Renata Barcellos (BarcellArtes)
No Brasil, urge o ensino da História e das Literaturas Africanas de forma efetiva. Essas disciplinas propiciam a consciência e a reflexão acerca de injustiças cometidas no passado e no presente. Com a Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, e, posteriormente, com a Lei 11 546, de 19 de novembro de 2007, cresceu a visibilidade em relação aos estudos sobre África, uma vez que foi instituída sua obrigatoriedade em todo o território brasileiro e em todos os níveis de ensino. Entretanto, atualmente, com a reforma nos currículos do Ensino Médio brasileiro, houve redução da carga horária das diversas áreas do conhecimento.
Com isso, mesmo sendo lei, muitas vezes, não é cumprida a ementa do ensino da História e das Culturas Africanas. No Ensino Superior, quando ofertada, restringe-se a uma disciplina no curso de Licenciatura em Letras. Pesquisadoras formadas, em 2008, na graduação, não as estudaram. Um absurdo!!!
Podem certificar isso na mesa-redonda sobre a produção literária de Elisa Lucinda (https://www.youtube.com/watch?v=2o2HtXMH9R8&t=4s ).
Nesta, podemos discutir além da obra da multiartista, a formação literária do aluno e a do professor. Como na SEEDUC RJ, o estudo das Literaturas Africanas está prevista no terceiro bimestre, do terceiro ano, do Ensino Médio, na Escola Estadual José Leite Lopes (NAVE RJ), proponho aos meus alunos um panorama desde o início até a contemporaneidade. Dessa forma, acompanho a produção literária de escritores de expressão de Língua Portuguesa da atualidade, como: Beni Dya Mbaxi e Ernesto Moamba da Angola, Josina Viegas de Moçambique e Vera Duarte de Cabo Verde.
Apresentaremos uma entrevista para divulgar o jovem autor angolano Beni Dya Mbaxi. Biografia de Beni Dya Mbaxi: colunista do blogue brasileiro “ Choque Cultural Buíque” com Dica de Leitura, é CEO do movimento literário JEZ “ Jovens Escritores do Zoológico”, CEO do Espaço Zuela, coordenador da Revista Punhado com o brasileiro, Guigo Ribeiro, a revista visa promover a NEGRITUDE. É autor de sete livros: Em 2018, publicou o seu primeiro livro, “ Quando Não Olhas Para Trás”.
Em 2019, A Menina da Burca, Musseque e Outras Reflexões ensaio; 2020, "Pensar Fora da Caixa" e "A Última Masoxi", publicado na Inglaterra, Londres. Em 2023, "What Does A Black Have To Say?" E "Palesa no Inferno". Em 2021, recebeu o prémio da 4 edição do Annual Global African Authors Award pela obra “ A Última Masoxi”, na África do Sul.
E semifinalista na premiação “Mulher Forte African Literature 2023”, no Botswana, com a obra “ A Última Masoxi”.
1-Quando começou a escrever?
Beni Dya Mbaxi: Na verdade, já levo jeito para escrever desde muito novo, lembro que, com os meus 12 anos de idade, escrevi a minha primeira peça teatral e, naquele período, eu já escrevia também poesias e jograis e apresentava na igreja, e também escrevia música do estilo Kuduro, um estilo musical popular angolano, feito maioritariamente pelos residentes das zonas periféricas. Mas, em 2018, já na universidade, no curso de Língua Portuguesa e Comunicação, cruzei-me com algumas disciplinas ligadas à Literatura, e pude perceber que posso dar continuidade naquilo que já vivia em mim, portanto, naquele mesmo ano, publiquei o meu primeiro livro de contos intitulado. "QUANDO NÃO OLHAS PARA TRÁS".
2- Como surgem as temáticas a serem abordadas nos romances?
