*Texto de Mhario Lincoln
Esse cara, no meu bestunto, é uma das mais ricas vozes vivas da poesia brasileira. Porque João Batista do Lago é um poeta maranhense com solstícios constantes de Brasil. Ele emerge da sua caverna platônica em busca do ontem renovado, agregando, de forma esplendidamente moderna, as experiências das sombras de sua vida.
Ele não morre. Mas mata a angústia e a solidão, com a frieza de uma caneta que escreve com o suor de sua imaginação, enquanto usa a linguagem jâmbica. Há dentro dele uma coleção de Dante's, há Infernos e Céus que se confundem com o Olimpo, cheio de confusos deuses; quem sabe, com zunidos gravídicos para além do Deus de Spinoza.
João Batista, enquanto poeta, é; a sua poesia, é! E em sendo, vira mito, Touro Encantado nos Lençóis Maranhenses. Desta forma, corro um risco imenso tentando penetrar nas entranhas desse João - um Muro de Jericó, quase intransponível - com os portões da alma muito bem fechados, a fim de que hipócritas não consigam entrar. Porém, em meu auto-niilismo, vou usar as trombetas da coragem e enfrentarei (mesmo sendo o último mensageiro inorgânico), esse desafio.
Destarte, enfileiro os poemas enviados por ele em ordem aleatória e vou mergulhar nesse infinitório agregado de Goethe, Heidegger, Leo Strauss, Habermas, Ludwig Wittgenstein, Hannah Arendt, Maurice Blondel, Emmanuel Levinas, Zygmunt Bauman, Edmund Husserl, Henri Bergson...
Nem necessário falar que quando se trata de João Batista Gomes do Lago, "o gozo é mais embaixo", como me disse certa vez o poeta Manoel Serrão da Silveira Lacerda um amigo comum, ao se referir que a gente precisa mergulhar mais fundo na poética de JB do Lago, para entendê-la, como também, por osmose, tentei fazer com Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito, Pitágoras de Samos, Xenófanes de Cólofon, Parmênides de Eleia, James Lovelock...
Com tanta bagagem, Serrão me confidenciou sobre o poeta dos Itapecurus: "Feito dor./ Feito verbo./ Feito carne./ Feito nós infestos de agruras abstêmias,/ Idem inglórios epítetos insultuosos". Então lancei minha rede ao mar e recorri aos salvadores citados acima, tateando com a vara bussólica, a fim de iluminar meu caminho de linotipista, para interpretar os versos de João Batista.
Com "Paideia: A formação do homem grego", do imortalíssimo Werner Jaeger, senti-me suficientemente preparado para vociferar: "Eu posso, eu vou fazer!". Não sei se acertei nessa minha tentativa.
Assim, fiz-me polígrafo para entender as entranhas imaginárias do poeta João Batista do Lago, batizado que foi nas águas surrealistas do rio Itapecuru.
EXCERTOS POEMÁTICOS
SER
De João Batista do Lago
“Não!
Eu não nasci dos meus pais.”
― Sou filho do complexo nada;
do Caos mais que perfeito.
O poema “SER” de João Batista do Lago é uma exploração profunda da identidade e existência humanas. Ele desafia a noção convencional de nascimento e ancestralidade, proclamando-se como “filho do complexo nada; do Caos mais que perfeito”. Corajosamente indo aonde poucos poemas e pensadores do século XX foram, JB desafia a noção convencional de nascimento e existência, propondo que somos filhos do “complexo nada; do Caos mais que perfeito”.
Imediatamente chamei à mesa o filósofo Jean-Paul Sartre, para compactuar essa 'matrix batista' com o que o francês afirmou: “a existência precede a essência”. Segundo Sartre, primeiro existimos e só então definimos quem somos, através de nossas ações e escolhas.
Desta forma, Lago parece sugerir que não somos meramente produtos de nossos pais biológicos, mas sim seres complexos moldados pelo caos existencial, fato que me levou a considerar a possibilidade de que nossa verdadeira origem esteja além da biologia: no reino metafísico do “nada” e do “caos”. Aterrorizante?
