Nessa foto, tantos amigos que referencio até hoje. Maria José com Adelman Pereira ('in memoriam') eu, de mãos dadas, com uma grande amiga: Tereza Teixeira (irmã de Gracinda Teixeira). Nesse mesmo bloco, como mostra a foto mais abaixo, meu amigo Julio César de Jesus Guterres Costa (agachado, 1o à esquerda) e o artista visual premiado Fernando Almeida (último, em pé, à direita). Todos nós, juntos, formávamos um bloco carnavalesco muito requisitado por animação e originalidade. Nos Corsos, o Bloco do Casino era o mais organizado. O Carnaval dos anos 70 foi marcante para esse grupo. Confesso minhas demasiadas saudades....
Mhario Lincoln é jornalista, poeta e presidente da Academia Poética Brasileira.
NO COMEÇO, A SEGREGAÇÃO
O Carnaval de São Luís, entre os anos de 1974 e 1979, quando participei ativamente, como repórter de rua ou como folião, refletiu, na minha opinião, uma rica tradição cultural que se entrelaça com a história social e as mudanças ocorridas na sociedade maranhense ao longo dos anos.
Desde o início do século XX, no entanto, nem tudo era confete e serpentina. Muitas vezes o reinado de Momo foi marcado por ações segregadoras, com a participação limitada às elites, que buscavam distanciar-se das manifestações populares como o entrudo, (especificamente uma guerra de ovos e balões - bexigas - cheias de água de cheiro - ou outras coisas piores). Mas, com o surgimento de uma classe operária diversificada, as festividades carnavalescas começaram a ganhar os espaços públicos, marcando uma transição para a inclusão e a celebração coletiva. Aí, mesmo que historiadores não sejam específicos sobre o assunto, acredito que o surgimento de uma plêiade de artistas criativos no bairro da Madre Deus, na capital, tenha contribuído, também, para essa mudança de chave, a partir do início de 70.
Hoje, nestes 2023 e 2024, a gente vive a evolução para um evento que tende abraçar a igualdade de classes, se bem que com certos exageros pessoais e intransferíveis. Olhando para trás eu concluo que todos nós passamos por muitas fases, nem sempre boas. O novo Carnaval resulta em algumas mudanças fundamentais: até a década de 1950, as brincadeiras, até então, tinham característica distintamente elitista, com bailes da alta sociedade ocorrendo em clubes fechados. Aí, de repente, nesses anos 70, houve uma reviravolta sensacional, transformando o Carnaval ludovicense em uma festa essencialmente de rua, com uma grande diversidade de brincadeiras populares, incluindo os corsos (eu participei de vários), que eram espécie de carros alegóricos desfilando pelas ruas da cidade.
Além disso, acelerou-se o processo de criação dos blocos tradicionais, dos Blocos de Clubes – eu fiz parte do Bloco do Casino (veja fotos) - que se manteve ao longo dos anos. Dos tradicionais, lembro muito bem do "Príncipe de Roma", ou de "Os Vira-latas", que eu saí, em um dos anos de minha juventude. Também saí na "tribo dos Pawnees", cuja sede era na rua do Passeio, um sobradão, esquina com Rua do Mocambo (veja foto).
Ainda hoje, aos setenta anos, neste 2024, me marcam certas passagens dessa época. O Casino foi uma delas de onde assisti, por exemplo, como a sociedade maranhense negociou suas transformações sociais, políticas e culturais, fazendo do Carnaval um espelho das mudanças e permanências que caracterizavam (e ainda caracterizam) a história da cidade.
MUDANÇA NAS ESCOLAS DE SAMBA
Um fato que me chocou e me deixou apreensivo naquela ocasião. Procurava respostas e não encontrava: por que as mudanças tão drásticas em nossas escolas de samba em meados dos anos 70, indo ao encontro das teias regionais das escolas cariocas? Essas mudanças chegaram com muita força. E o pior, traziam o apoio da mídia e de alguns políticos, que faziam questão de divulgar que estavam ‘bancando' essa mudança. Fui então, como jornalista, procurar a direção da "Turma do Quinto", que nessa tumultuada transição, ainda tentava manter as tradições. E a resposta foi preocupante: "...nós não vamos aguentar a pressão".
RESSUSGIU O CARNAVAL DO POVO
Vira e mexe, sai Carnaval e entra Carnaval, eis que, como uma explosão de alegria, me vi novamente em meio à parte da tradição que nasci com ela: assisti ao ressurgimento glorioso do Carnaval de rua na minha Ilha, revalorizando as tradições locais, com as tribos de índios, os blocos tradicionais e os fofões maravilhosos. Aliás, palmas para o Uimar Junior, um dos organizadores do Blocão do Fofão que já está se tornando uma referência nas ruas da capital maranhense. E tudo isso, graças aos integrantes de grupos culturais como Laborarte, Akomabu e Bicho Terra. "Foi um momento de muita garra e luta", disse-me o multiartista Itaércio Rocha, ex-Laborarte, em recente conversa que tive com ele, junto com o produtor e diretor de cinema, Jul Leardini, aqui em Curitiba-PR, (vide foto).
(*) Na foto, Grandes amigos e amigas do bloco do Clube Social Casino Maranhense, onde brincamos vários carnavais na década de 70.
TRÊS CARNAVAIS E MIL FOICES
Também assisti a uma briga de foice entre três tipos de Carnaval que se houvera inventado nas ruas de São Luís, logo após explodir a era da modernidade, lá pelos anos 90: o Carnaval de Passarela, o Carnaval Baiano (explodiram os Trios Elétricos e Abadás) e o Carnaval de Rua.
