Sebastião Salgado
Fotógrafo, formado em Economia, cofundador do Instituto Terra. Membro da Académie ds Beaux-Arts da França, Honoray Doctor of Arts da Universidade de Harvard (EUA), e vencedor do The Praemium Imperiale, da Japan Art Association, considerado como o Nobel das Artes, entre outros prêmios.
Entrevista a Rosiska Darcy de Oliveira, diretora da Revista Brasileira, editada pela Academia Brasileira de Letras.
Foto montagem em cima de originais: Adão Yawanawá, Aldeia Nova Esperança, Terra Indígena Yawanawá do Rio Gregório, Estado do Acre, 2016/© Sebastião Salgado/ Revista Brasileira/Imagens Google (Salgado).
Sebastião Salgado, você é membro da Academia de Belas-Artes da França, é um dos maiores fotógrafos do mundo. Tirar uma foto leva um segundo ou leva toda uma vida?
SS: Fazer uma fotografia leva uma vida. Se calculo que tenho uma média de 1/250 avos por segundo para cada imagem, as mais de 200 fotografias que compõem a exposição Amazônia, que será apresentada no Museu do Amanhã, a partir de julho, somam um pouco menos de um segundo. Mas para tirar todas essas fotografias investi, talvez, de oito a dez anos de minha vida viajando pela Amazônia. Investi um tempo considerável para conceitualizar todo este trabalho, depois para escolher as imagens, editá-las junto a Lélia, minha mulher e companheira de trabalho e de vida, que desenhou os livros, é cenógrafa e curadora de todas nossas exposições pelo mundo. Tudo isso para que essas imagens pudessem ser materializadas de uma forma apresentável. Então, realmente, o ato de realizar a foto leva uma fração de segundo, mas toda a preparação, a materialização e a apresentação disso tudo leva uma vida. E além de tudo, quando faço uma foto, estou fazendo uma intervenção com toda minha herança cultural, humana, relacional. É a minha vida, minha personalidade, minha maneira de ver o mundo, de me apresentar face ao que estou fotografando. É toda esta bagagem, junto com minha capacidade de percepção, que realiza a imagem. A fotografia é feita em uma fração de segundo, mas é necessária toda uma vida para realizá-la.
A fotografia é uma linguagem estética, um compromisso ético?
SS: A fotografia é uma linguagem puramente estética. Trabalhamos com planos, luzes, equilíbrio de espaços. Não só a minha linguagem fotográfica, mas a de todos os fotógrafos, é estética. E não é uma linguagem objetiva. É profundamente subjetiva. Expressa o ponto de vista de uma personalidade, de alguém que traz em si todo um aparato de ideias e de heranças. A ética é uma linha muito delgada, e não se pode estar nem antes ou depois dela. Também não é uma constante. É um conceito intransigente, de uma precisão absoluta, e individual. Quando intervenho com minhas fotografias, o faço com a minha ética, com todos os parâmetros que definem a minha personalidade, meu posicionamento dentro da sociedade.
Esse parâmetro ético é quase tão subjetivo quanto a fotografia, pois é intrínseco a cada uma das pessoas deste planeta. A sua ética não é a minha ética. Há detalhes que geram uma diferença enorme. A ética é uma constante na vida das pessoas e principalmente na dos fotógrafos, que podem chegar ao fundo da intimidade daqueles que fotografam. E cabe a eles definir o que podem registrar e apresentar. Você não pode transgredir de forma alguma essa linha.
A fotografia é a sua expressão?
SS: A fotografia é minha linguagem. Idioma é o que falo, a linguagem é o que expresso. Eu me expresso por meio da fotografia. Muitas pessoas me dizem: “Sebastião, você vê tantas coisas interessantes no planeta, tem a oportunidade de conhecer lugares incríveis, tinha de escrever sobre isso”. Eu respondo que já escrevo com a fotografia, é a minha expressão. É tão difícil fazer uma fotografia quanto escrever um artigo. É necessário tanta concentração e preparação. Eu me lembro quando fiz a ascensão ao Pico da Neblina com 22 indígenas, mais os meus assistentes e a equipe de apoio da Funai. Nesse caminho, talvez tenha feito duas ou três fotografias que considero razoáveis. É tanto investimento físico, de concepção, de tempo, de imaginar as imagens possíveis, o que poderia ver daquelas alturas. Ia vivendo aquilo profundamente dentro de mim. A fotografia é uma linguagem de busca permanente, de uma profundidade imensa e algo que você não pode definir a priori. Todas as variáveis que vão constituir a realidade que você vai materializar em imagem não são conhecidas de antemão. Nenhuma. Você vai descobrindo tudo a cada passo. Sejam dificuldades que surgem ao longo do caminho, as condições climáticas, as reações das pessoas que acompanham. É uma linguagem constituída de todo o entorno para sua materialização. A fotografia é uma das linguagens que mais necessita de concentração e dedicação para ser realizada.
(...)
O seu primeiro grande trabalho foi fotografar a catástrofe humana criada pela seca, fome e guerra no Sahel. Daí nasceu o projeto de fotografar a situação de refugiados em 40 países do mundo. Seu livro Êxodos conta essa história com imagens do que você chamou uma vez uma humanidade em transe. O fato de ser você mesmo um exilado pesou no apelo que o tema dos refugiados teve para você?
