*Mhario Lincoln
O Facetubes abre as apresentações de poetas deste ano com o grande Alex Brasil, incontestavelmente o grande poeta de uma brilhante geração maranhense que floresceu nos anos 80/90. E uma das obras que abre esta página é “Filho da Navalha”, algo muito parecido com o que o poeta assistiu, enquanto ainda morava no interior do Maranhão. São memórias de certa forma afetivas (ou não) que insistem em continuar vivas em sua memória, como bússola - sine qua non - orientadora de tantos sucessos alcançados por ele, em sua vida adulta.
Destaquei essa obra em razão de retratar a vida dos meninos sem rumo, 'largados à sorte', nascido em meio à violência e à miséria. Nesse caso, o uso do termo 'navalha', tem muita significância na essência do texto porque é um símbolo recorrente para expressar a dor, a fome, o poder, a cegueira e a punição que marcam a existência desses personagens que são muitos nas pequenas, médias e grandes cidades brasileiras.
A navalha também representa algo tipo 'dois momentos'. Ao mesmo tempo em que fere e mata, pode proteger e libertar. Alex Brasil tem alguns livros em que a crítica social é forte. E ele sabe colocar isso no papel de forma que a compreensão da lógica não se desfaça entre o ódio e a insinuação política. Simplesmente ele grita, mostra essa “carne da navalha”, a decadência e a injustiça de ações públicas em todas as estruturas, mas sem, em nenhum momento, catapultar larvas vulcânicas em quaisquer que sejam individualmente as origens dessa miséria.
Inteligências concebidas também por um Charles Baudelaire - "E um povoado mudo de aranhas infames/ Até os nossos cérebros estende as teias" (Spleen) e uma Emily Dickinson - "Esta, minha carta para o mundo,/ Que nunca escreveu para mim (Carta para o Mundo), que também abordaram temas de alienação, conflito e morte em suas obras. Por isso acredito que esse e dezenas de outros poemas de Alex Brasil é um convite à reflexão e à interpretação sobre a condição humana em um mundo cruel e desigual.
Abaixo, os poemas escolhidos para abrir o Ano da Poesia no Facetubes.
FILHO DA NAVALHA
ALEX BRASIL
O menino nasce no fio da navalha.
Na navalha dor, dorme o menino.
A navalha rua, rói o menino.
A navalha fome, fere o menino.
A navalha poder, pune o menino.
A navalha cega, nega o menino.
O menino cresce entre mortalhas,
e no fogo dessa fornalha,
o menino faz-se navalha,
lâmina sem piedade,
na minha, na tua carne:
na carne da sociedade.
PARA QUE SERVE O POETA?
ALEX BRASIL
Para que serve o poeta e sua poesia
se palavras e sonhos
não enchem barriga vazia?
Se a vida implacável se alimenta
com dentes e pão
numa luta matemática
que desconhece o coração?
Para que serve o poeta
se sua linguagem sensitiva
não cabe na fome concreta?
O poeta é carvão e brasa
que mantêm acesa a vida
onde tudo cabe,
e a vida, quase cinza,
tão frágil, nem sabe.
SELVAGENS
ALEX BRASIL
Filhos do tempo
e irmão das árvores,
nus ao vento
na América virginal
a vida não tinha fronteira
a terra não tinha quintal
e todos os caminhos
levavam à liberdade
Selvagens ou feras?
Homens ou animais?
Senhores das selvas
e nada mais!
Até que um dia
os ci"fi"lizados
de deuses disfarçados
com oferendas mentirosas
como anjos, se aproximaram.
Selvagens, selvagens, selvagens!
Com a fúria da pólvora
com o fogo da fé,
com a fome do ouro,
em nome da força,
da América se apossaram.
E os irmãos dos pássaros,
filhos do sol e da lua,
e senhores das florestas,
onde estão com suas flechas?
Mendigam pelos séculos
aos deuses civilizados
um pouco da terra que é sua,
e morrem um a um
sem caça e sem pão,
sem flecha e sem maracá,
como os mico-dourados em extinção.
NÃO-DITO
ALEX BRASIL
Como dizer tudo,
se a vida é quase nada?
Se, às vezes, fico mudo
diante de minha amada?
E o não-dito,
no silêncio branco,
pesa mais que um grito,
berrando que a amo?
GELO
ALEX BRASIL
Um poeta vive de palavras
ama com as palavras
seduz com as palavras.
Mas de que me adianta ser poeta
se quem eu amo
não se me revela
insensível no silêncio
que nos congela?
Com que metáfora
o surdo-mudo
conquista sua amada?
Oh, Deus,
anula-me as palavras
e põe em meus dedos
os teus segredos
onde o amor desfaz o gelo.
LOBO DE SI MESMO
ALEX BRASIL
O homem, que nessa terra indefesa,
é serpente da serpente;
é predador de todas as presas,
inclusive dos seus semelhantes...
O homem, que incendeia o verde,
que envenena os ares,
que propaga a fome e a sede,
e a morte no arpão sobre os mares...
Esse homem, que assim se considera,
senhor de toda vida sobre a Terra,
vomitando bombas e guerras,
acha-se humano e não pantera;
tão feroz em seu coração de fogo,
que nos seus próprios dentes,
será de si mesmo o lobo:
esse homem, de si mesmo, a serpente.
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
Literatura Gótica Aluísio Azevedo Gótico: Lourival Serejo restitui uma vertente da obra do escritor ao debate literário brasileiro
EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA
Convidados APB 29 DE AGOSTO DO IPIRANGA AO TRATADO DE PAZ E AMIZADE Mín. 12° Máx. 19°
Mín. 11° Máx. 18°
Tempo nubladoMín. 8° Máx. 22°
Tempo limpo
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Academias Brasil/Exterior Coirmãs JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”