José Neres*
Acredito que a boa poesia deve ser saboreada com a mesma calma e com a mesma paciência com que se degusta uma fina iguaria , com o olhar atento de quem admira o traço de um artista que ilude os nossos olhos e nos faz pensar em algo que, embora sempre visível, às vezes despercebido.
Li seus poemas umas vinte vezes e confesso que a cada leitura fiquei mais impressionado com os cortes cirúrgicos que você conseguiu fazer nas palavras. Não tem como não admirar as sutilezas com que você traz à baila em cada verso as dores e as angústias que emanam de quadros clínicos muitas vezes desesperadores, mas que ganham a forma de uma ourivesaria quando trabalhadas por mãos hábeis e por uma mente privilegiada que consegue visualizar a beleza onde tantas outras pessoas só veriam os aspectos biológicos.
Sua poesia são pílulas recheadas de palavras que fazem muito bem á alma dos leitores. E, fazendo bem à alma, também fortalecem o corpo e destacam o lado humano que tosos nós temos, mas que nem sempre é lembrado, pois queremos sempre viver anestesiados pelas alegrias (quase sempre poucas) que marcam alguns momentos de nossa existência.
Impossível não se emocionar com a leveza com que você trabalha os sintomas de males como Parkinson e Alzheimer. Cada uma de suas escolhas lexicais foi feita sob medida para ensinar, emocionar e despertar em cada leitor uma incômoda sensação de estar sentido na pele os diversos problemas aos quais estamos expostos pelo simples motivo de estarmos vivos.
Algumas soluções poéticas suas desnorteiam qualquer pessoa. É o caso de ver o tempo como “um extintor vazio” e de sentir alguém que “salta no silêncio / da palavra”. Impressionantes metáforas de quem sabe jogar com as palavras de modo sério, sem pensar em fazer contorcionismos sintéticos e respeitando o vernáculo, mas também incrustrando e soldando em cada poema uma rara e incomum peça que não deixa a leitura cair no vazio.
Ao ler seus poemas, todos se tornam (im)pacientes e se tornam cientes de que um poeta ímpar como você não pode negar esse remédio a quem procura na poesia a soluçãopara tantos males.
(*) José Neres, professor, escritor, membro da AML, da APB, da ALL e da SOBRAMES.
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