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Brasil ENTREVISTA EXCLUSIVA

Exclusivo: Leonardo Magalhaens entrevista Bilá Bernardes para o Facetubes

Direto da editoria de Belo Horizonte/Minas Gerais.

13/10/2023 11h35 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Leonardo Magalhaens/Bilá Bernardes/Minas Gerais
Art: MHL
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Selo DA.

Nota da Editoria: Leonardo Magalhães é um grande estudioso da literatura, conhecido por suas análises de livros clássicos. Ele está estreando na Plataforma do Facetubes (www.facetubes.com.br) com uma entrevista exclusiva com a poeta mineira Biláh Bernardes. Biláh é famosa por seu poema “Saber Hiperativo”, que foi publicado na revista EPsiBA, em Buenos Aires, Argentina, em outubro de 2006. Ela também costuma recitar seus poemas em escolas públicas de Belo Horizonte, Minas Gerais. Biláh tem uma vida rica em experiências e um grande talento para a literatura. A estreia de Leonardo na Plataforma do Facetubes com essa entrevista é muito interessante para os leitores. Vale a pena conferir, abaixo:

 

"Quando, no começo dos anos 2000, respondi a  uma entrevista  de Selmo Vasconcellos e citei, entre meus livros preferidos, O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcellos, tive a grata surpresa de receber a informação que José Mauro era tio do Selmo e que a história do pé de Laranja Lima era autobiográfica, inclusive com os nomes e apelidos reais da família".BB.

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LEONARDO MAGALHAENS: Biláh Bernardes! Bem-vinda ao Facetubes! Pronta para responder este interrogatório? Antes agradecemos ao convite do poeta Mhario Lincoln. Vamos lá. Biláh Bernardes, como seria a sua vida sem poesia? Poesia é respiração? Início, meio e fim?
BILÁH BERNARDES: É a primeira vez que tento imaginar, não só a minha vida sem poesia, mas qualquer vida... impossível. Existe alguma vida sem poesia? Uma pessoa que não perceba poesia, ela está viva? Poesia é, sim, como ar, essencial à respiração. Desde a infância, em Santo Antônio do Monte, era intensa a convivência com poesia tanto declamadas nas quermesses da igreja, quanto nas músicas ouvidas, nas danças ritmadas, nos toques das sanfonas em bailes rurais.
Também convivi com descendentes de escravos que declamavam e cantavam cantigas aprendidas com antepassados. Não me lembro das palavras, mas recordo as vozes quando ninavam para acordarem o sono.
Já em idade escolar, aprendi a declamar poemas para as comemorações, o que era valorizado. É-me impossível pensar minha vida sem poesia porque venho de uma família e de uma cidade de leitores, declamadores e poetas. 
Voltando à questão da respiração, já disseram que poesia, arte e criação é inspiração e transpiração. Também que é expiração. Concordo com tudo isso. Há poemas que parecem apenas expiração. Acordo com todas as ideias borbulhando e só preciso deixar sair e registrar. Às vezes vem como inspiração, mas emperra no meio do caminho. Aí precisa a transpiração para olharmos e considerar pronto, aquele final que nos alerta: posso mostrar, posso entregar ao público. Para mim, isso é o princípio, o meio e o fim do poema. Quanto à poesia está no princípio, no meio e no fim da vida. Alguns enxergam, outros não.
 
