Laura Neres, Psicóloga Geriatra.
Oi meu velho. Quanto tempo, né?
Hoje eu estava pensando em nós e uma coisa me despertou para que eu te escrevesse novamente. Eu sei que faz muito tempo, estive tão imersa em um processo de ajudar o outro, que acabei deixando de lado a minha própria terapia (conversar com você).
Voltando ao assunto, sabe o motivo porquê te escrevo?
Porque eu me sinto sozinha. E acho que você deve saber exatamente do que eu estou falando. Eu não tô falando de uma solidão de quando estamos sozinhos em um cômodo, ou em casa sozinhos.
Uma solidão de dentro, que só a gente entende como é por dentro, qual a cor da solidão, o cheiro que tem, qual a textura, o sabor, a imagem que tem. A minha se parece com uma tela grande, manchada de várias cores em tom neon, vibrante e com uma assinatura embaixo. Exposta em uma exposição de algum artista famoso, em um canto de um salão bem grande, só com uma luz central iluminando a minha solidão.
E é como se a exposição estivesse cheia, mas ninguém ligasse para o quadro no canto com uma só luz. Não tem público, provavelmente, não será exposto novamente em outra cidade.
Como é a sua solidão? Eu gostaria muito que você me escrevesse de volta, contanto cada detalhe da sua solidão.
Agora, eu lembrei da solidão, por incrível que pareça, enquanto eu comia um prato de macarrão com carne moída, sentada em uma mesa de 6 lugares, totalmente vazia, sem nenhum som para tirar meu apetite.
Você já ficou assim?
Eu lembrei de você na mesma hora, peguei um lápis e um papel e estou te escrevendo, o macarrão tá esfriando, mas, tá tudo bem, eu como gelado também. O que importa é que eu pelo menos passei pra te dar um 'oi'.
Acho que temos muita coisa em comum, meu velho. E nem é da solidão que estou falando. Talvez seja algo a mais, você gosta de macarrão?
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