Nem tanto para quem estudou Theodore Adorno, sociólogo alemão, que abordou o conceito de 'Caos' de diferentes maneiras. Em uma delas, "(...) as palavras são pequenas formas no maravilhoso caos que é o mundo; formas que focalizam e prendem ideias, que afiam os pensamentos, que conseguem pintar aquarelas de percepção". As ideias de Lago e Adorno parecem xifópagos quando há sensibilidade única de entender o ‘caos’ como algo comum ao Mundo e a quaisquer que sejam as experiências humanas.
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ESPELHO FRAGMENTADO
De João Batista do Lago
Quem sou eu!? Que lugar é este!?
(...) Eu não consigo lembrar…
Tudo está muito fragmentado…
Meus pensamentos estão todos quebrados...”
Passei algumas boas horas tentando escrever algo que me parecesse coerente ao todo (fragmentado aqui) desse poema entranhesco - “Espelho Fragmentado”, de João Batista do Lago. Ao princípio se fez dúvida se eu escrevia o que estava sentindo. Depois se fez verbo quando chamei para a mesma mesa Albert Camus - o conceito do absurdo. Sim, seria absurdo a ideia de que a vida é inerentemente sem sentido e que qualquer tentativa de encontrar ordem ou propósito é em vão?
A confusão se apossou de minha pena, da mesma forma que o ‘eu poético’ construiu esse poema, especialmente quando li: “Não, eu não tenho esses rostos; esses rostos que estou vendo não são meus!”. Seria uma forma lírica de expressar, o autor, sensações de desconexão e confusão? Ou o 'eu lírico' passou a questionar, durante a feitura da escrita, a (frágil) identidade do autor (“Quem sou eu!?”) e do seu ambiente real (“Que lugar é este!?”)? A imagem do “espelho fragmentado” pode ser um símbolo da identidade fragmentada do 'eu lírico' de João Batista, que não consegue reconhecer a si mesmo ou entender seu lugar no mundo? No fundo, um excepcional uso da liberdade poética.
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SONETO DO FIM
De João Batista do Lago
De tudo que há na vida
A morte sempre será
Única certeza vívida
Que por certo findará
(...)
No útero da terra mãe
Finalmente retornados
Ao eterno peito das mães
Entre certezas e incertezas, “Soneto do Fim” de João Batista do Lago me força a trazer à mesa o existencialista Martin Heidegger, um dos grandes pensadores do século XX. Foi exatamente ele que argumentou se a consciência da morte é fundamental para a compreensão da existência humana. E respondeu: "(...) ao nos confrontarmos com a morte, somos levados a questionar o significado e o propósito de nossas vidas (...)".
Então, se todos nós sustentamos que somos radicalmente livres e responsáveis por dar sentido as nossas vidas, por que nos deixamos influenciar pela certeza da morte? A resposta do próprio João Batista é intrigante, mas maravilhosa: “útero da terra mãe”, sugerindo um retorno à natureza após a morte, uma ideia que tem paralelos com muitas crenças espirituais e filosóficas.
Entra aqui, de forma genial, o inglês James Lovelock, o primeiro a propor uma forma científica da palavra 'Gaia', cuja máxima seria o conceito de homeostase biológica, onde os seres vivos são 'sistemas reguladores do Planeta' e assim, estão sempre vivos, mesmo que em constantes mudanças e transformação. Daí, minha ideia do 'pós-mortem-húmus', nas subliminares do poema.
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VELÓRIO
De João Batista do Lago
No meio da sala velo minh’alma
Que me olha com dentes escancarados
Abrigada nos quatro cantos do mundo
Donde sorri das minhas dores
E qual punhal que sangra ventos
Rasga o meu profundo nada
(...)
No meio da sala velo minh’alma que aos poucos se afasta…
E de mim voa.