Dois deles, com muito dinheiro em jogo, brigavam por cada espaço. E no meio dessa confusão toda que embaralhava o cidadão comum que queria apenas curtir Momo, estavam pesos pesados da Política, da Grande Mídia e dos governos municipal e estadual. Todos davam seus palpites 'lucrativos', influenciando como a festa poderia ser organizada e divulgada.
E o final disso, nem mesmo eu preciso relembrar aqui.
LÁ ATRÁS, O FIM DAS MÁSCARAS
Entro, também, num fato crucial para o reinado de Momo em São Luís. Logo após tomar posse como prefeito de São Luís, derrotando o candidato da 'posição", Ivar Saldanha (PSP), Epitácio Cafeteira assina e publica decreto, em janeiro de 1966, proibindo a realização de bailes de máscaras.
Essa medida, abrupta e vista por muitos como uma ação populista, foi justificada pelo prefeito como uma "necessidade de proteger os valores morais e os bons costumes da comunidade e era essencial para o poder público poder intervir na preservação da moralidade e combater as licenciosidades..." que ele acreditava proliferavam nesses eventos, (Bailes de Máscaras), frequentemente acusados de "...serem cenários de corrupção sexual."
A decisão do prefeito Epitácio Cafeteira marcou um momento de muita tensão na história cultural de São Luís. Refletindo, inclusive, na já abalada relação dele com o governador José Sarney, em razão de Cafeteira ter vencido a eleição municipal em cima de Ivar Saldanha (PSP), em 1965.
Quem era favorável, ia para a imprensa e escrevia sobre as festas populares e bailes de máscaras afirmando que eram, "fundamentais para a expressão cultural local, representando uma oportunidade para a população se reunir, celebrar e expressar alegria através da música, dança e fantasias, especialmente os fofões e as máscaras de meia, escuras com um nariz pontudo, vermelho...", porque eles não apenas serviam como um espaço de lazer e diversão, mas também como uma manifestação original da cultura de São Luís, que mistura influências africanas, indígenas e europeias.
O certo é que essa proibição impôs restrições significativas ao cenário momesco da cidade, contribuindo para longos e agressivos debates públicos sobre o papel do governo na regulação dos espaços públicos e das atividades que diziam respeito a qualquer manifestação pública.
No entanto, surgiram boatos nos 4 cantos da Ilha, que Cafeteira havia sido influenciado por alguns "barões" que descobriram que suas mulheres e filhas, se disfarçavam de fofão, com máscaras de meia e, ainda, luvas pretas, para se embaralharem no meio dos foliões dessas casas 'suspeitas', a fim de se libertarem da opressão vivida em suas casas durante o ano, confidenciava uma matéria publicada na seção "Língua de Trapo", do buliçoso e tradicional Jornal Pequeno, da cidade.
O DESENROLAR DA PROIBIÇÃO
Além das questões culturais, a decisão também teve implicações sociais, refletindo as dinâmicas de poder e controle social em uma época de grande mudança e turbulência política no Brasil. O período dos anos 1960 foi marcado por intensas transformações sociais, políticas e culturais, com movimentos que desafiavam as normas estabelecidas e buscavam maior liberdade e direitos civis. A proibição dos bailes de máscaras em São Luís pode ser vista como parte dessa luta mais ampla entre conservadorismo e progressismo, entre a manutenção da ordem e a busca por mudanças.
E EU COM ISSO?
Eu, em 1966 com 12 anos de idade, já 'taludo', morando na rua do Passeio, e tendo amizade com Júlio César de Jesus Guterres Costa e sua família Guterres, que moravam no Caminho da Boiada, em frente à casa do ex-jogador do Sampaio Correa, o zagueiro Rosclim, fui muitas vezes participar do sereno, na porta do Baile de Máscaras do Moisés. Era uma festa indescritível. Agora, se era verdade a história das 'baroas mascaradas', ou não, isso é incomprovado. Porém, de cada 10 taxis que paravam à porta da festa, pelo menos de três, desciam uma ou duas mascaradas solitárias. Meninos, eu vi!
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EM TEMPO:
ITAÉRCIO ROCHA AJUDOU NA ANIMAÇÃO
DO CARNAVAL DE CURITIBA.
O Carnaval de São Luís é tão importante que dá frutos em qualquer lugar deste País. Veja o exemplo de Itaércio Rocha, (D), na foto à direita, que trouxe de São Luís, durante boa parte de sua juventude, todo o 'caquiado' do Carnaval livre da Ilha. Quando chegou a Curitiba em 1996, logo se envolveu com o gênero e transformou, juntamente com um grupo de amigos, o Carnaval de Rua do Paraná, tornando-o, hoje, algo de muita folia nas datas pré-carnavalescas. Itaércio foi do Laborarte e lá ajudou a fomentar a Arte, a Cultura, a Música em geral, época em que muitos dos grandes artistas maranhenses que atualmente são reconhecidos no Brasil inteiro, por lá passaram. Em 2022, Itaércio voltou para S.Luís e hoje continua suas atividades premiadas e encantadoras. Mas, ontem, quarta, dia 07.02.2024, esteve em Curitiba para receber uma homenagem pública da Câmara dos Vereadores da capital por ser um dos criadores do fantástico bloco "Garibaldis e Sacis", que alegra as ruas da capital paranaense, durante os festejos de Momo.
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