"Nossos professores estão adoencendo", de José Neres para o Facetubes
Diante de um quadro que vem emoldurado pela consciência da desilusão, muitos profissionais do magistério não conseguem suportar a pressão e desenvolvem enfermidades que os colocam em risco(...)".
19/10/2023 06h32Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario LincolnFonte: José Neres
Arte: MHL/IA
José Neres
(Professor, Membro da AML, ALL, APB e Sobrames-MA)
15 de outubro é o dia de lembrar que os professores existem! Centenas de mensagens são postadas em redes sociais e aplicativos de comunicação instantânea, em algumas escolas são colocados cartazes de agradecimento, frases “motivadoras”. Em outras, a data passa despercebida ou, em alguns casos, o único lamento externado é pelo fato de que haverá aula. De qualquer modo – com ou sem festividades – no dia seguinte, o mundo do magistério voltará à normalidade, às queixas, às reclamações, às desvalorizações cotidianas, à falta de uma escuta ativa que ajude a resolver alguns problemas que se repetem ao longo dos tempos e que talvez conquistem o grau de eternidade...
No dia a dia, longe da glamourização apregoada pelos defensores da santificação do Dia dos Professores, os docentes enfrentam inúmeros problemas e são quase sempre vistos como pessoas fadadas a um sacerdócio, não como profissionais que estudaram e se formaram para entrar em uma sala de aula e exercerem com dignidade a árdua e louvável tarefa de formar intelectualmente as atuais e futuras gerações.
Não deveria ser assim, mas os professores costumam ser pessoas insatisfeitas. Contudo essa insatisfação não está ligada apenas às questões pecuniárias. Há muito mais. Geralmente os docentes mais comprometidos com a Educação acreditam que poderiam fazer bem mais do que já fazem. Creem que o alunado poderia chegar mais longe a partir daquilo que é ensinado em sala de aula. Porém, quando abrem os olhos para a realidade circundante, percebem que boa parte dos esforços empreendidos se esvai em uma rede subterrânea formada pela falta de incentivo material, pela ausência de recursos pedagógicos específicos para aquela comunidade escolar e pela falta de colaboração por parte dos demais atores educacionais.
Prof. José Neres, o autor. Diante disso, o professor e a professora chegam a uma terrível conclusão: quase todos os esforços empreendidos em uma semana, um mês, um semestre ou até mesmo em um ano não renderam o que seria o esperado. Além disso, percebem que existe uma irritante persistência em não haver um diálogo verdadeiro entre as diferentes esferas do poder constituído. Muitos reclamam, com razão, dos baixos salários, da gigantesca e extenuante carga de trabalho, da falta de reconhecimento, das turmas lotadas, da desatenção, da desvalorização profissional etc.
Caso um professor ou uma professora queira aprofundar seus estudos em um curso de pós-graduação, provavelmente terá de conviver com uma nova jornada de atividades e de arcar com custos que raramente serão revertidos em aumento de salário. Se tiver que depender de ajuda de custos ou de tempo disponível para estudar, descobrirá na pele os efeitos da burocracia do setor público e da má vontade do setor privado. Mas, caso decida não participar das “formações”, poderá ser considerado desatualizado e até mesmo relapso para com seus deveres.
Em sala de aula e nos entornos das escolas e faculdades, os professores têm que conviver com as diversas formas de violência, desde a física até a psicológica, passando por outras de difícil classificação. Não são raros os casos em que são os professores que devem explicar o porquê de os alunos não conseguirem atingir as metas estatísticas impostas por seus superiores hierárquicos – muitas vezes compostos por pessoas que jamais vivenciaram a experiência de ficar diante de uma turma lotada, sem estímulo e cujo objetivo maior é ouvir a sirene anunciando o final do período de aula. Mas os projetos que chegam às escolas são bonitos e vislumbram uma turma ideal. Porém, quem elabora tais projetos, por algum motivo, se esquece dos anseios e das necessidades dos professores, que são tratados como meros executores de tarefas e não como seres pensantes.
Diante de um quadro que vem emoldurado pela consciência da desilusão, muitos profissionais do magistério não conseguem suportar a pressão e desenvolvem enfermidades que colocam em risco não somente sua vida profissional, mas também os relacionamentos interpessoais, com grandes possibilidades de terem o corpo e a mente prejudicados.
Em todas as escolas é possível encontrar professores e professoras com crises de ansiedade, depressão, esgotamento físico e mental, burnout e outros problemas que dificultam a convivência da pessoa até com ela mesma. Isso sem contar casos como afonia, problemas de vista, dores na coluna, cansaço nas pernas, lesões por esforços repetitivos, obesidade e até mesmo alcoolismo e uso de drogas ilícitas. Problemas que, se não forem tratados em tempo hábil, poderão deixar severas sequelas na vida de um profissional que, além de tudo, pode se tornar alvo de piadinhas, chacotas e memes nas redes sociais.
É preciso cuidar de nossos professores. É preciso permitir que os próprios professores tenham condições de cuidar de si próprios. É preciso fazer algo para que esse profissional possa continuar ajudando no progresso do país sem pôr em risco sua integridade física e mental.
Nos próximos 15 de outubro, as mensagens carinhosas e os parabéns são bem-vindos, mas não podem servir para mascarar um problema que vai além da sala de aula e da secretaria de uma instituição de ensino. Elas devem ser recebidas com brilho nos olhos e alívio no coração.
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José Neres Há 3 anos atrásSão Luis - MAMeu muito obrigado a todas as pessoas que leram e/ou comentaram nosso artigo sobre a saúde fisica e mental de nossos professores. É um assunto que precisa ser discutido e que sempre levanta questionamentos e reflexões. Bom final de semana!
Kiko SoaresHá 3 anos atrásSão Luís do MaranhãoHá uma diferença muito grande entre "ser professor", "estar professor" e "sentir-se professor". Da mesma forma valido para o estudante.
LEOPOLDO GIL DULCIO VAZHá 3 anos atrásMaranhãoNeres, eu desisti!!! um dia cheguei à sala da coordenação, e um aluno estava destratando uma professora, ameaçando-a, inclusive, físicamente!! intervi, e coloquei o aluno para fora da sala, depois de chamar pela supervisão de alunos inumeras vezes, para que tomassem uma providencia.
Leopoldo VazHá 3 anos atrásSão LuísNo dia seguinte, fui chamado à direção, para tomar ciencia de um processo administrativo, por agressão ao aluno!!! ele estava acompanhado pelo pai, e exigia minha punição!!! Depois de chamado pela Direção, para me explicar, e assinar o processo disciplinar aberto contra mim, e os fatos confirmados pela professora agredida, pela coordenação de alunos, sobre a chamada e o motivo da mesma, ainda assim estaria respondendo a um processo administrativo.
Leopoldo VazHá 3 anos atrásMaranhãoRepeti o que acontecera, e disse ao pai e ao aluno que se tivese alguma pendencia, poderiamos nos encotrar fora dos muros da escola. Lá, veriamos quem é homem... logico que não aceitaram... disse ao pai se fosse fora da escola, esse aprendiz de marginal agiria dessa forma... logico que não!!! então, fiz algo que, no momento, pareceu0-me mais apropriado - infelizmente não é essa a forma de agir....