O APITO E O GRITO
*Eloy Melonio
Já vai longe o tempo em que o índio só queria um apito.
Hoje, muitas luas depois, ele quer muito mais. Porque aprendeu com a dor, o sofrimento, a subserviência. E, com as tentativas frustradas de viver tranquilo onde — por lei e por tradição —, já deveria estar definitivamente estabelecido.
Para ele, aprender revelou-se um entendimento mais profundo de sua condição e de suas batalhas.
Aprendeu, principalmente, que o homem branco não tinha só um apito. Tinha propriedades que não eram dele. Queria mais e mais terras para lhe gerar riqueza e influência política. E delas extrair, sem critérios, o que mais lhe interessava. Aprendeu que a vereda da mata servia para ir à caça. E que, ao contrário, o caminho largo — sem espinhos e cipós — cruzava o Eixo Monumental, via que corta o Plano Piloto em Brasília-DF e abriga os ministérios e os órgãos do Poder Executivo. E que era lá onde estavam as palavras decisórias para as suas mais aspiradas petições.
E descobriu, principalmente, que precisava ensinar à sociedade civilizada a lição mais básica destes tempos de inclusão. Já passava da hora de ver reconhecidos os seus direitos e a reparação de suas perdas históricas. E não deu outra que não fosse o grito geral dos povos originários nos quatro cantos do Brasil selvagem: "O que é teu hoje já foi meu no passado. E a gente precisa conversar sobre isso".
Esse anseio da consciência oprimida não é de hoje. Tem um longo caminho que entrecruza a ponte das expressões artísticas. Um dos mais fortes ecoa na música “Todo dia era dia de índio” (1982), de Jorge Benjor, interpretada por Baby Consuelo. Um grito que começava assim: "Curumim, chama Cunhatã/ Que eu vou contar". Com voz empoderada, a Baby dos indígenas brasileiros elevou o 19 de abril (decreto-lei de 1943) para além de uma data comemorativa no calendário, porque deles são todos os dias.
Nessa magistral composição, um velho indígena conta a história de seu povo para um menino e para uma menina (“curumim” e “cunhatã”, na língua tupi-guarani). E, com essa conversa, tentava conscientizar a nova geração sobre o valor de sua história e de suas tradições. E, principalmente, porque “os indígenas não são seres do passado, são gente do presente”.
Grandes nomes assumiram o protagonismo das demandas indígenas: Chico Mendes e os caciques Juruna e Raoni — entre outros famosos e anônimos — figuram num panteão que hoje é a imagem de sua força política. Do indigenista, um legado institucional. Dos caciques, a representatividade. E, assim, o campo das batalhas saiu das matas e hoje medra no parlamento e nos gabinetes de Brasília.
De história em história, o indígena evoluiu. No termo que hoje o identifica ("indígena") e nas figuras que o representam. Não se pode mais interpretá-lo apenas pelas suas pinturas, indumentárias e armas. Sim, eles adoram colares, cocares, lanças e flechas. Adoram pintar seus corpos com as cores vivas da mata. É a sua “mais perfeita tradução” e uma potente estratégia de marketing. Querem ser vistos e respeitados. Muitos deles talvez não saibam exatamente o que isso significa, mas dão o recado direitinho.
Nessa conscientização, a literatura sempre teve papel relevante. Gonçalves de Magalhães, José de Alencar e Gonçalves Dias lançaram suas palavras certeiras para defender e exaltar suas lutas, sua honra e seus direitos.
Nessa história, ainda se veem os passos dos homens brancos, como o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira, assassinados em 5 de junho de 2022, no extremo oeste do Amazonas. Nas mãos da acriana Marina Silva e da maranhense Sônia Guajajara (Meio Ambiente e Povos Indígenas) está o poder de decidir o novo cenário de suas conquistas.
Nas matas, as lutas. Nas palavras, a força de um ideal. Juntando tudo, “O custo do cuidado é sempre menor que o custo do reparo” (grito de Marina Silva).
Por muito tempo, o indígena brasileiro não foi levado a sério. Nos tempos em que começaram a invadir Brasília, corria a seguinte lorota: “Se a gente não se Raoni, a gente se Sting”. O cacique Raoni e o cantor Sting — fundador da ONG Rainforest Foundation, dedicada à proteção da natureza — se encontraram em 1989, nascendo daí uma amizade de mais de dez anos. Essa aproximação motivou o artista britânico a iniciar uma campanha para a indicação de Raoni ao prêmio Nobel da Paz de 2020. Por trás disso, a visibilidade do cacique em oposição aos líderes políticos que negavam a existência de ameaças ambientais contra o planeta.
Antes de concluir, desculpo-me por usar o termo “índio” — hoje pejorativo (e ilegítimo [Lei 14.402/22]) — nas frases de abertura e conclusão desta crônica por causa de um breve teor humorístico.
Por fim, a gasta piada do índio que coagia um homem branco perdido na mata, pedindo-lhe quinquilharias da civilização em troca de sua vida e liberdade. A negociação ia bem até que, de repente, o coagido soltou um pum. O índio então lhe disse que queria trocar tudo o que já recebera pelo apito do homem branco.
Lorotas e piadas à parte, o "apito", hoje, pode ser uma metáfora para “grito”, ou seja, manifestações para desmistificar o índio como um ser “romantizado” e consolidar a ideia de que todo dia é dia dos "índígenas" do Brasil.
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Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.
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