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Leonardo Magalhaens entrevista o grande ANTÔNIO SOUZA CAPURNAN, escritor, compositor, cantador e educador mineiro

A performance de Leonardo Magalhaens tem sido, a cada dia, uma nova surpresa. Antes, colaborava apenas com resenhas literárias, a convite da redação do Facetubes. Mas passou a fazer entrevistas com grandes nomes da arte universal das Minas Gerais. E o resultado é este: excelente encontro com Antonio Souza Capurnan.

27/11/2023 14h59 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Leonardo Magalhaens
Arte: MHL
Arte: MHL

ANTÔNIO SOUZA CAPURNAN é escritor, compositor,
cantador e educador. Nasceu em Machacalis, Minas
Gerais. Suas obras anteriores são Palavra que conspira,
Gestar: Cantoria de Pranto e Festa, Flores no Pote, Cartas
da Utopia, Valsa Mínima e Solfejos do Querer Bem.

 

Leonardo Magalhaens - Saudações, prezado poeta Antônio Souza! Sua atuação literária é conhecida em Contagem MG além do trabalho de professor, e agora com a produção musical, mas pesquisando aqui descobri Machacalis. Falemos então de origens: de onde, de que Pasárgada, de que Macondo, veio a pessoa Antônio Rodrigues de Souza, o Toninho, e o poeta Capurnan?
R: ANTONIO SOUSA CAPUNAN - Eu nasci no mato. Parteira. Sob e sobre uma chuva, tempestade forte. Depois que o galo cantou foi que eu nasci. E depois de uma briga intensa entre pai e mãe. Foi numa fazenda chamada Vereda. Terras que divisam Minas e Bahia. Dali mãe migrou com os filhos para Machacalis. Em Machacalis tive o primeiro rio de minha vida: o Norte. O Norte é o maior rio do mundo. Crescemos irmãos desalinhados, uns distantes dos outros. Na intensa luta pela sobrevivência. Eu sou  um retirante. Filho de lavadeira e lavrador. Também , retirantes. Batizado fui por um tropeiro, Eujácio, e por minha irmã mais velha: Maria. Registrado aos 8 anos. Não puseram na minha certidão o Rosa e o Nascimento que são de mãe. Puseram o Rodrigues e o Souza que são de pai. E fotografado pela, primeira vez, aos 13 anos de idade. Careço de alguma lógica, de algum endereço, de alguma normalidade e acho que, por isso, busco residência na palavra. Tenho quase 63 anos. E vivo, ainda, de déu-em-déu. Tem hora que adentro a terra, tem hora que a terra me adentra. Como percebem, desde que nasci. Eu sou um homem Vereda. 

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2. Leonardo Magalhaens. Suas obras poéticas são poucas em quantidade, mas densas em qualidade. Já comentamos o "Flores no Pote" e o "Valsa Mínima", além de antologias. Como a sua obra veio à luz? Como foram as dores do parto?  Como o poeta lê a própria obra?
R: ANTONIO SOUSA CAPUNAN. Obra é uma definição que, de certa forma de assusta. Eu sou um escritor em processo, um escritor mediano, eu diria, que busca estar antenado com a memória, com as coisas da estética e com o seu tempo. Que tem uma certa compreensão, ainda que limitada, das exigências estéticas, culturais e políticas de seu tempo; que escreve porque precisa respirar e sabe que pode contribuir para que outros, também, respirem. Eu acho que quando escrevo ofereço a quem me lê um pouco de humanidade e, ao fazê-lo, me humanizo, também. Sobre as dores do parto: no livro Nalgibeira tem uma verso mais ou menos assim: Nascer é inaugurar a solidão. Fiquei um tempo brigando com isso, até que ganhei coragem e decidi: "Nascer é inaugurar a solidão e as alegrias." A escrita e o parto têm essas duas dimensões em si.


3. Leonardo Magalhaens. Poeta, nas redes sociais encontramos suas pérolas poéticas do pensamento e do desabafo que compõem o 'Ponta d'estoque', sempre direto e incisivo. Como sobreviver com sanidade, em um mundo de interesses e conflitos, de imperialismo e genocídios, sem poesia e indignação?  
R: ANTONIO SOUSA CAPUNAN. O que é sanidade? Não sei exatamente o que é. Acho que não sei e desconfio daquilo que muitos consideram sanidade mental, pois, para muitos sanidade mental é uma coisa próxima à indiferenças. Todos os poetas, os artistas em geral, em algum nível, carecem de sanidade porque, já se disse, são seres complexos. Para sobreviver num mundo onde atualmente há cerca de trinta conflitos armados - e "tanta gente canta e tanta gente cala" - eu, Antônio Souza Capurnan - tenho de perguntar a mim mesmo o tempo todo qual é a minha crença, qual é a minha primeira canção, qual é a minha estética. Eu tenho de ter amigos, cachorros e esperanças. Eu tenho de seguir um princípio básico que de alguma forma e sem uso de palavras Mãe me ensinou: "Filho, arregace as mangas, olho no olho e não nivele a vida por baixo." Acho que é assim que eu sobrevivo.

