Redação do Facetubes:
O texto é uma rica tapeçaria emocional que consegue em sua brevidade, capturar a amplitude dos sentimentos humanos, desde a esperança até a incerteza dolorosa. Não é apenas uma história de amor ou desilusão, mas um exame profundo dos complexos interstícios da condição humana, encarnados nas vicissitudes da vida de Ana Amélia. Uma obra que consegue, com eficácia - inclusive com uma resposta pública emocionante - equilibrar dois polos emocionais distintos, criando uma narrativa que seja ao mesmo tempo envolvente e reflexiva.
Assim, "O Pedido" se destaca não apenas como uma investigação do amor e da expectativa, mas também como um estudo sobre as escolhas difíceis que moldam nossos destinos e as renúncias dolorosas que frequentemente acompanham essas decisões. Vale aplaudir, também, a excelente interpretação autoreflexiva da atriz, poeta e professora Linda Barros, da Academia Poética Brasileira.
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O PEDIDO
(Monólogo em duas cenas)
José Neres
Copyrigth © 2023 José Neres
FICHA TÉCNICA
Texto: José Neres (com fragmentos da obra de Gonçalves Dias)
Direção, figurino e atuação: Linda Barros
Sonoplastia: Allan Kaderc Marques
Capa: Laura Neres
AGRADECIMENTOS
À Casa de Cultura Josué Montello
À Bibliotecária Joseane Maria de Souza e Souza
Á Bibliotecária Wanda França Sousa
O PEDIDO
(Monólogo em duas cenas)
CENA I
ANA AMÉLIA entra meio desconfiada, como se escondesse algo dentro da roupa. Olha para um lado, para o outro. Vira-se para a plateia como se olhasse para o vazio.
ANA AMÉLIA (Efusiva)
Parece que vai dar tudo certo. (risinho nervoso). Acho que ele me pediu em casamento (respira fundo com a mão ao seio).
Oh, meu Deus, que alegria!!! Hoje de manhã vi minha mãe, dona Lourença, a ler atentamente uma carta. Toda hora era franzia o cenho. Como se estivesse se sentindo mal. Deve ser emoção de ter a filha pedida em casamento por um grande poeta.
Ela nem imagina que eu roubei, ou melhor, digamos assim, tomei a cartinha emprestada.
Depois devolvo. Oh, que emoção!!!
Finalmente consegui ficar sozinha e vou tirar a minha dúvida. Já reconheci a letra dele na sobrecarta, que deixei lá para ela pensar que eu não sei de nada. Falta agora apenas conhecer o conteúdo. Deixa ver...
(Retira a carta da roupa e, trêmula, começa a ler)
A dona Lourença Ferreira do Vale,
Estou por momentos à espera do vapor, em que hei de partir para o Ceará.
ANA AMÉLIA (olhando de lado)
É... ele realmente me disse que precisava viajar... Que saudade!!! Por este motivo, e porque a minha demora já tem sido bastante longa, não posso ir a Alcântara pedir-lhe as suas ordens nem para falar-lhe de um negócio que me interessa, e sobre o qual me permitirá de a ocupar por alguns momentos.
ANA AMÉLIA (fazendo cara de decepção)
Hã... será uma cara de negócio? Que coisa!
Pensei que... Bem... deixa eu continuar lendo...
Parecer-lhe-ei importuno e impertinente: por isso também para escrever-lhe esta, preciso de recordar-me da bondade suma com que me tem tratado.
ANA AMÉLIA (Coçando a cabeça)
Estranho... Pelo que sei e que vi... Mamãe nunca o tratou muito bem, apenas com a educação devida... Mas vamos lá... o restante...
Para lhe falar sem rodeios, a que estou pouco acostumado, eis o de que se trata: peço-lhe dona Ana Amélia em casamento.
ANA AMÉLIA (Segurando-se para não cair, Gritando)
Ele me pediu em casamento, obaaaa!!!. Tô tremendo, nem sei se consigo me controlar.