SS: A minha linguagem fotográfica foi ligada à minha forma de vida. Tive o grande privilégio de viver um momento da História no qual minha fotografia pôde se expressar. Cheguei à França quase em condição de exilado. Lélia e eu tivemos que sair do Brasil de uma maneira muito rápida, no final dos anos 1960, porque o país vivia em um sistema de repressão profunda, e éramos jovens militantes de esquerda, com possibilidade de sermos presos, torturados e mortos. Como éramos muito novos, a organização da qual fazíamos parte decidiu que seria oportuno sairmos, no objetivo de proteger e formar jovens quadros no exterior. E partimos. Chegamos à França como exilados. Logo depois, a ditadura brasileira retirou nossos passaportes e tivemos de impetrar um mandado de segurança para recuperá-los. Passamos à condição de refugiados aqui na França, e depois de imigrantes. E até hoje, há mais de 50 anos na França, já com a nacionalidade francesa, continuamos sendo imigrantes. Somos brasileiros morando em um país no qual não nascemos, do qual não herdamos a cultura; nossa cultura é brasileira. Quando realizei um trabalho sobre refugiados e imigrantes, já conhecia essa história, eu a vivi, bem ou mal. Era a minha história, me identificava com ela. Durante anos saí em busca de populações que haviam sido arrancadas de seu local de origem e se encontravam em uma situação de trânsito, à procura de um outro ponto de estabilidade. Era uma condição desesperante, mas não de depressão. Não conheci nenhuma dessas populações, mesmo nas situações mais dramáticas, deprimidas. Estavam em busca de um outro ponto de equilíbrio. Vivi durante muitos anos com essas populações, que partiam por motivos econômicos, de mudança climática ou conflitos. Realizei um corpo de trabalho chamado Êxodos. Na realidade, estava fotografando uma parte da minha própria vida, retratada em outras pessoas, algumas delas em situações um pouco melhores do que as que tive, e a grande maioria em condições muito piores. Foi um momento muito importante da minha vida, de identificação com as pessoas, e de sentir profundamente o que estava fotografando.
O magnífico livro Gênesis, a que você dedicou oito anos de trabalho, retrata os lugares intocados do planeta, cerca de quarenta por cento em regiões de difícil acesso, altas montanhas, geleiras, desertos, que se conservam ainda hoje como cenários que remontam a tempos imemoriais. O que você buscava nessa peregrinação às origens?
SS: Buscava as origens. Vivi momentos dramáticos quando estava fotografando os refugiados e imigrantes, os desenraizados. A ponto que entrei em estado de depressão física e mental. Tive em instâncias de abandonar a fotografia. Tive uma decepção profunda com o comportamento da minha espécie. Parei de fotografar, voltei ao Brasil, foi na época em que meus pais ficaram mais velhos e passaram a fazenda deles para mim e para a Lélia. E por uma ideia da Lélia, transformamos aquele pedaço de terra em uma reserva do patrimônio natural e começamos a plantar uma floresta. Com o retorno da biodiversidade, vi as árvores refazerem a terra, as nascentes. Voltaram os insetos, os pássaros, os mamíferos. Vi a diversificação da biodiversidade, e isso me tocou profundamente. Plantamos centenas de milhares de árvores. Foi uma lição de vida tão grande para mim, que a partir de um momento quis voltar para a fotografia. Mas quis ir ver o meu planeta, o que ainda tinha de prístino no mundo. Sabia que havia uma parte, mas desconhecia que era tão grande. Passei muito tempo na Conservation International em Washington, eles me abriam todos os arquivos, e lá descobri que mais de 46% do planeta ainda estava como no dia do Gênesis. E quis ir ver isso. Organizei com a Lélia um projeto de visitar o planeta. Não sabia que isso depois se tornaria um livro e uma exposição. Consegui que um grupo de revistas me financiasse, e fui embora conhecer o planeta. Tudo o que havia visto em pequena escala no Instituto Terra, quis ver em grande. E vi. Descobri coisas fantásticas. A primeira delas teve relação com toda a depressão que tive ligada à decepção com a violência de minha espécie. Descobri que minha espécie era apenas mais uma em meio a milhares de outras, e de forma alguma era a mais importante. Todas têm uma função. Descobri que o reino do qual faço parte, repleto de espécies, era muito mais sofisticado do que imaginava. Havia também os reinos vegetal e mineral. Encontrei uma riqueza de oportunidades e de diversificação. Toda aquela desesperança que tive voltou a ser uma grande esperança. O importante não é uma só espécie, no caso a minha, mas todas as espécies. Me dei conta de que o planeta é capaz de organizar, reciclar, refazer, reconstruir tudo. E me voltou um enorme prazer de viver, toda a esperança, a possibilidade de me inserir dentro do contexto geral de uma forma completamente diferente. Tive a oportunidade de ficar sozinho em alto de montanhas, vendo chegar o vento, a chuva, a neve. Vi a erosão trabalhar, os minerais, as demais espécies, todos os seres vivos participando. E, entre aquela quantidade de viagens que fiz durante oito anos, descobri que a maior delas era aquela que estava fazendo dentro de mim, me descobrindo como parte da biodiversidade geral, parte do meu planeta.
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A ENTREVISTADORA:
PARA LER A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA:
Amazonias. Pág. 11. REVISTA BRASILEIRA. Link para abrir: https://www.academia.org.br/sites/default/files/publicacoes/arquivos/revista_brasileira_110-111_internet.pdf
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