*Mhario Lincoln
NA: TODAS as palavras que eu cito no texto e que estão italizadas, mas não estão entre aspas, são minhas. As italizei para dar maior ênfase a minha tese sobre o romantismo ou a epicidade, interagir com outras formas de expressões poéticas que levam a algo que beira uma busca humana por significados, por conhecimento e por realizações pessoais, não só iminentemente sentimentais. Essa é a minha releitura. (Mhario Lincoln).
TOMO ÚNICO
Ao desvelar a essência da monumental obra de Gonçalves Dias, intrincada com os matizes do romantismo luminoso e a indubitável tessitura do indianismo brasileiro, não pretendo, de maneira alguma, negligenciar sua significância. Ao contrário busco compartilhar inquietações que fluem como águas de um riacho, sem aspirar à universalidade, seguindo a premissa em latim: "sunt personalis et non-transibilia considerationes." (Mhario Lincoln).
Em um contexto repleto de análises sobre os 200 anos de Gonçalves Dias, optei por uma abordagem inversa à lógica romanesca, imergindo em um aspecto que se destacou nas minúcias de certos poemas do ilustre poeta maranhense. Iniciei minha incursão nas raízes, explorando poetas românticos alemães que exerceram influência sobre Gonçalves Dias, como Johann Wolfgang von Goethe, pioneiro do movimento romântico e influenciador de diversos escritores e poetas desde os anos 1700.
Tomemos, então, como exemplo o poema de Goethe ("Mar Calmo"):
"A onda, que dorme quieta, não espuma; / O astro, que sonha plácido, não canta, / E em todo o vasto mar, em parte alguma / A mais pequena vaga se levanta."
Será exagero atribuir à consciência subjacente a estes versos, permissões poéticas que transcendam o habitual "eu romântico"? Observem: nos versos, "A onda, que dorme quieta, não espuma; / O astro, que sonha plácido, não canta", esses, podem transmitir também, a importância da serenidade e equilíbrio emocional, ressaltando a necessidade de que tais atributos levem a alcançar a paz interior? E nestes: "E em todo o vasto mar, em parte alguma,/ A mais pequena vaga se levanta", não se poderia associar a placidez do mar com a serenidade mental e a habilidade de encarar desafios com mais equanimidade e harmonia?
À luz dessas interpretações, permito-me percorrer os caminhos da poesia romântica em uma jornada de autorreflexão, indo além dos amores e das paixões, rumo a um território de introspecção linguística e racional. Apenas quis ampliar esses conceitos românticos, atribuindo a eles, da mesma forma, uma visão mais existencial notada nas filigranas de poemas construídos por eminentes autores românticos alemães como Heine, Hölderlin e Eichendorff, ao longo dos séculos. Esses autores, assim como do mesmo modo encontrei em Gonçalves Dias, transcenderam o 'amor' para instigar uma reflexão pessoal no leitor. Possivelmente nem eles mesmos poderiam imaginar essa nova vertente em seus versos. Contudo, em mim, funcionaram como reflexão interior me levando a mudar certas atitudes relacionadas ao amor, paixão, decepção, solidão, angústia e outros sentimentos humanos: "unique et usu personali".
Como ilustração, abaixo, o poema de Heinrich Heine - "Morfina" - cuja angústia nele escrita, 'foge' às características que o incluem entre poetas gemânicos românticos: "(...) Ornada de papoulas, sua fronte / tocava a minha, às vezes – e seu raro / odor me dissipava a dor do espírito. / Tal alívio, porém , não dura. Eu só / hei de curar-me inteiramente quando / o irmão severo e pálido abaixar / sua tocha. – O sono é bom; o sono / eterno, ainda melhor; mas certamente / o ideal seria nunca ter nascido".