Para de tremer, Ana Amélia Ferreira do Vale, para de tremer... Lê o restante...
Fazendo-lhe semelhante pedido, quero, e é do meu dever, ser franco. Não tenho nem a ambição de figurar na política do meu país nem o amor de fazer fortuna, e quando se desse o contrário faltar-me-ia ainda a habilidade, o jeito para alcançar ambas, ou qualquer destas coisas.
ANA AMÉLIA (Olhando, pensativa para cima)
Ih... acho que vamos ter problema. Mamãe não deve ter gostado disso... Mas vamos lá...
Assim parece-me que nem chegarei a ter mais do que hoje tenho, sendo difícil que venha a ter menos, nem valerei mais do que hoje valho, que é bem pouco. Não desconheço que outros, e decerto melhores partidos, se oferecerão para sua filha:
ANA AMÉLIA (Interrogativa e ofegante)
Que que é isso. Não quero a mais ninguém... Nem mesmo outro pretendente tenho. Só a ti amo, meu Gonçalves, poeta das palmeiras onde canta o sabiá... deixa-me ver... o que vem depois... (volta a ler)
A única compensação que lhe posso oferecer, mas que não sei se a julgará suficiente, é que me parece ter conhecido quanto ela por suas qualidades se recomenda, e querer lisonjear-me de que a trataria quanto melhor pudesse, bem que não quanto ela merece.
ANA AMÉLIA (Colocando as mãos ao seio e devaneando)
Oh, meu poeta. Só a ti quero. Sei que me tratarás bem, como uma verdadeira rainha, embora sejam parcos teus recursos. Mamãe não se preocupará com isso. Dinheiro não é problema. Deixe-me pular estas linhas... ah, estou tão nervosa... olha, olha o que ele diz bem aqui:
"Sendo afirmativa a sua resposta, voltarei do Rio, tendo assegurado de alguma forma o meu futuro, e o mais breve que puder para aceitar o seu favor, e beijar-lhe as mãos por ele".
ANA AMÉLIA (Girando sobre si mesma e cantando de felicidade)
Nem quero saber o resto... Estou noiva!!! Ele me ama, ele me ama. (Pausa) Agora só preciso colocar esta carta no lugar de onde tirei, antes que mamãe perceba... Que felicidade!!! Que felicidade...
(Sai)
CENA II
ANA AMÉLIA entra contrariada, cabisbaixa.
Levanta a cabeça e fala em tom de choro e raiva ao mesmo tempo, como se estivesse diante de alguém:
Ah, Gonçalves Dias! Ah Gonçalves Dias... A quem me foi negada a mão... A quem implorei que comigo fugisse... Não cessei de querer-te, amor meu, pesar de quanto sofri.
Olhando para a plateia:
Era amor... era delírio.. era engano? Se me amas, não sei... Mas ainda me recordo daqueles seus olhos, tão negros, tão belos, tão puros, de vivo luzir... Gonçalves Dias,
Por que tão cedo o talismã quebraste de nosso amor?
Quando partiste, sem mesmo me dizer adeus, tantas vezes pensei em pôr fim à minha triste vida, mas me vieste à lembrança. Quis viver mais e vivi.
Para o mundo és Antônio Gonçalves Dias, o poeta, o advogado, o pesquisador, o etnógrafo renomado, o grande historiador, o talentoso, tradutor, mas para mim és mais que isso. És o templo, o mar, o romper d’alva. És para mim a própria ideia de perfeição de Deus. Tu és minha vida e meus amores.
(Levanta-se, respira fundo e vai saindo do palco. Para e, olhando para o público, diz):
Gonçalves Dias, poeta maior do meu Maranhão. A vida foi leviana para conosco.
Talvez hoje já sejas de outra, e para sempre.
E eu, eterna mendiga de teu amor, eterna escrava de tua felicidade, só queria um dia te encontrar e poder te dizer:
Ainda uma vez – Adeus!
(FIM)
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