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De Jorge Bento, nosso correspondente no Porto, "Do Entrudo ou Carnaval"

"Após a vinda do crepúsculo e pela calada da noite, atirávamos para dentro das casas panelas de barro cheias de água, de cinza, lixo e dejetos malcheirosos". JB

12/02/2024 às 17h44
Por: Mhario Lincoln Fonte: Enviado pelo acadêmico Leopoldo Vaz
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Foto: (Leopoldo Vaz comenta: alguma semelhança com nosso fofão?)

 

Leopoldo Vaz, mermbro da Academia Poética Brasileira, seccional do Maranhão, envia:

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De Jorge Bento, nosso correspondente no Porto, "Do Entrudo ou Carnaval"

 
No nordeste transmontano, na minha infância, usava-se mais o termo ‘entrudo’ do que ‘carnaval’, embora ambos fossem correntes. O ‘entrudo’ (ou ‘entruido’ nalguns locais), oriundo do vocábulo latino ‘introitum’ (entrada), evoca um milenar folguedo galaico-português, realizado nos três dias que precedem o início da quaresma, uma continuação dos festejos solsticiais por volta do dia de Santo Estêvão. Conforme ao dito popular “no entrudo passa tudo”, era uma quadra aberta a excessos transgressores do comedimento habitual durante o resto do ano, porém recorrendo a disfarces, do que são exemplo as diversas figuras do careto. O termo entrou na gíria, sendo aplicado para designar um indivíduo desfigurado: “aquele sujeito tem cara de entrudo” ou “vem ali o entrudo” ou ainda “quem será aquele entrudo?”

 

Jorge Bento.

Na altura consumia-se muita carne de porco. Talvez enraíze aqui o ‘carnaval’, originário da expressão latina ‘carne levare’ (levar ou retirar a carne); não sem razão, porque a partir de terça-feira e durante o período quaresmal a carne saía da frente dos olhos e só podia ser comida mediante o pagamento de bula ao pároco local. Diga-se que a bula perfaz a maior invenção financeira da história. Criada em meados da Idade Média, ela permitiu à Igreja Católica sustentar o fausto das sua obras e costumes. 


Mas… regressemos ao entrudo. Lembro-me bem dele, lá em Bragada. Enquanto o Natal e a Páscoa celebravam o sagrado, o entrudo chocalheiro exaltava o profano. Começava depois do almoço e estendia-se para além do sol posto. Vestíamo-nos com máscaras e roupas estranhas para dificultar a identificação. Saíamos para a rua zoando chocalhos e fazendo travessuras a quem encontrávamos, tais como enfarruscar a cara com farinha e carvão.

Após a vinda do crepúsculo e pela calada da noite, atirávamos para dentro das casas panelas de barro cheias de água, de cinza, lixo e dejetos malcheirosos. Uns mais, outros menos, todos participavam na folia. Constituía uma catarse coletiva ou tentativa de compensação e sublimação do trabalho em demasia e da falta de festa. Os humildes e simples contentavam-se em brincar ao carnaval; ninguém se ofendia e levava a mal.

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