O VICEVERSA deste mês traz Leonardo Magalhaens, mineiro dos bons, poeta, contista, crítico literário e Bacharel em Letras FALE / UFMG. Uma troca de ideias que vale à pena ler e refletir.
MHARIO LINCOLN PARA LEORNARDO MAGALHAENS
"A descoberta da poesia aconteceu por etapas e por vertigens". (LM).
1 - MHARIO LINCOLN: Você fez parte da OPA - Oficina de Produção Artística? Se sim? O que representou em sua carreira?
LEONARDO MAGALHAENS: A OPIO ou OPA! foi uma idealização de estudantes da PUC Coração Eucarístico nos idos de 2003, principalmente pelo poeta Rodrigo Starling, hoje editor do Selo Starling, que inspirou e organizou dezenas de eventos entre 2003 e 2010, desde saraus, até Banquetes de Ideias e shows de rock, prog rock em pubs de BH. Vários lançamentos de livros e performances contaram com participações de poetas e artistas da OPA! que visava uma união entre as várias, digamos, ‘panelinhas’ artísticas da capital mineira. Durou menos de uma década, mas vários artistas se conheceram através dos eventos da OPA! e são amigos até hoje. Para a minha ‘carreira’ representou a iniciação no meio artístico de BH, quando recém saído de Betim, cheguei para trabalhar na PBH, e pude participar em vários eventos, tanto nos bastidores, quanto nos palcos.
2- MHL: Há quem acredite que ODE SENSACIONAL seja uma das suas mais aplaudidas criações. Pode falar sobre isso.
LM: Os amigos e os literatos gostaram da Ode Sensacional que escrevi em 2004 e foi uma digestão lírica do que eu estava lendo: Whitman, Fernando Pessoa, Ginsberg. Mas é isto: uma digestão lírica, um desabafo. Escrevi coisas melhores, e piores, depois. Vários trechos foram publicados em blogs e em sites e em vídeos e em livros [antologias tipo a Portuguesia, de 2009] mas nunca TODAS as odes que foram lidas em vários saraus – e até para os mendigos na Praça Sete, marco zero de BH.
3 - MHL: Todos nós artistas, especialmente poetas vivemos um período difícil nos anos 90. Mas você aproveitou e leu quase tudo o que é importante e estava disponível neste lado ocidental. Da prosa ao verso. Com isso deve ter separado o joio do trigo.O que mais lhe agradou e lhe decepcionou. Pode explicar pra nós?
LM: Estou lendo e escrevendo desde o alvorecer dos anos 90 e leio de tudo. Prosa, prosa poética, poesia, contos, romances, teatro. Então preciso ter muito estômago para digerir tanta coisa – e tem muito ouro mas também muita palha. Poeta que faz barulho mas é só fanfarra. E poeta que chega humilde e se revela um gênio vanguardista. E depende do tipo de poesia [ou prosa] : é um desabafo ou é uma criação estética? Tem muita gente a gritar mas elaboração artística é rara. Sempre destaquei aqui em BH as figuras do poeta e ator Wilmar Silva, hoje Djami Sezostre; do poeta e fotógrafo Luiz Edmundo Alves; do poeta-arquiteto João Diniz; da poeta Regina Mello, do MUNAP, realizadora de saraus; da poeta e jornalista Brenda Mars, criadora e divulgadora; do poeta Ricardo Aleixo... E o poeta que iniciou a muitos: o poeta e jornalista Rogério Salgado.
4- MHL: Em que ponto chegou a sua consciência poética, numa rápida análise comparativa entre o ontem e o hoje?
