para a Companhia de Música Pace-Handy, uma editora de propriedade do músico W.C.Handy e do empreendedor Harry Pace, fazendo demonstração pianística e ajudando a vender partituras.
Tudo começou quando Fletcher procurou Harry Pace, certo de que ele faria tudo para ajudá-lo, pois se tratava de um velho conhecido da família e, tal como Henderson, havia estudado na Universidade de Atlanta. Pace, que se formara em Direito, havia se associado ao músico Handy quando este estava à procura de um parceiro para fundar a editora.
Ao receber Fletcher Henderson, Pace começou a dar tratos à bola a fim de decidir qual serviço arranjar para ele, mas quando o jovem mostrou tamanha intimidade com o piano e com a música, Pace não teve dúvidas em contratá-lo para trabalhar como músico da própria editora.
Assim, quanto mais Fletcher Henderson se afastava da química e da matemática, mais ele se aprofundava na música e no piano. Harry Pace, conhecedor do mercado, ficou maravilhado em ver nele um músico negro que dominava com perfeição tanto as peças eruditas sugeridas pelos clientes quanto o jazz dos anos 1920 que estava em voga na cidade, e em pouco tempo o convidou para ocupar a posição de gerente musical da sua recém-criada gravadora Black Swan Record Company.
Para Henderson, Nova York já não parecia tão fria, pois a música lhe aquecia as veias, mas isto trouxe alguma decepção para papai e mamãe Henderson, que recebiam estas notícias na distante Atlanta sem muito entusiasmo.
Enquanto dirigia a parte musical da Black Swan, Fletcher Henderson gravou as suas primeiras composições, “Chime Blues” e “The Unknown Blues”, ambas feitas em 1921.
Foi quando ele conheceu Ethel Waters, uma das mais consideradas atrizes e cantoras de blues da época. Durante um intervalo de gravação, Henderson sugeriu a Ethel que subisse o tom de uma canção a fim de torná-la mais confortável para a altura e o timbre da sua voz. Ethel adorou a sugestão e se encantou com a simplicidade e a musicalidade do jovem pianista; três meses depois ela o convidou para fazer parte do seu grupo numa pequena turnê pelo centro-oeste.
Foi uma decisão difícil de ser tomada por Henderson, pois ele ainda não estava preparado para “pegar a estrada”, e de certa forma devia favores a Harry Pace. Pace, no entanto, por entender que o futuro de Henderson necessitava de um horizonte mais amplo do que o serviço quase burocrático que ele executava na gravadora, o liberou sem maiores dificuldades, deixando as portas abertas para um possível retorno no futuro, o que acabou jamais acontecendo.
A excursão com Ethel Waters foi realmente o primeiro impulso na sua carreira. Henderson começou a entender melhor como funcionava uma banda, quais as dificuldades e os imprevistos que poderia encontrar pela frente e como lidar com um público que vaiava ou aplaudia com a mesma intensidade, dependendo do teor alcoólico consumido e das canções apresentadas. Aprendeu também a trabalhar em grupo e a suplantar as dificuldades naturais de um relacionamento heterogêneo com músicos e empresários.
A turnê rendeu a Fletcher Henderson um bom dinheiro, muitos elogios e o reconhecimento de muitos músicos de Nova York. Com isso, apareceu a oportunidade de acompanhar ao piano outras cantoras de talento, como Trixie Smith, Mamie Smith e Ma Rainey, e de gravar duas músicas – “Nobody’s Blues But Mine” e “The World’s Greatest Blues Singer” – com a famosa Bessie Smith.
No início de 1924, Fletcher conseguiu um emprego à noite para tocar no Little Club, um bar perto da Broadway, onde travou conhecimento com diversos músicos de orquestra, entre eles um saxofonista chamado Don Redman, que se diferenciava do restante do grupo por possuir algumas ideias musicais bastante arrojadas.
Don Redman era um músico de West Virginia, recém-desligado da Billy Paige’s Broadway Syncopators, e tocava clarinete, sax-alto e oboé com muita desenvoltura, extraindo destes instrumentos sons considerados “de vanguarda” para aquela época dominada pelas orquestras de salão e pelo dixieland.
Redman começara recentemente a tocar com a banda do Little Club e, devido aos seus arranjos modernos, havia adquirido uma certa liderança junto aos músicos, que respeitavam o seu conhecimento e a sua técnica avançada. Acostumado a tocar com pessoas de qualidade não mais do que mediana, ele ficou feliz ao conhecer Fletcher Henderson, percebendo nele um pianista que poderia compartilhar das suas convicções musicais, pois Henderson desenvolvia no teclado algumas estruturas também diferentes e incomuns.
Juntos, eles começaram a reconstruir o som da banda do clube e bastaram algumas semanas para que Redman indicasse Fletcher Henderson para ser o novo líder, “porque ele tinha modos refinados, tocava piano com estilo, e demonstrara ser um aglutinador, com sua fala macia e bem educada”.
VÍDEO-BÔNUS
Fletcher Henderson and his orch. - SUGARFOOT STOMP
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