Diálogos que ecoam na alma/II
*Mhario Lincoln
Ontem recebi mensagem de duas amigas queridas sobre 'continuar sendo forte' diante de alguns problemas que vêm acontecendo aos seus redores. Uma delas me tocou muito pois afirmava "não mais conseguir continuar dessa forma" e que estava "perdendo o chão que pisava".
Imediatamente fui à estante buscar a obra "Inteligência Emocional", de Daniel Goleman. Nela, aprendi muito. Por isso, nesta conversa de hoje, tento repassar algumas coisas que deduzi lendo, não só Goleman, mas outros autores como o próprio Nietzsche e Sêneca.
E lendo esses livros conclui - em minha opinião pessoal e intransferível - que a questão de pagar um preço alto por aparentar ser forte está relacionada com a expectativa social de que indivíduos fortes devem ser capazes de lidar com seus próprios problemas e ajudar os outros.
Porém, isso pode levar a uma carga emocional e a um senso de responsabilidade maior do que aqueles que não são percebidos como fortes. A aparência de força pode atrair mais problemas porque as pessoas podem confiar e depender desses indivíduos para solucionar seus próprios desafios.
Como disse no parágrafo primeiro, Frederic Nietzsche, em sua obra "Além do Bem e do Mal", discute a noção de força como algo necessário para superar os desafios da vida. Ele argumenta que a sociedade valoriza e recompensa os fortes, mas muitas vezes "essa força é adquirida através da negação dos próprios sentimentos e fraquezas, resultando em uma prisão emocional" (tradução minha). Logo no prefácio dessa obra, Sils-Maria, junho de 1885, entendeu assim, também: "(...) sentimos agora toda a opressão do espírito, possuímos toda a tensão do arco! E, é claro, também a seta, a tarefa, e quem sabe, o alvo!", escreveu o prefaciador.
Já Sêneca, um filósofo dito estoico*, falou sobre a importância de ser forte em face das adversidades. Ele acreditava que a força interior, baseada na razão e na virtude, "era essencial para alcançar a tranquilidade e a liberdade emocional" (tradução minha). No entanto, Sêneca também ressaltava a importância de reconhecer e expressar as próprias fraquezas, e não apenas fingir força o tempo todo.
*Hoje, o adjetivo “estoico” costuma ser entendido como sinônimo de rígido, impassível, frio. Todavia, ventos modernos sopram na direção de que o estoicismo não pregava a repressão das emoções – apenas ensinava seus adeptos a resistir a paixões violentas e sentimentos negativos, como a ira e a inveja.
Vale ainda dizer que a aparência de ser forte pode ter uma influência direta na família e nos amigos. Muitas vezes, as pessoas fortes são vistas como pilares de apoio e são procuradas por aqueles que precisam de ajuda. Isso pode levar a um desequilíbrio emocional, pois os fortes podem se sentir sobrecarregados com os problemas dos outros e podem não receber o mesmo apoio em troca.
Além disso, a expectativa dessa 'fortaleza' exigida o tempo todo pode dificultar a expressão das próprias emoções, criando uma barreira na comunicação e nos relacionamentos pessoais, inclusive.
Destarte, cabe a nós vivenciar o momento certo. Ora como fortes, ora como entendedor das complexas variações emocionais que cada um é submetido diante da inserção no contexto do outro ou de si mesmo, experiência essa, hoje conhecida como "empatia".
Aliás, Daniel Goleman, referido no primeiro parágrafo, "Inteligência Emocional" (eu o li e reli algumas vezes), fala dessa entrega, dessa fortaleza 'aparente', onde essa 'inteligência emocional' é capaz de captar o mundo através dos estímulos não só nossos, mas dos outros também.
E aí, diante de uma situação dessas, seja na família ou numa roda de amigos queridos, alguém tem que tomar as rédeas dos problemas para tentar solucioná-los. E como, uma metáfora da neurociência imagina ser o nosso cérebro dividido em duas partes, exatamente nessa situação em que alguém supostamente tem que ser mais "forte", entra em funcionamento com mais robustez o hemisfério direito. Esse, repito, metaforicamente, o lado responsável pela intuição, emoções e sentimentos; o lado da compreensão emocional do mundo.
Isso é fato e como fato, não deve deixar que as pessoas fortes ou possivelmente fortes possam se deixar levar por uma descarga negativa de 'não solução de problemas do outro, nem de si mesmo', ficando, em algumas ocasiões, aparentemente sem o chão que pisa.
Só ter conhecimento científico e biológico que isso é normalíssimo e é a tal da 'empatia', que leva a esse estado de 'amparo e acolhimento'. Isto é, colocar-se no lugar do outro só quando se gosta realmente.
Mas, com um detalhe seríssimo: deve ser - obrigatoriamente - de maneira sensível e aberta, desprovida de quaisquer que sejam os julgamentos.
Desta forma, para aqueles que estão 'cansados de serem fortes', continuem fortes! A começar por si mesmos porque esse fator (si mesmos) pode ser o diferencial da balança.
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