LM: A descoberta da poesia aconteceu por etapas e por vertigens. Na escola a gente lê os clássicos, nos livros didáticos, formatados, engessados, mas pouco conhece das vanguardas. Na escola a gente não vê concretismo nem surrealismo nem Geração Beat. E não se lê poesia na escola. Só quando fui para a faculdade [de Psicologia que depois mudei para Letras …] pude ir aos saraus dos próprios estudantes e conhecer as poetas e os poetas que não estão nos livros didáticos: Maiakovski, Neruda, Waly Salomão, Chacal, Claudio Willer, Ginsberg, Paulo Leminski, Ana Cristina, Hilda Hilst, Alexei Bueno, Wilmar Silva [ou Djami Sezostre], Moacyr Félix, Rogério Salgado, e muitos outros. Só comparando podemos perceber hoje as linhas mestras das tantas leituras: a consciência do ser-no-mundo e a poesia enquanto desabafo e subversão. Por isso os mestres sempre foram os vanguardistas: Baudelaire e Rimbaud e Whitman e Fernando Pessoa e Drummond e Hilda Hilst e João Cabral que empurraram os limites da linguagem e ousaram e desbravaram as novas trilhas.
5 - MHL: Eu gostei muito de sua homenagem a Charles Baudelaire. Existem ligações existenciais?
LM: Baudelaire! Claro! Um dos mestres! Um dos poetas modernos até hoje.. pois o que tinha a dizer ainda faz sentido em nossa época moderna e pós-moderna… nesta modernidade líquida e, que vivemos de muita maquilagem e paixões efêmeras. A ideia de homenagear Baudelaire, nos 200 anos, foi do poeta e filósofo e editor Rodrigo Starling, que idealizou e concretizou a coleção Flores do Caos, publicada em BH pelo Selo Starling, em 12 volumes, com presença de poetas de carreira e poetas em iniciação, lado a lado, assim um Marcos Fabrício, um professor, um literato, um ensaísta, de estilo marcante e engajado, ao lado de um poeta e performancer iconoclasta Lecy Sousa, ao lado de um Helder Clério, jovem de talento ainda a desenvolver seu estilo. Foi uma oportunidade ímpar para apresentar as novas vozes da poesia contemporânea com seus gritos humanos demasiado humanos e aqui entre nós demasiadamente vivos!
6 - MHL: Há alguma filigrana que se pode nominar em sua assertiva: "muitos são criativos, poucos são originais", quando você se refere aos poetas?
LM: Muito poeta, muito literato, se expressa por desabafo, por uma visceral necessidade de dizer-se aos quatro-cantos. Mas quando se fala em Poesia, assim P maiúsculo, estamos evocando uma Construção Poética, um Estilo, uma marca autoral, que destaque aquela figura, a Autora ou o Autor não na condição de pessoa egocêntrica, ou ídolo, ou celebridade da temporada, mas enquanto Criadora ou Criador de uma estética original. Assim como fez um Baudelaire, um Whitman, um Fernando Pessoa, um Carlos Drummond, um Murilo Mendes, uma Clarice Lispector, uma Hilda Hilst, um João Cabral de Melo Neto.
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LEONARDO MAGALHÃES PARA MHARIO LINCOLN
"(...) a vontade geral não é simplesmente a soma das vontades individuais, mas sim um consenso coletivo que visa o bem comum" (MHL).
1- LEONARDO MAGALHAENS: Saudações! Quero iniciar sabendo mais sobre o homem e a obra. De onde vem e para onde vai? Autor em andanças e obra em processo. Como foi a peregrinação do Nordeste ao Sul?
Mhario Lincoln: Na minha opinião, caro amigo, o artista não é apenas um produto de sua origem, mas também um explorador de múltiplas fronteiras, sejam geográficas, artísticas e espirituais. O Maranhão, uma terra rica em cultura e contrastes, pode ter sido o solo fértil onde eu experimentei meus existenciais. Edward Wadie Said, professor, crítico literário e ativista político palestino-estadunidense propõe a ideia de que a identidade é uma construção em progresso, moldada tanto pela origem quanto pelas experiências ao longo do caminho. Assim, no meu caso, as mudanças não foram meramente geográficas, mas também conceituais, explorando os limites e interseções entre diferentes formas de arte, seja poesia, ensaios em prosa ou música. Mas, sempre incompleta, num estado de "vir a ser", aberta a novas possibilidades e interpretações. Claro e óbvio que enfrentei algumas dificuldades insensatas, tendo que superar preconceitos, barreiras culturais e os desafios intrínsecos relativos aos grupos literários, geralmente fechados a pessoas "pouco conhecidas". Tais dificuldades acabaram por enriquecer minha obra e minha visão de mundo.