Beni Dya Mbaxi: Normalmente, as temáticas abordadas nos meus livros surgem por intermédio das realidades que o mundo oferece, sou um artista que trabalha muito com o que se passa no mundo, tenho a certeza que a realidade é um grande desafio para um escritor, e quando os nossos livros se baseiam na realidade claramente que estamos a falar de coisas que já aconteceram, e sabemos que quando é ficção que por vezes passam por utopia, podem vir acontecer. Contundo, quero eu dizer que as temáticas dos meus livros surgem com o andar dos acontecimentos no mundo, quando posso, eu escrevo o que acontece e servem de avisos ou demonstração do que temos feito no mundo.
3- Está havendo uma proliferação de feiras literárias no Brasil e no mundo. De que forma você vê a contribuição dessa prática para a formação do leitor?
Beni Dya Mbaxi: Penso que esta proliferação das feiras literárias dão uma outra dinâmica ao mundo, falo no contexto social, é importante os cidadãos do mundo terem contatos com os livros, na verdade, a literatura é a expressão de uma sociedade, e como humanos pertencemos todos a um grupo social. Portanto, os leitores têm o mundo todo a sua frente, e acredito que eventos como estes dão crenças ao novos leitores e leitoras, podemos todos ter a certeza, que com estes tipos de práticas, formaremos mais leitores no mundo, é necessário motivação para dar início a uma atividade, e acredito que esta é uma motivação sem dimensão. E possibilita encontros de pessoas. Contudo, digo que haja mais feiras literárias no mundo.
4- Qual o espaço das literárias em um universo tão imediatista?
Beni Dya Mbaxi: Penso que, hoje, neste mundo imediatista, o espaço literário que restou, é onde estão as pessoas, tenho visto o esforço que muitos profissionais têm feito para manter vivo a cultura literária, portanto, digo que o espaço é o "lugar possível", onde há oportunidade, falamos dos livros, embora não apreciados como deve ser, mas o importante é mesmo não deixar morrer a cultura, porque hoje cada vez mais fecham bibliotecas, mas pessoas buscando as vontades que aparecem em algures do mundo. O mundo está tão imediato que está a obrigar os amantes da literatura recriarem um espaço para adaptação do imediatismo mundial. Portanto, o nosso espaço é o "lugar do possível", em outras palavras, onde há oportunidade, a gente se apresenta, a gente fala dos livros.
5- Os direitos humanos foram criados no contexto do Holocausto. Como você vê a relação: leis e caos de violência no mundo?
Beni Dya Mbaxi: Ainda acho que na estética a frase ou a palavra é muito linda "direitos humanos", mas no verdadeiro sentido, penso que não temos direitos nenhum. São pequenos grupos que pensam que comando tudo e todos, em portas trancadas pensam que podem tudo e que o mundo depende das decisões deles. E, quando demos por conta, estão aí os efeitos colaterais, mortes e caos por tudo que é terra. A minha visão sobre o caos no mundo é muito profunda e ampla, mas quero aqui dizer que precisa-se rever muitas coisas no mundo das decisões políticas, é urgente! Penso que os responsáveis devem rever as leis urgentemente. Senão só veremos mortes por todo lado. Que haja direitos humanos no verdadeiro sentido.
6- Qual mensagem deixa para jovens leitores e escritores?
Beni Dya Mbaxi: A mensagem que deixo é, que por mais confuso que o mundo esteja, ainda há um lugar onde está registrado tudo. Para os jovens escritores, digo que devem ser mais criativos, a literatura exige criatividade, leem os clássicos, os modernos e, por fim, o que se escreve hoje, logo saberás o que tens de escrever. Para os leitores, digo que continuem desfolhando os livros e motivando os seus próximos amarem os livros.
Os temas tratados por Beni Dya Mbaxi precisam ser discutidos em sala de aula. Em um momento social tão tenso, mundialmente, é preciso refletir sobre o respeito ao outro, os direitos humanos... É tempo de nos repensarmos e de nos reinventarmos!!! Sejamos resilientes!!!
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