*Mhario Lincoln
(Um lembrete: este texto não foi escrito por uma Inteligência Artificial).
"Se essas pessoas absurdamente condenatórias conhecessem que para se produzir uma obra de IA, necessário se faz, invariavelmente, a concepção humana de um "prompt" adequado, não aconteceriam fatos assim. Perdoem-me os puristas e egoístas culturais, mas tal condenação abrupta beira uma histórica mediocridade. O tempo será meu testemunho". (Poeta João Batista do Lago).
O poeta JB do Lago tem razão quando se dispõe a questionar a artificialidade de uma obra artística, advinda de um "prompt" criado pelo autor. No meu bestunto, a IA não 'cria artisticamente', assim, abruptamente, do nada. Há necessidade de que se provoque a máquina para ela responder adequadamente e, assim mesmo, ainda responde errado muitas vezes, necessitando que o humano corrija esses defeitos.
Às vezes as pessoas falam "por ouvir falar", não pesquisam, nem leem e compartilham sem, pelo menos, autenticar o que estão distribuindo; esse é um pecado mortal das redes sociais mundiais.
A IMPORTÂNCIA DO ‘PROMPT’
Pois bem! Diante dessa polêmica do Prêmio Jabuti, fui fundo e colhi a seguinte informação:
Rod Lopes, (rodlopes.com.br), especialista em Inteligência Artificial, discute a importância do ‘prompt’ em seu artigo “A Importância do Prompt na Inteligência Artificial”. Explica que o "prompt é a forma como você interage com um sistema de IA, como um assistente virtual ou um ‘chatbot’. (...) No entanto, para que a IA possa fornecer esses benefícios, é fundamental que ela seja alimentada com perguntas e comandos claros e precisos. Essas perguntas e comandos são chamados de prompt (...)".
USAMOS IA HÁ MUITO TEMPO
Então, a partir daí urge análise histórica e racional dos fatos: por que não lembramos que o Google tem IA (chegou no Brasil em 2005, sete anos após o lançamento oficial do serviço de buscas online nos EUA), o próprio Word, onde estou escrevendo esse texto, também tem IA, porque detecta imediatamente quando há uma palavra errada e, de imediato, sugere a correção e sugere outros contextos e interpretações. Além disso, quem não se lembra dos dicionários de sinônimos, antônimos, dos livros-guia, algumas enciclopédias, antologias de ideias para a produção de textos, guias de poesias pré-elaboradas, inclusive, lembro perfeitamente do livro "Aprenda a fazer versos rimados. (Inclui dicionário de Rimas)", anunciado pelo Instituto Universal Brasileiro. Esses aparatos todos eram, no fundo (e ainda são) uma Inteligência Artificial física, pré-fabricada porque já trazia modelos prontos.
Agora eu pergunto: por que tanta celeuma diante de uma ferramenta que, se bem usada, irá triplicar a produção humana de forma consciente? Por isso chamei para a mesma mesa Tim Cook, CEO da Apple, (antes da Compaq e a IBM): “(...) o que todos devemos fazer é nos certificar que estamos usando a inteligência artificial de uma maneira que beneficie a humanidade".
A LEGISLAÇÃO PERTINENTE
Como se vê, não há como agir como se a IA fosse uma concorrente poderosa e insuperável e que o talento humano "vai desaparecer aos pouquinhos...", como li em um grupo de discussão entre 'sabidos", no fanático submundo da internet. Outra coisa, até onde pude pesquisar, ainda não há uma legislação definitiva pertinente ao assunto. Mas vale aqui divulgar o teor do Projeto de Lei (PL) nº 21/2020, aprovado pela Câmara dos Deputados que tenta criar um marco legal do desenvolvimento e uso da IA pelo poder público, empresas, entidades diversas e pessoas físicas.
Agora leia a fundamentação: "O texto estabelece princípios, direitos, deveres e instrumentos de governança para a IA. (...) O uso da IA terá como fundamento o respeito aos direitos humanos e aos valores democráticos, à igualdade, à não discriminação, à pluralidade, à livre iniciativa e à privacidade de dados(...)". Estou tentando entender isso!
Mas, esse PL vem sendo passado de comissão em comissão, Câmara/Senado, ajustado, e ainda em estudo (salvo engano). Desta forma, que parem o mundo para os incrédulos descerem. Não há retorno: a IA já está em nossas casas, nossos trabalhos, nossos carros, em aviões e até mesmo no controle remoto que a gente usa. E, claro, na ALEXA, a grande surpresa, há cindo anos. Ela trouxe muitas inovações formatadas em caixinha de som.
