*Mhario Lincoln
Há muitos anos, desde quando iniciei minha perambulação pelos Apicuns, na minha velha São Luís-Ma, passei a conviver - mesmo de longe, como um mero espectador - com alguns dos jovens poetas mais promissores de uma geração de ouro: Raimundo Fontenelle, Augusto Cassas, Roberto Kenard, os irmãos Medeiros, Viriato Gaspar, Chagas Val, Valdelino Cécio, e, logo depois, em meio ao meu Curso de Jornalismo (UFMA), num dos corredores da vida, encontrei o poeta Alex Brasil e, desde então, passei a cultivar uma admiração e até mesmo um forte orgulho dele ter-me feito amigo.
Em recente entrevista que fiz com Alex Brasil para a plataforma www.facetubes.com.br ele confidenciou algo muito sincero que eu reproduzo agora: "(...) Theodor Adorno disse: ‘Três paixões simples governam minha vida: o desejo imenso de amar, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade’. Desde criança, sempre me senti assim, amaldiçoadamente conectado com as minhas dores e o sofrimento de todas as formas de vida ao meu redor. Tento conciliar o pragmatismo cerebral com a voz do meu coração poeta, mas estou sempre esquecendo o ódio e perdoando a mão que me apedreja, sufocando minha alma de sonhos de amor e paz que não consigo nem para os outros, nem para mim. Agora, o poeta integral na forma e nas metáforas, esse não se completa nunca: está sempre nascendo a cada momento para a eterna novidade da vida e do mundo (...)”.
É a partir desse sentimento de Alex que também pude sentir o quão introspecta é (ou foi) ou, ainda será, a poética desse homem lírico, membro da Academia Maranhense de Letras. Essa reflexão pessoal soa como uma construção imagética delicada, sempre em sua busca de equilíbrio entre o pragmatismo e a paixão.
Interessante salientar, também, e trazer para esta mesa, na carona de alguns pensadores, outro referencial chamado Bertrand Russell, filósofo e matemático do século XX, onde o ápice de alguns de seus mais importantes textos procura pontuar o interminável conflito interno entre razão e emoção, especialmente no contexto da construção poética e sua relação com o mundo.
A frase usada por Alex Brasil, no começo deste texo, acaba por estabelecer uma função filosófica, indicando que as paixões mencionadas não são apenas individuais, mas universais e atemporais. É uma expressão do eterno dilema humano entre nossos ideais e a realidade que nos rodeia, entre o que aspiramos ser e o que somos forçados a enfrentar.
Para me aprofundar mais nessa escalada lírica, escolhi três excertos de poemas atuais, publicados em sua conta no Facebook, para rápidas pinceladas nesta homenagem que presto ao meu grande amigo e confrade Alex Brasil, prova que ele, como me refiro acima, está, sim, "em constante mutação". E isso é muito bom!
1. PARA QUE SERVE O POETA?
"Para que serve o poeta / se sua linguagem sensitiva/ não cabe na fome concreta?/ O poeta é carvão e brasa/ que mantém acesa a vida/ onde tudo cabe, / e a vida, quase cinza,/ tão frágil, nem sabe."
O poeta Alex Brasil, aqui, debulha a sua função e a sua essência em relação ao mundo tangível. A dualidade de "linguagem sensitiva" e "fome concreta" interpreto como o eterno conflito entre o ideal e o real, entre o sublime e o cotidiano, como em Nietzsche, convidado à mesma mesa: "Nós temos a arte para não morrer da verdade." Ora, nessa lírica alexiana, o poeta é apresentado como um farol, "carvão e brasa", alimentando a vida mesmo quando ela se reduz a quase cinzas. Desta forma, o poeta, ao traduzir as sensações, emoções e abstrações, revive e dá significado a uma existência que, por si só, pode não considerar sua própria fragilidade.
2. NUDEZ
"Um dia te vi toda nua,/ mas não pude te amar/ por estupidez tua/ de querer e recusar/ aquele instante de candura/ em que deixamos de rimar/ poeta e poesia pura."
Este poema trata das nuances do desejo, da vulnerabilidade e do autoconhecimento. A alusão à nudez, mais do que física, sugere uma exposição emocional, antes de tudo. Mas a "estupidez" da recusa aponta para os medos e inseguranças humanas que impedem uma conexão genuína. O poeta francês Paul Valéry escreveu: "Um poeta deve deixar vestígios de sua passagem, não provas. Só vestígios fazem sonhar." O importante é a forma como Alex pontua essa situação, quebrando o paradigma entre a rima, o poeta e a poesia pura. Aliás, esses versos também parecem explorar o momento em que "...a poesia transcende a mera combinação de palavras para se tornar uma expressão pura de emoção e experiência humana". (Site de Antonio Miranda).
3. RIO PEREGRINO
"Estou saindo discretamente da tua vida,/ como o rio que desliza para as lonjuras, (...) E quando sentires sede de mim, verás que o teu rio já passou;/ e um rio não é o mesmo, duas vezes, enfim,/ como jamais serei o mesmo que um dia te amou."
Este trecho evoca a inevitabilidade da mudança e a efemeridade das relações humanas. A metáfora do rio, em constante fluxo e transformação, lembra a famosa máxima do filósofo grego Heráclito: "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio." Em um contexto mais contemporâneo, chego ao sociólogo Zygmunt Bauman, onde as relações e identidades estão em constante fluxo. A saída discreta e a sede irremediável pelo que já passou reforçam a natureza transitória do amor e da existência. É interessante notar, ainda, que tais versos podem se refletir nas experiências humanas, como a natureza mutável das coisas, algo parecido como uma identidade de transformação, até mesmo uma forte evolução dos sentimentos, como algo sonoro, onde os tons e as escalas têm que mudar para se transformar em sinfonia. Ou seja, a maneira como amamos alguém pode mudar com o tempo, mesmo que a essência desse amor permaneça.
Abaixo, os poemas interpretados em sua íntegra:
PARA QUE SERVE O POETA?
Alex Brasil
Para que serve o poeta e sua poesia
se palavras e sonhos
não enchem barriga vazia?
Se a vida implacável se alimenta
com dentes e pão
numa luta matemática
que desconhece o coração?
Para que serve o poeta
se sua linguagem sensitiva
não cabe na fome concreta?
O poeta é carvão e brasa
que mantêm acesa a vida
onde tudo cabe,
e a vida, quase cinza,
tão frágil, nem sabe.
****
NUDEZ
Alex Brasil
Um dia vi a tua nudez
de poema exato
no silêncio do meu quarto,
mas tua sensatez
recusou meus dedos e abraços.
Um dia te vi toda nua,
mas não pude te amar
por estupidez tua
de querer e recusar
aquele instante de candura
em que deixamos de rimar
poeta e poesia pura.
****
RIO PEREGRINO
Alex Brasil
Estou saindo discretamente
da tua vida,
como o rio que desliza para as lonjuras,
e que minha ausência
não seja sentida,
que sequer percebas minha desventura.
Se não me queres navio
ancorado no teu porto,
serei então como um rio,
sempre ida, sem retorno,
beijando as margens que o oprime.
Serei, querida, do amor, peregrino,
na saudade que me define.
E quando sentires sede de mim,
verás que o teu rio já passou;
e um rio não é o mesmo, duas vezes, enfim,
como jamais serei o mesmo que um dia te amou.
****
* Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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