2 - LM: Depois de três anos de pandemia, como a nossa vida mudou! Os eventos, os saraus, os retiros espirituais -- onde?! Como foi este período de anomia para você? Qual o seu manual de sobrevivência? Fé? Pensamento positivo? Poesia?
BB: Faz parte da minha natureza não precisar de manual de sobrevivência. Acordo e vivo a vida, entregue às surpresas ou às rotinas. Agradeço tudo: família, amigos, sol, chuva, música, nuvens, janelas... Não tenho tempo ocioso. Meu dia é sempre curto. Enfrento os problemas com fé na solução. E o que não consigo solucionar é porque ainda não é o momento. Aí, lembro-me de uma máxima repetida por meu pai: O que não tem conserto, consertado está. Não vale a pena lutar contra o rio.
Durante a pandemia, o que mais me ajudou foi não temer a morte. Creio que ninguém vai sem ser hora. E, quando é a hora, nada segura; tudo contribui para acontecer. Usei máscaras, mas não me prendi em casa. Mesmo porque as ruas desertas, permitiam-me ver a natureza se manifestando, ouvir os cantos, o vento. 
No início de 2020, nasceram meus netinhos gêmeos e fui diariamente ajudar a cuidar. Cuidar é um verbo incrível. Oferecer cuidado e aceitar cuidados.  E foi com este espírito que aceitei o convite de uma psicóloga para enviar áudio poemas, um por dia, às pessoas isoladas nos lares, em espaços de idosos, em hospitais, creches. Aprendi a criar lista de transmissão pelo zap e criei duas, limitadas a duzentos e poucas pessoas cada uma. Também consegui contatos de instituições e universidades. Fui bem recebida, tive muitos retornos com comentários e, no dia em que não enviava no horário, pela manhã, cobranças: onde está o poema de hoje? 
Ensinaram-me a transformar o banheiro em estúdio; recebi dicas de declamação... estabeleci diálogos que não existiam antes. 
Uma vez, um escritor de Pará de Minas enviou-me mensagem informando que a cidade quase toda conhecia meus poemas que ele replicava nos grupos e entre amigos. 
Tudo isso  junto é que despertou o desejo de organizar o livro Sentimento Dividido, publicando os poemas que mais agradavam. Dividido porque é assim na vida. Ninguém é um só, principalmente se for mulher. Estamos sempre nos dividindo em múltiplaspresenças.
Voltando à sua pergunta, sobre os tempos de pandemia ou qualquer tempo em que as dificuldades realçam muito, mais que pensamento positivo, é não ter pensamentos negativos. É confiar no que posso e tentar o que ainda não. E isso, pra mim, é fé. É crer que erros acontecem e não são um problema tão grande se estou aberta a descobrir soluções quando me são mostradas.     

3 - LM: Recentemente foi lançado o livro de poemas Sentimento Dividido, pelo Selo Starling, BH, com poemas bem intimistas, saudosistas, quase testemunhos. Poesia para você tem um toque autobiográfico, tipo autoficção? Ou é o sentimento fluindo livremente e gotejado no papel?
BB: Sentimento Dividido parece autorretrato, mas não é. Alguns poemas, sim, mostram situações vividas, outros dizem de situações ouvidas, de cenas de filmes que foram gatilhos, de diálogos em grupos. Mas, no momento do registro, penso que escrever na primeira pessoa contribui para o leitor se identificar. E sempre tem a ver com quem escreve para despertar as palavras que expressam o sentimento. Mesmo quando diz de outros, está dizendo de si em representação. É como disse Fernando Pessoa: Poeta é fingidor. Concordo com ele.
O poema Mel e Fel, por exemplo, surgiu quando fui acordada por uma discussão de vizinhos. Já participei de grupos de teatro e nesses momentos exerço a empatia e me imagino naquele lugar. Fica fácil. As palavras brotam. Sobre o poema Traição, uma vez uma leitora comentou: Nossa! Não imaginei que seu casamento fosse assim! Eu ri... não era assim o meu casamento.  Foi um livro o que me inspirou.
Meu primeiro livro FotoGrafias de DesCasamento, foi resultado de análise quando decidi me separar depois de trinta e três anos de casamento, quase quarenta de convivência. Este, sim, é meio autobiográfico, mas mesmo neste livro, separei poemas que mostravam situações e sentimentos universais em relações longas.
Como respondi na pergunta anterior, às vezes o sentimento goteja, tem vez que não. Tem vez que demanda esforço e tempo. Uma coisa que me deixa bem consciente, na construção dos poemas, é o ritmo. Talvez por me apresentar em poesia cênica, talvez influência dos poemas clássicos da infância, ter ritmo nos versos é algo a que dou importância tanto quanto ao sentido e ao sentimento expresso. Talvez por isso tenha tantos poemas musicados.
4 - LM: Biláh, você que é uma poeta que frequenta a cena literária poética de BH, o que tem a revelar sobre os autores da velha guarda? Algum caso inusitado? Um evento marcante? 
BB: Povoaram minha infância e adolescência: Castro Alves, Olavo Bilac, Menotti del Picchia, Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles , Júlia Lopes de Almeida, Francisca Júlia, Stella Leonardos, Carlos Drummond, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Mário Quintana, Gonçalves Dias, J G de Araújo Jorge, Casimiro de Abreu, entre poetas; Érico Veríssimo, João Guimarães Rosa, Caryl Chessman – o bandido da luz vermelha e muitos outros na prosa.
Caso inusitado? Quando, no começo dos anos 2000, respondi a  uma entrevista  de Selmo Vasconcellos e citei, entre meus livros preferidos, O Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcellos, tive a grata surpresa de receber a informação que José Mauro era tio do Selmo e que a história do pé de Laranja Lima era autobiográfica, inclusive com os nomes e apelidos reais da família.
O livro de Caryl Chessman, (Cela 2455 – o corredor da morte) foi escrito na prisão, nos EEUU, ele condenado à cadeira elétrica, preso por mais de dez anos e tendo conseguido revogação da sentença por 8 vezes, foi executado em 1960, quando eu tinha 10 anos, com transmissão ao vivo pelo rádio. Para ler o livro, que era grande e pesado, eu me deitava de bruços no chão.
O Pinpinela Escarlate, tradução do inglês, é um romance de aventuras que foi pivô de um incêndio na cama onde eu dormi, tentando terminar a leitura à luz de velas. O livro foi escrito por uma mulher e o personagem principal, um nobre, usava vários disfarces para salvar outros nobres, durante a revolução francesa, e sempre conseguia escapar da polícia de forma fabulosa. 
 
