*Mhario Lincoln
Os versos de Aldira Martins são uma expressão de poesia singela e direta, que se assemelha ao estilo de algumas das mais importantes poetas brasileiras, dentre elas,Cora Coralina. A simplicidade e a pureza dos versos mais abaixo, refletem a beleza, que muitas vezes é negligenciada pela grande mídia.
Singela. É assim que entendo essa nova fase poética dessa cearense boa de verso. E porque singeleza? Porque se refere à particularidade ou atributo do que é singelo, ou seja, sem sofisticação e em que há muita simplicidade, mas com 'sustança poética', como me disse certa vez o cordelista/poeta Pedro Sampaio, também do Ceará. A palavra mistura-se a personalidade de Aldira, haja vista sua descomplicada maneira de levar a vida, sem adornos, nem exigências, além de seus limites. Isto é, sempre humilde, sincera e sem pretensões terceiras. E suas produções artísticas, sejam poesias, letras de música, organizações e manifestações filantrópicas também são exatamente iguais a sua personalidade desprovido de complexidade e ostentação.
Desta forma é que Aldira Martins também utiliza essa mesma linguagem despretenciosa para expressar sentimentos profundos. Em seus versos, ela convida o leitor a mostrar sua alma, a revelar sua dor e promete tratá-la com delicadeza e cuidado. Essa abordagem direta e empática é uma característica marcante da poesia singela.
Críticos como André Vinícius Pessôa, discutem a necessidade do fortalecimento ainda maior da poesia (singela/simples) contemporânea brasileira, cuja crítica "deve questionar suas crenças mais elementares e considerar novas perspectivas para literaturas (...)" e consequentemente, um maior alcance de leitores.
Nesse propósito entra a poesia de Aldira Martins que nos dá um exemplo de como a lírica pode ser um meio poderoso de expressão e conexão emocional. Mesmo que esses poetas não sejam amplamente reconhecidos pela grande mídia, eles continuam a contribuir para de uma forma direta para a literatura brasileira com performance singela e bela, humilde e despretenciosa, como disse. Contudo, forte, corajosa e despojada. Parabéns Aldira Martins.
EM TEMPO:
Água de Fulô
( Aldira Martins)
Mostre-me sua alma
Deixe-me espiar com calma
Localizar sua dor
E, tratá-la com malva
Água de fulô que acalma
Os machucados de amor
No verso: "E, tratá-la com malva" há uma significância muito grande na colocação desse vírgula. É ela quem dá a sensação do trancorrer do exato tempo necessário para que a poesia saia do estado latente de observação em busca da causa - para a aplicação do remédio: "malva e água de fulô". É simplesmente sensacional. Porque se essa vírgula ali não estivesse, a passagem do diagnóstico para a aplicação do remédio seria despercebida. Parabéns Aldira Martins. São esses detalhes que me chamam a atenção, além da simplicidade.
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