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Brasil Músicas de Sucesso

"Flor de Açucena", música sucesso no país, interpretada por Erasmo Dibell, teve uma história por trás da letra

O conto "Flor de Açucena" foi originário dessa música que juntou Mhario Lincoln, Wellington Reis e Chiquinho França e tem tocado muito nas rádios cariocas, baianas e curitibanas.

19/12/2023 08h38 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Orquídea Santos/ASCOM
Capa do EP nas lojas virtuais de música.
Capa do EP nas lojas virtuais de música.

Flor de Açucena, o Conto.
*Mhario Lincoln

Nas entranhas sombrias do sertão maranhense, sob o manto de uma poeira que cintilava como ouro em fuga, emergiu uma alma sonhadora, um enigma chamado Flor de Açucena. Uma mulher cheia de mistérios pela beleza, mas com traços de melancolia, pela vida que levava. 
Enquanto as crianças se embalavam ao ritmo dos tambores antigos, Flor de Açucena transcendeu.

Seu coração, como uma sombra errante, dançava ao ritmo hipnótico do Tambor de Crioula. Na sua mente, um labirinto perdido nas seduções das coureiras.

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A chegada da festa de São João trazia consigo o famoso "Tambor de Crioula de seu Jorge". Sua fama surgia em aparições aplaudidas nas telas de TV, atraía olhares de milhares de fãs. 


Flor de Açucena sempre ansiava, um dia, se fundir àquelas divinas coureiras, cobiçando o lugar de honra naquele palco abençoado.
Mas eis que o destino, sinistro e implacável, lhe traçou um caminho de sombras e ameaças. Renunciando a uma vida de trabalho em uma lanchonete famosa na região em que morava, Açucena se entregou à dança. 


Contudo, seu padrasto, embriagado pela ignorância, impôs sobre ela um peso opressivo de sombrias premonições. Forçou-a a ser babá do filho mais novo, nascido no mesmo momento em que a mãe de Flor morria de parto. 


Sussurros ameaçadores na escuridão, insultos lançados como lâminas cortantes no ar. O padrasto insólito chegou a ameaçá-la de expulsão de sua morada, caso não seguisse à risca as atividades de babá da criança.


Com as economias minguadas de um salário final, guardado durante o período em que trabalhou na lanchonete, ela estava destinada a sobreviver até a audição para o grupo folclórico de seu Jorge. 


Dolores, a vizinha de Açucena, que acompanhava de perto o sofrimento e os desejos da menina, estendeu-lhe a mão. No fundo, uma mãe de coração que dava conselhos e afirmava que ninguém deve desistir de seus sonhos. 

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Assim, Dolores se ofereceu para costurar a saia da audição para Flor. O trabalho estampado com flores, ficou lindo! Entretanto, a beleza por si só não bastava. Dolores convocou Graciele, a sobrinha amada, conhecedora dos meandros folclóricos, para polir e solidificar os dons da dança de Flor de Açucena. 


Sob o crepúsculo da resignação, cada dia era um desafio contra o tempo. Nas manhãs quando o padastro ia trabalhar e o irmão estava na escolinha, Flor se dedicava a treinos exaustivos, na casa da vizinha. 


Seu padrasto, ao retornar de suas viagens embriagantes, atacava Flor de Açucena com palavras cruéis, culpando-a por infortúnios imaginários, vendo-a como nada mais que uma babá, que deveria estar à serviço da casa. Até seu irmão mais novo não escapou das garras daquele tirano.
Mas Açucena, alimentada por uma coragem nascida das profundezas do coração, perseverava e a cada dia precisava ser uma fênix, rasgando o véu da escuridão.


O dia do teste se aproximava. Vinte e uma concorrentes estavam inscritas. Uma vaga apenas. Flor de Açucena com olhos da cor de mel, cobertos por cílios negros e grandes, confirmou no pequeno relógio de pulso o horário e foi para o quarto se preparar para a audição. Trancou bem a porta. Tudo poderia acontecer. Segura em seus aposentos, começou vagarosamente, a passar óleo de amêndoas em todo o corpo. Esfregou bastante em suas pernas longas, para dar firmeza na hora das pungadas; passou também nos pés, com dedos perfeitamente alinhados e unhas pintadas de carmim. 


Olhou-se no espelho. E só depois iniciou a vestimenta do manto sagrado: uniforme de chitão florido, bem rodada, para acentuar o movimento, anágua por baixo da saia que Dolores havia feito para ela com tanto carinho e amor. 
Ajustou-a no rendengue, rodopiou para ver se a vestimenta tinha movimento. Seus seios à mostra, acompanharam o rodopio, mas permaneceram direcionados, firmes como estacas de cerejeiras.  


