O que oferecer aos alunos: textos originais ou releituras?
Renata Barcellos
"O governo federal poderia fazer um concurso nacional para os alunos da Educação Básica lerem essas obras, ou seja, de incentivo à leitura. Mas, em primeiro de tudo, deve investir mais nas políticas de formação do professor para que se torne leitor, porque, além das mídias incentivarem a preguiça intelectual de nossos alunos, temos, em grande parte, professores não leitores e desestimulados" (RB)
Antes de entrarmos em uma sala de aula de Ensino Médio para ministrarmos aulas de literaturas, precisamos ter consciência da nossa responsabilidade coma formação leitora dos alunos. Esta semana, releitura de livros (exemplos: O cortiço e A divina comédia em cordel e Macunaíma em HQ) chegaram à rede estadual do Rio de Janeiro. Quando a agente de leitura me mostrou, no primeiro momento, fiquei sem reação. Mas, logo em seguida, indignei-me e disse a ela: - “já pensou o que isso significa? O aluno não terá mais acesso aos textos originais, a estética do autor? O texto original não é mais considerado? Quem fez a releitura?”.
O professor Dino Cavalcante (UFMA) lembrou-me de que “há mais de 30 anos, a Editora Scipione publicou vários clássicos em formato de adaptação para jovens. O mais famoso foi Os Lusíadas, por Rubem Braga”. Entretanto, cada vez mais as pesquisas apontam o mau desempenho dos alunos em compreensão e interpretação textual. Esse material não colaborará para agravar mais ainda esse quadro? Não estariam substimando a capacidade intellectual deles? Não seriam eles mais capazes (devido ao atual qualidade do ensino) de ler os originais e de eles realizarem a retextualização? Lá, no Colégio Estadual José Leite Lopes, os meus leem todo bimestre um livro (ao menos) e elaboram retextualizações. Um exemplo foi a turma 3003/2023: um grupo (Renato, Isabela, João Pedro e Sophia) compôs uma música. Está disponível no fim da mesa-redonda em homenagem ao Bicentenário de Gonçalves Dias: https://www.youtube.com/watch?v=1QCeHvqEnVg
Precisamos estimular os alunos a lerem os originais, a perceberem a estética do autor, destacar os recursos expressivos e eles reelaborarem a obra através da retextualização. Se este material entregue às escolas for utilizado para um estudo comparativo, será um bom exercício. De acordo com o professor José Neres (SL), é preciso que “uma adaptação em outras linguagens ou mesmo em forma de obra simplificada/atualizada, quando bem empregada, pode servir para incentivar o aluno a conhecer e ler o texto integral. Mas isso exige um trabalho extra por parte do professor e da escola. É necessário preparar o aluno para receber o conteúdo de uma obra, de um autor e deixar claro que se trata de uma adaptação de outra obra e, se possível, disponibilizar a versão original para a turma”. Do contrário, caro professor, qual será o espaço da literatura? Hoje, nós profissionais da disciplina, tanto criticamos a abordagem das questões em concursos e a sua falta devida de importância. Pensemos!!! Não os subestimemos!!!
Muitas vezes, nossos alunos não terão mais contato com textos literários. Devemos estimulá-los à leitura dos originais e as releituras como apreciação e análise crítica. Será que, em um futuro próximo, os vestibulares adotaram releituras? Será que, por exemplo, nos próximos exames de qualificação, a UERJ sugerirá releituras das obras?
Cabe ressaltarmos que não temos nada contra os gêneros cordel, HQ… Pelo contrário, sempre trabalhamos em sala de aula e propomos mesas temáticas no canal do YouTube BarcellArtes… Por exemplo, o artista Iramir Araújo fez a releitura de Úrsula de Maria Firmina dos Reis e O mulato de Aluízio de Azevedo. Ele doou um exemplar de cada para o acervo do CEJLL-NAVE RJ. Eles são utilizados pelos alunos mas com acesso aos originais. Conforme o estudioso de literaturas José Anchieta, subestimar ou não a capacidade dos alunos depende “muito de como essas versões foram feitas. As histórias foram simplificadas? As questões que elas evocam foram mantidas ou ampliadas? As novas possibilidades permitidas pela narrativa gráfica foram exploradas à altura do texto base e justificam a existência de uma nova versão? As pessoas em geral tendem a ver HQs como uma forma menor de contar histórias, eu acho que este preconceito também é uma maneira de subestimar as possibilidades dessa linguagem artística. Reinterpretações, releituras e transformações são inerentes à arte. A grande questão é como elas se justificam, se restringem ou ampliam nossos horizontes”.
Acerca desta temática, a professora da Antônia Miramar (UEMA Caxias – MA) fez a seguinte reflexão e excelente sugestão: “ enquanto professora de Língua Portuguesa e Literaturas da Educação Básica, de que essa ideia de transformar O Cortiço, de nosso querido e talentoso Aluísio Azevedo, a Divina Comédia, de Dante, ou qualquer outra obra literária em outro gênero é louvável, pois a intenção é facilitar a leitura destas às crianças, adolescentes e jovens, porém vai reduzir o enredo, o conteúdo, transformando em um resumo mal elaborado. Além disso, pode estimular ainda mais a preguiça intelectual de nossos alunos, sejam eles crianças, adolescentes ou jovens, já bastam os resumos que encontramos facilmente na Internet. Esses resumos tiram, geralmente, a beleza e a riqueza dos recursos e detalhes nos romances, enfim nas obras literárias. Sou da opinião de que devemos incentivá-los a ler as obras completas. O governo federal poderia fazer um concurso nacional para os alunos da Educação Básica lerem essas obras, ou seja, de incentivo à leitura. Mas, em primeiro de tudo, deve investir mais nas políticas de formação do professor para que se torne leitor, porque, além das mídias incentivarem a preguiça intelectual de nossos alunos, temos, em grande parte, professores não leitores e desestimulados etc”.
Para concluir, Porakê Munduruku diz: “Trata-se de veículos e linguagem diferentes, mas que podem ser aceitas, sem nenhum problema, se forem de qualidade, digo, qualidade literária, e se for sem prejuízo da leitura do original. Exemplo: O Guarani, de José de Alencar , em cordel, de Klevisson Vianna, é uma nova leitura fascinante e ainda obedece a métrica. Digo o mesmo de O Conde de Monte Cristo e os Miseráveis, os dois em Cordel, do mesmo autor. Gêneses, em quadrinhos, de Robert Crumb é uma leitura inteligente do primeiro livro da Bíblia”. É Preciso refletir sobre como administramos a formação leitora!
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