O poema “Minha solidão tem asas” de Nauza Luza Martins é uma expressão lírica da solidão, explorando a dualidade de sua natureza - tanto uma fonte de dor quanto um catalisador para a introspecção e a criatividade. A solidão é personificada como um pássaro solitário, uma imagem que evoca sentimentos de liberdade, porém, em isolamento. Aliás, um dia, enviei para ela uma frase minha que dizia: " Toda liberdade plena é frágil". E ela reagiu como se não concordasse muito com ela. Mas hoje, ao ler seu poema único e interior, vejo que há concordância entre os dois trabalhos poéticos.
Isso porque, a poesia de Nauza Luza tem muita profundidade emocional. Ela usa a metáfora do voo para representar a jornada do 'eu lírico' através da solidão, uma viagem que é ao mesmo tempo dolorosa e esclarecedora. A solidão é retratada como uma dança de sombras e suspiros, uma imagem que captura a melancolia e a beleza da experiência solitária.
Vale aqui, apenas como ilustração, citar dois poetas que compartilham semelhanças com Nauza Luza em termos de estilo e temática, embora não sejam muito conhecidos no Brasil.
São a poeta argentina Alejandra Pizarnik ("ANÉIS DE CINZA - E quando é de noite, sempre,/ uma tribo de palavras mutiladas/ busca asilo em minha garganta,/ para que não cantem eles,/ os funestos, os donos do silêncio"). E o poeta português Herberto Helder ("MINHA CABEÇA ESTREMECE - Um movimento./ Cadeira congeminando-se na bacia,/ feita o sentar-se./ Ou flores bebendo a jarra./ O silêncio estrutural das flores./ E a mesa por baixo./ A sonhar"). Ambos exploram temas de solidão, saudade e introspecção em sua poesia, e suas obras podem oferecer uma perspectiva interessante sobre o poema de Nauza Luza.
No que diz respeito aos aspectos filosóficos que eu sempre gosto de enfatizar, mesmo porque, depois de ler Baruch Espinoza não há mais como fugir disso, o poema de Nauza Luza reflete a ideia existencialista de que a solidão é uma condição inerente à existência humana. E o é!
No entanto, em vez de retratar a solidão como algo puramente negativo, o poema sugere que ela pode ser uma fonte de autoconhecimento e crescimento pessoal. Aí volto às ideias do filósofo francês Jean-Paul Sartre, que via na solidão uma oportunidade para a autenticidade e a liberdade individual.
Assim, “Minha solidão tem asas” o qual li e gostei muito, é um poema profundamente emocional e introspectivo, explorando (nossa) complexidade da experiência solitária. Ele ressoa aos meus olhos, como o espargir de sua pura honestidade emocional.
Parabéns!
(Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira).
Abaixo, o poema:
Minha solidão tem asas
Nauza Luza Martins
Minha solidão tem raízes e asas,
Vagando em rotas sinuosas da saudade,
Como um pássaro fugidio e solitário,
Voando na vastidão da diversidade.
Minhas asas batem com suavidade
Na brisa noturna da melancolia,
Onde as estrelas sussurram segredos,
E a lua ilumina minha triste poesia.
No silêncio das horas perdidas,
Minha solidão dança ao abrigo do vento,
Uma dança de sombras e suspiros,
Num cenário de eterno lamento.
Ah, solidão alada, companheira,
Me envolvendo em teus afagos e abraços,
Enquanto teço versos de desalento,
Num tear de sentimentos em pedaços.
Até que minha solidão encontre abrigo
Continuo a voar na rota da imaginação
Explorando os confins do meu ser,
Em busca de paz, quietude e redenção.
Nauza Luza Martins
Brasília, 24/01/2024
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