Depois, completou o uniforme vestindo a blusa branca de renda, com babado na gola. Colocou o torso também na cabeça, alguns colares - de pedras grandes e brilhantes -deixados por sua mãe (para abençoá-la), e calçou uma sandalinha rasteira. Mas, não ia precisar dela durante a audição. As apresentações geralmente são descalças para quem acredita na força cósmica entre a terra e a atividade energética do corpo.
Porém, nem bem tinha acabado de borrifar Patchouli nos cabelos de 'asas de graúna' quando, de repente, o telefone toca. Ela abre a porta do quarto e corre pra sala. Seu aroma de amêndoas perfumava o ar que ficava para trás.

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Era do hospital, anunciando que seu padrasto havia sofrido um enfarto e estava correndo perigo de vida. Ela voltou a consultar o relógio. Faltava pouco mais de 1 hora para começar seu teste.


Um dilema colossal a envolveu, como veneno em um cálice do destino. A audição se aproximava ao mesmo tempo em que se abria um grande labirinto de indecisão, onde a luz e a esperança poderiam se perder.


Mesmo assim, ela não pensou duas vezes e correu para o hospital. Seus passos ressoando como prenúncios de algo não muito bom que poderia acontecer. Ao chegar no hospital, o padrasto havia falecido. 


Uma enfermeira, conhecida da família, chamou-a em um canto e lhe entregou um bilhete; um epitáfio escrito em letras envenenadas. Flor de Açucena, controlou-se, para não derramar lágrimas.


Novamente olhou para seu pequeno relógio de pulso. Os minutos corriam, não havia tempo a perder, já que o padrasto havia falecido e seus filhos do casamento anterior, adultos e com posses, estavam lá.


Olhou para trás. O corpo estava ainda no necrotério, coberto por um lençol branco, como que de forma paradoxal. Com passos trêmulos, ela se despediu perdoando-o em silêncio, e se lançou à audição. 


A sala do velho cinema da cidade era o palco da audição. Seu Jorge, líder do Tambor de Crioula, estava lá, sentado em uma cadeira, com os braços encostados em uma velha mesa de sinuca, local onde, nas horas vagas, a meninada do bairro usava para se divertir e apostar no jogo. 
Uma a uma, as candidatas foram sendo chamadas a se apresentar no teste.

A percussão formada por três tambores, com coros de animais, chamados de "parelha", recebiam as batidas melódicas das palmas das mãos dos tocadores, sem intervalos, ressoando e se misturando às batidas do coração de Açucena. O som era viciante, contagiante e inconfundível. 


********


O tempo passou. E lá estava Açucena na primeira fila da festa de formatura do irmão mais novo. Enquanto fotógrafos e muitas pessoas se aproximavam dela para pedir autógrafos, como num flash, lembrou de tudo que passou quando recebeu aquele pedaço de papel, com a letra trêmula do padrasto.


Foi nessa hora, vendo o irmão ser chamado para subir no palco do auditório da Universidade de Direito, que Flor de Açucena, agora um ícone entre as coureiras decidiu revelar o segredo, há muito guardado. O bilhete, aquele fragmento de papel que carregava o peso de um passado sombrio, dizia: "Sei que não conseguirá nada. Estou morrendo, mas levo a preocupação com meu filho, porque você não tem a mínima condição de criá-lo. Por favor, deixa que a irmã de sua mãe cuide dele. É essa minha ordem final."

******

Imediatamente após receber o Diploma de Advogado, o irmão correu para os braços de Açucena e lhe entregou o canudo, beijando-a e agradecendo, ao pé de ouvido, a quem se dedicou muito, para que aquele momento acontecesse. 


******

Essa é uma história que conta como nossa música, FLOR DE AÇUCENA foi concebida por mim, Wellington Reis e Chiquinho França, interpretada brilhantemente pelo artista maranhense ERASMO DIBEL. (Já está nas plataformas digitais de música).

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Linda BarrosHá 3 anos atrásSão Luís -MaranhãoQue belo conto! Música e Literatura harmonia perfeita.
JotAlencar Há 3 anos atrásSão Paulo Uma das canções Brasileiras mais energética e belíssima que ouvi, parabéns a todos que fazem parte da composição!!! { Flor de Açucena}...
Raimundo FonteneleHá 3 anos atrásBarra do Corda Maranhão Pô, arrasaram
Joizacawpy Há 3 anos atrásSão Luís Que transcendente, um conto que vira música, na soma entre sensibilidade, conhecimento, imaginação. Parabéns pelas produções e pela consistência da composição antes alicerçada por uma história fascinante.
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