"Quase Herege"? Que nada!
*Mhario Lincoln
A extraordinária capacidade do escritor e poeta prosaico Vander Piaia é inebriante. Cutuca a mente de quem lê com vara curta para que a reação desse morador de Cascavel-PR, revele todo seu lado inoportuno de ser, isto é, inoportuno para a sofreguidão, para a masmorra, para a solidão, para incapacidade de não agir, quando deve agir. Ele percebeu que inércia é fluido, é nuvem passageira, é inquilino desprecavido.
O título "Quase Herege" por si só nos provoca, sussurrando insinuações de rebeldia contra as convenções literárias e sociais. Porém, essas palavras têm muito mais o poder de injetar vitalidade na relação entre autor e leitor, como se fossem vasos comunicantes entre dois mundos. Através delas, as concepções das relações interpessoais são iluminadas, como se a luz da compreensão brilhasse por entre as linhas, conectando almas (personagens) separadas por tempo e espaço.
E isso, inevitavelmente, dá credulidade; uma reverberação de fé nas possibilidades que podem emergir no meio do vazio, como uma flor-de-lotus, brotando em um solo-planeta, mumificado. É uma sinfonia de esperança que ressoa mesmo nos momentos mais obscuros. Um trabalho que percebe a inexorabilidade do ser humano e a necessidade de produzir e de trabalhar, especialmente trabalhar com a alma, com a consciência, com a percepção e com as pontas do dedo!
No enigmático universo literário de Vander Piaia, sua obra "Quase Herege", aflora como uma obra multifacetada, um caleidoscópio de elementos que se entrelaçam como fios de uma tapeçaria de nuances. O autor, ousadamente, desafia as convenções ao abordar temas tão diversos como poesia, limites geográficos, história e sentimentos de autorreflexão. É como se ele conduzisse o leitor através de um labirinto literário, onde cada página revela uma nova camada de introspecção e reflexão. Isso porque ele transpõe os limites da racionalidade e se aventura em territórios mais profundos da sensibilidade, fazendo com que "Quase Herege" seja, na verdade, um convite para explorar o subconsciente, mergulhando nas águas da experiência humana, onde se mesclam os fluxos do consciente e do inconsciente.
As histórias que ele tece não são simples contos, mas janelas para as dimensões interiores, reveladoras da complexidade das emoções, em formas eloquentemente simples. Por exemplo, escolhi aleatoriamente "Evanescendo sob Árvores e Sol", dentre todo livro que li. Nesse, Piaia descreve uma cena de transcendência e epifania.
Através do diálogo entre mãe e filho, o leitor é convidado a contemplar os mistérios da existência. O simbolismo da figura materna, comparada à Virgem Maria, insinua uma conexão com o sagrado e o divino. O diálogo entre os personagens é permeado por uma aura de revelação, onde a mãe compartilha uma verdade essencial: "A vida é um sonho". A comparação com a Monalisa ressalta a complexidade das emoções humanas, que podem ser tão misteriosas e inescrutáveis, quanto o sorriso enigmático da icônica pintura. Não só nesse, mas em vários contos, fui eu convidado a questionar minha própria natureza da existência, provocado pelo conteúdo de Vander Piaia, através de uma prosa coreografica, dona de elegância e fluidez.
Em suma, Vander Piaia, com sua obra magistral "Quase Herege", eleva o gênero prosa a novas alturas no Brasil,, com subtextos, convidando o leitor a explorar os recantos mais profundos da alma humana, enquanto suas palavras ressoam como ecos de uma verdade ancestral.
Este livro - em mim e pela multiplicidade de assuntos cores hermenêuticas e resgates históricos, permanecerá gravado na memória do leitor, como um sonho que se desdobra lentamente, revelando suas múltiplas camadas de significado e beleza, pois captura vários matizes de um mundo próprio, e, como um alquimista da narrativa, Piaia destila partículas de um universo aparentemente comum, mas que, ao ser observado atentamente, revela sua complexidade e magia intrínseca.
Curitiba, 08.08.2023
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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