A DESCLASSIFICAÇÃO
Desta forma, quaisquer que sejam as especulações a favor ou contra o episódio da desclassificação da obra "Frankenstein" na disputa pela melhor ilustração do Prêmio Jabuti, devido ao uso de ferramentas de inteligência artificial (IA) pelo designer Vicente Pessôa para criar as ilustrações, é passível de dúvidas.
Será que a alegação básica diz respeito ao uso da ferramenta que pode destruir a criatividade do artística, do poeta, do músico ou do criador em geral?
Oportunidade ímpar para convidar para minha mesa, Ahmed Elgammal, professor doutor do Departamento de Ciência da Computação da Rutgers University, um especialista em IA que discute a importância da ferramenta na criação artística humana. Ele explica que "...os artistas têm usado a IA para criar arte há mais de 50 anos (...)". Ipsis litteris: "(...) a nova onda de arte feita com IA é caracterizada pelo fato de que os algoritmos são configurados pelos artistas para ‘aprender’ estética ao olhar para muitas imagens usando a tecnologia de aprendizado de máquina. O algoritmo então gera novas imagens que seguem a estética aprendida. A ferramenta mais usada para isso é a GANs, acrônimo para Generative Adversarial Networks (ou Redes Adversárias Generativas), introduzida por Ian Goodfellow em 2014 (...)". Só não entende, quem tem medo de entender. Que obviedade!
Outro especialista, Rod Lopes, que também acrescento à mesa de discussões, em seu artigo “Inteligência Artificial: Como a IA Está Mudando a Arte”, discute que a IA tem tido um impacto significativo na criação de arte, “tanto em termos de aceleração do processo criativo, quanto na mudança das noções tradicionais de autoria e autenticidade na arte.” (aelaschool.com).
A IA HUMANA
A maioria dos artistas visuais consagradíssimos também usavam um processo parecido. E não é de hoje. O trabalho de um artista desse gênero, envolve várias etapas, desde a concepção da ideia inicial até a finalização da obra de arte.
Tudo isso tem como base uma orientação e feedback de mentores, professores ou artistas mais experientes que orientam os mais novos e iniciantes (olha aí a concepção antiga de 'pompt'), no sentido de aperfeiçoar a obra ou o estilo construtivo.
Óbvio! Será que esses artistas que participam de grupos de estudo, associações ou workshops estão fazendo o que? Claro e evidente que estão usando "ferramentas" de orientação para ampliar os conceitos e oportunidades de construir uma obra que, ao final, será do autor e não dos ‘worshops’ da vida.
É assim que funciona a IA quando bem manuseada, com "prompts" certos. Aliás quem quiser copiar ou reproduzir obra de terceiros, a ferramenta sempre alerta: "OPS, este conteúdo é bloqueado. Entre em contato....".
Como se vê, ninguém "copia" trabalhos dos outros. No máximo que IA pode fazer é citar trabalhos parecidos e sugerir algum caminho para levar a uma conclusão lógica (ou não), dentro do assunto que foi relacionado, dependendo do "prompt" que for usado.
O OUTRO LADO DA MOEDA
No entanto, é importante considerar que o ser humano não deve usar a IA para tentar ultrapassar a barreira da criatividade e da essência individual do artista (especialmente do outro), fato que a própria IA tem como usar mecanismos de defesa nesses casos. À propósito, Ginni Rometty, ex-CEO da IBM, disse: “Algumas pessoas chamam isso de inteligência artificial, quando a realidade é que essa tecnologia irá nos melhorar. Então, em vez de inteligência artificial, acredito que aumentaremos nossa inteligência humana”.
Assim, a IA deve ser vista como uma parceira que colabora com o artista, ampliando suas possibilidades, mas não como uma dominadora ou modificadora da expressão artística autêntica. Mesmo assim, há muitos que apedrejam a IA, talvez uma cepa moderna da 'Geni', do Chico Buarque. Leia abaixo o que diz Seth Lloyd, professor de engenharia mecânica e física do MIT:
“(...) poder de processamento de informação bruto não significa poder de processamento de informação sofisticado”. Já o filósofo Daniel C. Dennett explica que “essas máquinas ainda não têm os objetivos, estratégias ou capacidades de autocrítica e inovação que lhes permitam transcender seus bancos de dados através de um pensamento reflexivo sobre seu próprio raciocínio e seus próprios objetivos”.