Numa primeira análise, sob o ponto de vista lírico-adjutória é fato a tentativa crucial de Heine de aprender a lidar com as adversidades. Essa dependência da morfina pode ser interpretada como uma busca desesperada por alívio e conforto diante do sofrimento físico e emocional. E por fim, quando Heine descreve um "irmão severo e pálido" que, eventualmente, abaixará a tocha e trará o alívio total, ratifica-se nesses versos, uma dualidade reflexiva sobre a natureza transitória das experiências humanas.
Tais interpretações que tive, ao ler e reler alguns poemas específico de Heinrich Heine, até então, na maioria dos livros e das listas dos românticos alemães, imediatamente surgiu-me a ideia de que havia algo a mais nessas construções sentimentais. Em Gonçalves Dias, além do romantismo propriamente dito, há inserções primorosas sobre liberdade e heroísmo, inclusive, elementos que desafiavam normas sociais e encorajavam a análise dos valores e crenças individuais. O inglês Lord Byron compunha na mesma linhagem. Exemplo: "Childe Harold's Pilgrimage", poema narrando a jornada de um jovem chamado Childe Harold através da Europa, refletindo sobre temas como beleza, amor, morte, política e filosofia, enquanto explora diversos lugares e culturas. Ora, muito além de um conceito heróico puramente estático e inorgânico.
Da mesma forma que "Canção do Tamoio" do nosso Gonçalves Dias, cuja narrativa retrata a luta e a resistência dos povos indígenas, especificamente os Tamoios, contra os colonizadores portugueses, enaltecendo a coragem e a bravura dos indígenas na defesa de suas terras e tradições, contra a invasão europeia. O poema também faz uma crítica à opressão colonial e ao sofrimento imposto aos nativos. Essa obra é um exemplo inconteste do que chamo de lírica-adjutória porque nela se incluem mensagens de luta, de superação, de força pessoal; ou não? Da mesma forma, a romântica "Canção do Exílio" se enquadra nessa premissa. Encontrei inúmeras mensagens cheias de rigor existencial, saudade explícita e a busca pela felicidade na pátria-mãe. Ou seja, a transformação da melancolia em um impulso de enfrentamento de desafios.
Para quem lê com acuidade desalienada, vai acabar encontrando tais alegações, por exemplo, em "Ainda uma vez - adeus!", cuja ideia de despedida, mesmo diante do amor intenso, pode ser interpretada como um ato de autoamor e autocuidado, representando um crescimento e fortalecimento pessoal, através do desapego. Ou não? Por isso, este texto - a ser brevemente transformado em ensaio crítico - mostra rápidas nuânces do que passei a chamar de lírica-adjutória, não como 'absoluta veritas', todavia, como algo diferente, que possa levar a novas discussões sobre a poética gonçalvina e, no todo, a avaliações sobre a expansão da romancidade no que concerne à mensagens interpessoais.
Foi isso que me levou a analisar além do romantismo e indianismo de Gonçalves Dias, afora componentes líricos, simplesmente. Há, no meu entender, claríssima evocação de mensagens-interpessoais, de versos-bússolas, de apelos-existenciais, enredos que, literalmente, me provocaram autorreflexão e estimularam meu desenvolvimento pessoal, no que concerne aos meus valores humanos. Em outras palavras, essa lírica-adjutória, que ora acrescento às discussões hermenêuticas gonçalvinas, a mim me transmitiu mensagens sutis de esperança, otimismo e fortaleza, claro, tudo isso, junto com a ideia inicial e constante de preservação da história e do fortalecimento das essências, romantica e indianista do autor maranhense.
Assim, para aqueles que se sentem seguros em suas afirmações e estão abertos a discussões saudáveis, tento ampliar a compreensão da notável jornada poética de Gonçalves Dias, transcendendo as fronteiras do nacionalismo romântico e explorando um âmbito mais amplo de reflexões interiores e existenciais que, se nossa alma estiver aberta, com certeza, tilintarão, como resposta aos estímulos presentes em boa parte da obra gonçalvina.
Até mais ver! Ita censeo, sine conjunctione cum veris absolutis.
07.08.2023
Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
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