Confesso meu bestunto ao revelar aqui que foi nesse poema de JB que pela primeira vez consegui visualizar, efetivamente, o desencarne de um 'eu lírico', do corpo físico do poeta. Isso acontece em “Velório”. Mais uma vez, o autor se vê em encruzilhadas existenciais quando tenta lidar com temas de morte, perda e a natureza efêmera. Aí, como disse acima, vi o 'eu lírico' pairando sobre o corpo e velando sua própria representação física. Há claríssima desconexão entre o corpo e o 'sujeito lírico'. Na doutrina espírita, Alan Kardec diria: "o cordão fluídico, que liga o corpo físico ao perispírito, estaria rompido".
Zygmunt Bauman, a quem convido agora para a mesa, também falou extensivamente sobre a modernidade líquida ou, "um tempo caracterizado pela transitoriedade e pela incerteza". Destarte, ouso-me afirmar, no contexto dos versos batistas, serem esses, expressões de máxima ansiedade e incerteza. Fato também não tão desastroso, pois acompanham nossas vidas neste Mundo em constantes mudanças.
Finalmente, peço a opinião de Arthur Schopenhauer, aqui do meu lado, sobre o seguinte verso: “No meio da sala velo minh’alma que aos poucos se afasta…”. E ele, imediatamente responde: "(...) pode ser visto como um momento de percepção aguda da natureza dolorosa da vontade. A alma, ou a vontade individual, está se afastando, talvez sugerindo um desejo de escapar do sofrimento inerente à existência".
Em tempo: Schopenhauer também foi influenciado pelas filosofias orientais e acreditava na possibilidade de negação ou renúncia à vontade como um caminho para a libertação do sofrimento. Assim, na carona, e conhecendo muito bem meu amigo João Batista como o conheço, acredito que esses versos (metáfora) estejam ligados diretamente à crescente desigualdade e alienação na sociedade moderna.
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DA MORTE DE DEUS
De João Batista do Lago
“Deus está morto” gritou o poeta.
Verberou o louco.
Assim falou Zaratustra.
(...)
Contudo, ninguém lhes emprestaram ouvidos;
todos imersos estavam em seus afazeres.
E todos zombaram do velho filósofo:
uns sorriram; outros, pilhérias disseram;
uns meneavam a cabeça em plena gozação,
outros acreditavam que ouviam um louco,
que teimava em insistir no seu axioma:
“Deus está morto!”.
Meu caro amigo João Batista do Lago. Até agora não havia lhe respondido essa correspondência porque mergulhei em dias constantes, a fim de tentar entender o que está aí escrito. Óbvio que eu começaria com 'Zaratustra'. Mas não! Quis ir um pouco além da margem cálida do rio Itapecuru. Por isso me aventurei mergulhar nas profundezas da mente de quem ora leio e sempre admirei.
Para isso, tive que convidar para se sentar ao meu lado o magnífico Slavoj Žižek, esse filósofo esloveno que se envolveu muito com as ideias de Nietzsche. Ou seja, alguém que - com certeza - segue a mesma linha de pensamento expresso por JB, nesse poema: a proclamação de Friedrich Nietzsche “Deus está morto”!
Slavoj Žižek, em um ensaio, publicado na internet, por sua vez, falava sobre as críticas feitas ao proclamo de Nietzsche - "Deus está morto" - com indiferenças e zombarias. Žižek respondeu a essas críticas argumentando que “(...) vivemos em uma era pós-ideológica, onde as grandes narrativas ou sistemas de crenças (como a ideia de Deus) não têm mais o poder que costumavam ter”. E complementa: "(...) essa indiferença, invés de nos libertar, nos aprisiona mais do que nunca aos sistemas de poder e controle que são ainda mais difíceis de perceber e resistir porque eles são apresentados como ‘naturais’ (...)”.
Consciente, JB alerta através desses belos versos acima, algumas vezes incompreendidos. Contudo, mesmo que grite no deserto, seus versos sempre serão como as pedras sonoras, assentadas nas grandes e solitárias paredes das igrejas antigas, onde qualquer ruído, produz reverberação constante, servindo de trilha sonora para o ato de expulsar demônios ou anjos, dependendo da linguagem almática de cada privilegiado leitor.
A mim, caro poeta, esses versos me fizeram um bem danado!
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
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