5 - LM: E a participação em várias antologias? Como você vê esta proliferação de antologias poéticas? É uma forma de colaboração? É uma vitrine possível? E é um aprendizado? Como se destacar meio a pluralidade de autores e autoras?
BB: Prefiro chamar de coletânea, às obras coletivas que são oportunidade para quem ainda não consegue publicar um livro. Foi assim que comecei a publicar, em 2006, nos tempos do Orkut, quando descobri o Congresso Brasileiro de Poesia que teve mais de vinte edições em Bento Gonçalves/RS. 
Depois de algumas coletâneas de Bento Gonçalves, participei, principalmente das que Rogério Salgado organizou e  da Nós da Poesia (Brenda Marques e Coletivo Imersão Latina), desde a primeira edição.
Sou a favor e vários autores(as), hoje reconhecid(as)os, começaram assim. Algumas têm uma excelente seleção de autores, outras são uma forma de arrecadar dinheiro, mas sempre mostra a oportunidade para bons escritores iniciarem e serem reconhecidos.
Por isso, concordo com tudo que você pontuou em relação a estas publicações: São forma de colaboração, é vitrine possível, é aprendizado. Aprendizado também porque autores novatos leem outros e se espelham naqueles que passa a admirar.
Os que se destacam com certeza leem muito. É a leitura que permite enriquecimento de vocabulário, desenvolver a capacidade de enxergar algo diferente no que é comum e cotidiano. Através de coletâneas, tenho descoberto pessoas que escrevem, principalmente crônicas incríveis. Talvez não tenham reconhecimento global devido a essa pluralidade que você citou, não só nas coletâneas, mas nas redes sociais e nem sempre são os melhores os que conseguem visibilidade.
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6 - LM: Biláh, para finalizar nossa entrevista para o Facetubes, gostaria de deixar uma mensagem para os leitores e leitoras? E para aquela e aquele que quer ingressar na carreira das Letras? No mais, agradecemos e até a próxima!
BB: A mensagem é: Não desistam! Escrevam! Mostrem! Principalmente, leiam outros, muitos outros. Reescrevam os próprios textos. Convivam com grupos de escritores... e não esperem retorno financeiro. Os retornos são outros, mas vale a pena escrever. 

 

Vídeo-bônus

(Entrevista audiovisual, no Parque Municipal de Belo Horizonte)

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Fátima Sampaio Há 3 anos atrásBelo Horizonte/MG Que entrevista maravilhosa. Parabéns a grande poeta Biláh, ao Leonardo e ao Facetubes....
Jane Há 3 anos atrásAraújo Parabéns pela entrevista. Biláh é uma poeta sensível e muito sensível. Sinto muita honra em tê-la como amiga. Sucesso sempre!
Carlos DuransHá 3 anos atrásSão Luís MARANHÃOGrande Mário. Li em algum lugar uma publicação maravilhosa de Leonardo. Parece que era “Spleen de BH: Ásperas Flores”. Um menino de futuro. Ele fez parte, como fiz aqui rapidamente, em São Luís de um grupo chamado Párias, da reformulação da poesia concreta no Brasil. Isso tem muita forma grande Mário. Continue. quero ler mais coisas dele. Não só as resenhas que ele faz. Pede pra ele resenhar esse livro que citei. Assim a gente sabe como surgiu e é diferente. Resenhar a si mesmo!
CacáHá 3 anos atrásBHQuem não é visto não é lembrado. Matou a pau LM.
Luis Duarte, editor e produtor culturalHá 3 anos atrásBrasíliaCaro Mhario. Não conmhecia Bilá, nem Leonardo. Mas, a partir de hoje, vou procurá-los e aprender um pouco mais sobre eles.
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