4. Leonardo Magalhaens. Vivemos uma época de pandemia e de desgoverno, momento político e sanitário complicado. Vários eventos literários foram para o meio digital e se acabaram os saraus. Lembro da época das academias de letras em Betim e Contagem e do Terça Poética e do Bêlo Poético e da OPA! nos idos de 2003 a 2014... Agora parece que estamos saindo das catacumbas e voltando ao meio social. O poeta Capurnan tem esperança  quanto a este revivamento do meio literário? Temos uma nova geração? Quais poetas merecem atenção... que autoras e autores poderia indicar?
R: ANTONIO SOUSA CAPUNAN. É. Atravessamos um período histórico em que a respiração foi muito ofendida. Parece que íamos morrer asfixiados. Tudo foi, de certa forma, sufocado: a cultura, a família, as amizades, o social. O ódio entrou em cena e quase que nos atou no poste. Estamos agora recomeçando. Esse retorno é sempre doloroso, mas necessário. Parece que não voltamos inteiros, alguma coisa se perdeu, nossa cabeça ainda não recuperou a sanidade. Sobre os saraus e o fazer literário, em sentido geral,  cumprem papel importante, nos dá um pouco mais de saúde. E, também, de esperança. Quem sabe consigamos recuperar tudo? É preciso prosseguir. Os tempos são outros agora. E respirar bem é um direito fundamental.

 

5  Leonardo Magalhaens. Antônio Souza Capurnan é compositor e agora cuida do lançamento do CD "Solfejos do Querer Bem" junto com o livro "Nalgibeira". Sabemos que estas composições atravessam pelo menos três anos de inspiração e transpiração: como é conviver com suas músicas? Como é expressar o som interior? O resultado se aproxima do sonhado / imaginado? Ficou do seu agrado?  
R: ANTONIO SOUSA CAPUNAN. Eu queria fazer um CD com poesia apenas. Daí um amigo me perguntou se lá em casa eu ouvia cds de poesia. Respondi que ouvia muito pouco. É certo: a poesia foi expulsa de todos os lugares. Esse questionamento, em 2018, me fez refletir sobre um CD que articulasse poesia e músicas. Isso já está, de certa forma, presente na tradição brasileira: os saraus são exemplo disso. Vinícius de Morais fazia isso, e Maria Bethânia faz com uma qualidade ímpar. Convidei amigos poetas, declamadores e cantores para o desafio. Muita gente contribuiu muito. A idéia inicial era de apenas um CD, depois a coisa foi crescendo e, com uma pandemia no meio, concluímos tudo em agosto de 2023. Um CD se chama Indezrima e o outro Pavios Negreiros. O primeiro parece me proporcionar as idéias, os sons, as imagens mais retrospectivas, mais internas, como estar na janela da cozinha revisitando o quintal. O segundo são os sons, as imagens, as ideias mais coletivas, as demandas contemporâneas das identidades. É um estar na janela a escutar a rua, os seus movimentos, os seus agudos, a coisa da guerra e de sua feiúra, também. E há os cantores da terra, essenciais no contexto da obra: são os pássaros. O CD acaba tendo uma dimensão ecológica profunda. E a recepção tem sido muito boa, para além do que eu esperava. 


6. Leonardo Magalhaens. Chegamos ao fim da nossa entrevista, infelizmente. Novamente agradecemos ao poeta Antônio Souza Capurnan pela atenção e sinceridade. E ao editor Mhario Lincoln pelo convite e espaço de livre expressão. Para concluir, poeta, qual mensagem você deixaria aos que se iniciam nessa áspera trilha da Poesia? Qual é  o incentivo para os novos leitores e novas leitoras ... e novas autoras e novos autores? Valeu, poeta Capurnan ! Até a próxima! Valeu, Facetubes!
R: ANTONIO SOUSA CAPUNAN. Os agradecimentos são meus, Leonardo. Muito obrigado pela oportunidade. Devo dizer que acompanho com certa atenção as novas produções, os novos autores. A gente sempre aprende muito com todo mundo. E eu tenho muita curiosidade, embora não disponha de tempo para ler e acompanhar tudo. Tenho lido muita coisa boa, sobretudo produzida por mulheres poetas e há uma meninada nova, também, muito boa. O problema é a invisibilidade a que todos nós estamos submetidos. Talvez o termo mais adequado não seja o de autores novos. Muita gente chamada de nova, está há muito tempo na caminhada, mas é, pura e simplesmente, invisibilizada pelo sistema, pelo mercado. A poesia, os poetas ficam num sem-lugar: você escuta no rádio não sei quantas canções por dia e nenhum poema.

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Inseto
Antônio Souza Capurnan 
.
Poeta mora na lata 
Poeta larva na terra 
Poeta luma no lixo 
Poeta é flor de lótus 
Poeta canário sem asas
Poeta tem dupla face
Poeta bom vira peixe
Se enrosca 
Na trama na rede no feixe
Poeta é pá-que-lavra
Voa bem fundo o poeta
Canoa no raso destoa
Do centro e da margem 
Poeta finge que é porta 
Trava e destrava
Forma disforma conforma?
Mora na boca da lavra o poeta
Bem dentro onde a larva é a meta
E a mata 
Poeta que é bom come lixo
No bico da lata 
Poeta é bicho palavra 
Poeta bom tem ray-ban
Escuta mais que inseto
No cimo da flor 

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Antônio Souza Capurnan 

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Pavios negreiros 
Solfejos do Querer Bem 

 

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Sirla AlvesHá 3 anos atrásLagoa SantaEncontro perfeito entre alguém que sabe elaborar perguntas adequadas e um escritor que sabe oferecer respostas profundas e poéticas.
Vinícius Há 3 anos atrásContagem-MG Que entrevista de perguntas bem elaboradas e arejadas e de respostas de um Toninho que me parece cada dia conhecer mais a si mesmo e os arredores. Ganhamos nós leitores. Parabéns!
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