2 - LM: Pesquisando na internet encontrei a AMEI uma associação de autores do Maranhão. E também uma Academia Poética Brasileira. Poderia situar e explicar melhor estas associações de escritores? Como se organiza atualmente os autores independentes?
MHL: Na verdade, a Associação Maranhense de Escritores Independentes surgiu por uma necessidade prática de abraçar muitos escritores regionais que perderam espaço na grande mídia. Assim, um grupo de intelectuais liderados pelo português José Viégas, casado com uma autora maranhense, acabou mudando essa história e transformou a AMEI, numa das maiores livrarias regionais do Brasil, com mais de 8 mil títulos de maranhenses genuínos em seu acervo comercial. Quanto a Academia Poética Brasileira foi algo muito parecido. As academias oficiais acabaram por perder a essência em pertinência com a agremiação francesa, berço de praticamente todas as academias do mundo. Atentei para esse ponto de vista e decidi abrir vaga para tantos artistas, poetas, músicos, escritores, pesquisadores e para literatos brasileiros, residentes fora do Brasil, que também necessitavam de algo forte e sério para incorporar em suas lutas e mostrar suas obras. Assim nasceu a APB com membros em praticamente todas as capitais brasileiras, além de seccionais na Argentina, Portugal, Inglaterra, Holanda, Alemanha e Estados Unidos. Na verdade, ambas as ideias, tanto da AMEI quanto da APB têm como base Russeau, para quem a vontade geral não é simplesmente a soma das vontades individuais, mas sim um consenso coletivo que visa o bem comum. Foi lendo a frase a seguir que decidi fundar a APB: "Encontrar uma forma de associação que defende e protege a pessoa e os bens de cada associado com toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedeça a si mesmo e permaneça tão livre quanto antes."
3 - LM: Como é a parceria com o Facetubes e sua atuação ou participação como Embaixador Universal da Paz? Como a prática do jornalismo influenciou sua escrita?
MHL: Comecei no jornalismo aos 14 anos, na editoria de Polícia. Alí passei a entender a importância do jornalismo de campo, para a produção das matérias. Isso me deu tanta experiência que logo em seguida fui ser colunista diário de uma página inteira. Desempenhei essa atividade profissional em dois dos grandes jornais de minha terra, São Luís do Maranhão. Foram 45 anos ininterruptos na imprensa diária, junto com TV (ao vivo) e programas de rádio. Quando me aposentei, vim para Curitiba e aqui montei um primeiro site, já completamente envolvido com a modernidade virtual. Há 5 anos, iniciei a Academia Poética Brasileira e com ela, uma plataforma para divulgar Literatura, Música e Arte, no nível nacional. Deu muito certo e desde então tenho recebido alguns reconhecimentos internacionais importantes, como o título de Embaixador Universal da Paz, (França), em razão de promover um trabalho conjunto, cujo objetivo é realmente oportunizar espaço, voz e vez àqueles que dependiam da grande mídia para mostrar suas obras. Isso, sem dúvida, é um braço importante para a paz interior e universal.
4 - LM: Sua obra "A bula dos Sete Pecados", com poética intimista e contemplativa tem algo de autobiográfico? A autobiografia do poeta é a própria Obra?
MHL: O questionamento sobre a relação entre minha poesia intimista e contemplativa e a autobiografia é uma indagação profunda que permeou outras críticas literárias sobre minha recente obra poética, "A Bula dos Sete Pecados". Na verdade, muito do que escrevi parece operar entre fronteiras fluidas do 'eu lírico' e de 'experiências universais', quando me acho dialogando com uma linhagem literária que vai de Goethe a Edgar Allan Poe (vide o poema "A Lagarta com Chapéu de Dedal"). Por outro prisma, há sim, como você bem questionou, uma tendência em ver o poético como um espelho da alma, um registro do íntimo, tornando quase irresistível a tentativa de ler a obra como um diário em verso de mim mesmo. Vale esclarecer, no entretanto, que meu 'eu lírico' não se resume a um alter ego independente, mas a um ente literário que possui sua própria vida, liberando-me da responsabilidade de ser completamente fiel a minha história. Aí sim, pode haver uma poesia intimista e contemplativa, sugerindo "algo de autobiográfico". Mas seria um erro considerar essa vertente como tal. Há um outro lado mais complexo nessa obra. As referências literárias (através de releituras e reestudos), além de um olhar hermenêutico e múltiplo. Posso até mesmo afirmar se eu fosse resenhar "A Bula dos Sete Pecados", a compararia a um mosaico, onde pedaços autobiográficos são recontextualizados em um espectro mais amplo, onde a minha poesia - acho eu - transcendeu à mera narrativa de vida pessoal, tornando-se uma forma de explorar a condição humana em sua totalidade.
