Quarta, 02 de Setembro de 2026 07:27
(xx) xxxxx-xxxx
Brasil Cronistas

De Eloy Melonio: "Já vai longe o tempo em que o índio só queria um apito"

Eloy Melonio é cronista do Facetubes.

12/07/2023 19h43 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
Eloy Melonio.
Eloy Melonio.

 

O APITO E O GRITO

*Eloy Melonio

Continua após a publicidade

Já vai longe o tempo em que o índio só queria um apito.

Hoje, muitas luas depois, ele quer muito mais. Porque aprendeu com a dor, o sofrimento, a subserviência. E, com as tentativas frustradas de viver tranquilo onde — por lei e por tradição —, já deveria estar definitivamente estabelecido.

 

Para ele, aprender revelou-se um entendimento mais profundo de sua condição e de suas batalhas.

 

Aprendeu, principalmente, que o homem branco não tinha só um apito. Tinha propriedades que não eram dele. Queria mais e mais terras para lhe gerar riqueza e influência política. E delas extrair, sem critérios, o que mais lhe interessava. Aprendeu que a vereda da mata servia para ir à caça. E que, ao contrário, o caminho largo — sem espinhos e cipós — cruzava o Eixo Monumental, via que corta o Plano Piloto em Brasília-DF e abriga os ministérios e os órgãos do Poder Executivo. E que era lá onde estavam as palavras decisórias para as suas mais aspiradas petições.

Continua após a publicidade

 

E descobriu, principalmente, que precisava ensinar à sociedade civilizada a lição mais básica destes tempos de inclusão. Já passava da hora de ver reconhecidos os seus direitos e a reparação de suas perdas históricas. E não deu outra que não fosse o grito geral dos povos originários nos quatro cantos do Brasil selvagem: "O que é teu hoje já foi meu no passado. E a gente precisa conversar sobre isso".

 

Esse anseio da consciência oprimida não é de hoje. Tem um longo caminho que entrecruza a ponte das expressões artísticas. Um dos mais fortes ecoa na música “Todo dia era dia de índio” (1982), de Jorge Benjor, interpretada por Baby Consuelo. Um grito que começava assim: "Curumim, chama Cunhatã/ Que eu vou contar". Com voz empoderada, a Baby dos indígenas brasileiros elevou o 19 de abril (decreto-lei de 1943) para além de uma data comemorativa no calendário, porque deles são todos os dias.

 

Nessa magistral composição, um velho indígena conta a história de seu povo para um menino e para uma menina (“curumim” e “cunhatã”, na língua tupi-guarani). E, com essa conversa, tentava conscientizar a nova geração sobre o valor de sua história e de suas tradições. E, principalmente, porque “os indígenas não são seres do passado, são gente do presente”.

Continua após a publicidade

 

Grandes nomes assumiram o protagonismo das demandas indígenas: Chico Mendes e os caciques Juruna e Raoni — entre outros famosos e anônimos — figuram num panteão que hoje é a imagem de sua força política. Do indigenista, um legado institucional. Dos caciques, a representatividade. E, assim, o campo das batalhas saiu das matas e hoje medra no parlamento e nos gabinetes de Brasília.

 

De história em história, o indígena evoluiu. No termo que hoje o identifica ("indígena") e nas figuras que o representam. Não se pode mais interpretá-lo apenas pelas suas pinturas, indumentárias e armas. Sim, eles adoram colares, cocares, lanças e flechas. Adoram pintar seus corpos com as cores vivas da mata. É a sua “mais perfeita tradução” e uma potente estratégia de marketing. Querem ser vistos e respeitados. Muitos deles talvez não saibam exatamente o que isso significa, mas dão o recado direitinho.

 

Nessa conscientização, a literatura sempre teve papel relevante. Gonçalves de Magalhães, José de Alencar e Gonçalves Dias lançaram suas palavras certeiras para defender e exaltar suas lutas, sua honra e seus direitos. 

 

Nessa história, ainda se veem os passos dos homens brancos, como o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira, assassinados em 5 de junho de 2022, no extremo oeste do Amazonas. Nas mãos da acriana Marina Silva e da maranhense Sônia Guajajara (Meio Ambiente e Povos Indígenas) está o poder de decidir o novo cenário de suas conquistas.

 

Nas matas, as lutas. Nas palavras, a força de um ideal. Juntando tudo, “O custo do cuidado é sempre menor que o custo do reparo” (grito de Marina Silva).

 

Por muito tempo, o indígena brasileiro não foi levado a sério. Nos tempos em que começaram a invadir Brasília, corria a seguinte lorota: “Se a gente não se Raoni, a gente se Sting”. O cacique Raoni e o cantor Sting — fundador da ONG Rainforest Foundation, dedicada à proteção da natureza — se encontraram em 1989, nascendo daí uma amizade de mais de dez anos. Essa aproximação motivou o artista britânico a iniciar uma campanha para a indicação de Raoni ao prêmio Nobel da Paz de 2020. Por trás disso, a visibilidade do cacique em oposição aos líderes políticos que negavam a existência de ameaças ambientais contra o planeta.

 

Antes de concluir, desculpo-me por usar o termo “índio” — hoje pejorativo (e ilegítimo [Lei 14.402/22]) — nas frases de abertura e conclusão desta crônica por causa de um breve teor humorístico.

 

Por fim, a gasta piada do índio que coagia um homem branco perdido na mata, pedindo-lhe quinquilharias da civilização em troca de sua vida e liberdade. A negociação ia bem até que, de repente, o coagido soltou um pum. O índio então lhe disse que queria trocar tudo o que já recebera pelo apito do homem branco.

 

Lorotas e piadas à parte, o "apito", hoje, pode ser uma metáfora para “grito”, ou seja, manifestações para desmistificar o índio como um ser “romantizado” e consolidar a ideia de que todo dia é dia dos "índígenas" do Brasil.

 

-----------------------

Eloy Melonio é contista, cronista, letrista e poeta.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
AGEU Há 3 anos atrásSão Luís O artigo mui digno de uma literatura sapiencial meu caro escritor,poeta e professor Eloy Melonio.O índio tem na sua essência a nobreza de um ser pensante que se mostra como um indivíduo que requer respeito.Valeu!
ElenatoHá 3 anos atrásMATexto muito bem escrito , excelente , didático . As palavras bem escolhidas nas frases e orações. Parabéns Eloy Melonio , escreva sempre e mais !
Luan FranciscoHá 3 anos atrásBelo HorizonteSalve Melonio. Muito bom ter cê aqui, companheiro. Somos do grupo de estudos de Santa Felicidade, aqui em Belô. Seja bem vindo.
Goreth MariaHá 3 anos atrásSão LuísNão é fácil escrever com tanta sutileza. Parabéns por estar nesse grupo de gente que eu amo. Estou sempre aqui. Leio Letícia Mariana, Joema, Linda Barros, João do Lago, vixe quanta gente boa.
JOAO MELO E SOUSA BENTIVIHá 3 anos atrásSão LuísAnálise histórica e antropológica de grande lucidez e inteligência.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 04h01
11°
Tempo nublado

Mín. 12° Máx. 19°

11° Sensação
1.03 km/h Vento
97% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (03/09)

Mín. 10° Máx. 22°

Tempo limpo
Sexta (04/09)

Mín. 13° Máx. 25°

Chuva
Ele1 - Criar site de notícias