Outra crítica comum é que, como as obras de arte geradas por IA são criadas com base em algoritmos e modelos de treinamento, muitas pessoas questionam se essas obras podem realmente ser consideradas “criações” de um artista. Exatamente aí é que deveria ser a chave das discussões, pois levanta uma questão juridicamente séria: os direitos autorais e a originalidade da arte criada pela IA.
(Esse será o segundo tema do meu outro ensaio sobre criações artísticas ‘artificiais’).
A DESCLASSIFICAÇÃO
Voltando, agora à questão do 'Jabuti', o artista Vicente Pessôa - e todos que conhecem a sua obra de perto sabem que ele explora diferentes técnicas e materiais para desenvolver seu estilo pessoal – e sempre tentou encontrar a melhor forma de expressar suas intenções artísticas.
Por isso, a IA, nesse caso, também foi uma ferramenta útil para ampliar a capacidade criativa, gerando soluções e ideias para o trabalho ilustrativo.
Partindo desse pressuposto, tal fato deveria ser considerado ato ilícito que se desdobre em 'desclassificação' pura e simplesmente? Sabe-se, agora, que a IA também pode ser uma fonte de inspiração, fornecendo sugestões e referências que podem enriquecer o trabalho artístico, tal qual inúmeros guias impressos ou digitais, como já falei, espalhados pelo mundo.
Destarte...
AS POSSÍVEIS RAZÕES
Tomo a liberdade de interpretar algumas regras do 'Prêmio Jabuti', a fim de que o leitor possa opinar sobre "certo" ou "errado" o desfecho desse episódio:
1 - Acredito que a organização do 'Prêmio Jabuti' pode ter interpretado suas regras de forma a exigir que as obras escritas sejam predominantemente criações humanas, com contribuições artísticas significativas dos artistas. Se o desempenho da IA tiver um papel muito grande na criação das ilustrações, isso poderia ter levado à desclassificação com base nessa interpretação.
2 - Um segundo aspecto pode ter sido algo em torno das melhorias artísticas, isto é, alguns jurados podem ter argumentado que o uso excessivo da IA na criação artística pode ter prejudicado o resultado final ou melhorado as deficiências da obra, além da contribuição individual do artista. Se a organização do prêmio valoriza apenas a expressão artística e o papel central do artista na criação, pode ter decidido desclassificar a obra por considerar que a IA teve um impacto desproporcional na criação das ilustrações.
3 - Indo um pouco mais fundo, como sempre faço, levanto aqui a questão da criatividade genuína. Ora, a utilização de IA na criação artística é um tema em evolução e pode gerar debates sobre o que constitui criatividade genuína. Ou seja, um questionamento ainda sub judice, porém, que alguns podem acreditar que o uso da IA para gerar ilustrações não é o mesmo que uma criação artística humana tradicional e, portanto, não deve ser elegível para prêmios de arte; e
4 - E, por fim, ainda incluo em minhas anotações, o caso da reflexão sobre o papel do artista. Acerca disso, se pode concluir que a desclassificação - igualmente - pode ter sido uma maneira de chamar a atenção para a importância do papel do artista na criação artística e para iniciar uma discussão mais ampla sobre como a tecnologia, como a IA, está afetando a indústria criativa e a identidade dos artistas. Nessa última hipótese me veio uma ideia. Por que os futuros ‘Prêmio Jabuti’ não incluem esse novo item em suas análises: A Arte Eletrônica Virtual? Vale como contraponto.
EPÍLOGO
Só espero que a IA não sirva de 'bullyng' contra quem a usa e nem possa gerar outro fato desagradável que abalou o mundo em 1954, quando Alan Turring, grande matemático britânico, pioneiro da computação, autor de “On Computable Numbers” (1936), onde ele concluiu que seria possível criar uma máquina automatizada que materializasse fisicamente a lógica humana e solucionasse qualquer cálculo representado no formato de um algoritmo. Dessa tese inicial de Turring surgiram as raízes do primeiro computador, um sistema que, sozinho, realizaria tarefas determinadas pelo programa com o qual ele estaria equipado.
Acontece que ele foi demasiadamente perseguido por "puristas" (por essa realização e outros motivos pessoais), resultando em morte. Encontraram o corpo no apartamento que morava, com 'visíveis' evidências de 'suicídio' por cianeto. Exatamente em 7 de junho de 1954...
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Convidados APB 29 DE AGOSTO DO IPIRANGA AO TRATADO DE PAZ E AMIZADE Mín. 12° Máx. 19°
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