5 - LM: É possível fazer hoje uma obra consistente e original quando é decretado o fim das vanguardas?
MHL: O "fim das vanguardas" é um conceito complexo e muitas vezes debatido, tanto no contexto da literatura quanto em outras formas de arte. A ideia sugere que os movimentos vanguardistas do século XX, que buscaram desafiar as normas, já esgotaram suas possibilidades. No entanto, a ideia de que não é mais possível produzir uma obra "consistente e original" devido ao fim das vanguardas, pode ser contestada de várias maneiras. Especialmente porque obras anteriores podem ser recontextualizadas de formas criativas e originais para abordar questões contemporâneas. A fusão de diferentes disciplinas, estilos e gêneros pode resultar em obras originais e estimulantes. A literatura pode ser enriquecida com influências de outras artes, ciências ou filosofias. Vale citar, que as mudanças sociais, políticas e ambientais oferecem material para obras que são tão originais, quanto profundamente relevantes para o mundo atual. Portanto, a ideia de que algo é "original" pode ser bastante subjetiva. Mesmo que se argumente que todas as "novas ideias" são reconfigurações de ideias antigas. Claro que se deve pensar bastante antes de decretar o "fim das vanguardas" e com isso viralizar a ideia de certos limites ou o esgotamento de algumas possibilidades estéticas, porque o ato criativo é inspirado por uma matriz complexa de fatores culturais, históricos, sociais e individuais, e sempre haverá espaço para obras que desafiem as convenções existentes de maneiras novas e interessantes.
6 - LM: Quais autores e autoras fazem parte do seu cânone ou paideuma? Quais foram influência para a sua escrita? E hoje quais nomes da nossa literatura merecem leitura atenta? No mais, agradeço o convite! Parabéns pela promoção da Poesia!
MHL: Na verdade, dois autores me foram pilares, além de trazerem outros importantes para minha carreira profissional: (1) Sou um seguidor irremediável de Johann Wolfgang von Goethe e do movimento alemão "Tempestade e Ímpeto", de caráter romântico que defendia o retorno do ser humano à natureza. Goethe, um dos mais autênticos românticos e um dos nomes primeiros que li para entender o romantismo mundial; seja francês, italiano, espanhol ou mesmo português, incluindo o próprio Gonçalves Dias, um dos românticos mais conhecidos do Brasil e que foi beber, também, na fonte germânica. Então, se Goethe é subjetivo e exagerado sentimental eu também o sou. (2) Gabriel García Márquez, especialmente com "Cem Anos de Solidão", um épico da condição humana através da lente de uma única família, os Buendía, na cidade imaginária de Macondo. Márquez, com uma prosa repleta de lirismo e imaginação, tece a história ao longo de várias gerações, começando com o patriarca, José Arcadio Buendía, e sua prima e esposa, Úrsula, numa mistura de elementos fantásticos com o cotidiano, fato que me serviu para realçar o maravilhoso e o absurdo nas trivialidades da vida, quando escrevi "A Lagarta com Chapéu de Dedal", que deverá se transformar em um monólogo teatral. Mas, o que mais me fortaleceu nessa trajetória foi ser forçado a múltiplas leituras, ganhando, porém, como recompensa, um monumento duradouro ao poder da literatura de capturar a complexidade do que significa ser humano, com todos os meus erros e virtudes.
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