RAIMUNDO FONTENELE ENTREVISTA O POETA KISSYAN CASTRO
O Facetubes é uma espécie de terceiro olho digital que tudo vê. E vendo, revela a todos tanto o que já estava sendo visto, como o escondido. E nessa parceria, sagrada e profana, e agradecendo o convite do seu mentor, o poeta e amigo Mhario Lincoln tenho o prazer de entrevistar um cara pedra noventa: KISSYAN CASTRO. Cara não, um professor, graduado e pós-graduado em Letras, História, Literatura Brasileira. Escritor e pesquisador, 44 anos de idade, natural da bucólica cidade de Barra do Corda, Maranhão, e autor de vários livros. Ah, membro da Academia Barra-Cordense de Letras.
A ENTREVISTA
RAIMUNDO FONTENELE: A gente inicia falando sobre o autor à nossa própria maneira, baseados no que pensamos saber, através da leitura de sua obra, opiniões críticas, síntese biográfica, mas quem mais sabe sobre o entrevistado é ele próprio. Então, Kissyan, quem é você como escritor e como homem? Por que abraçar a literatura com tanto amor, força, despojamento?
KISSYAN CASTRO - Sou um cara tranquilo que ainda consegue ficar perplexo diante do absurdo da vida. Procuro não distanciar tanto o homem, o pai de família, o funcionário público do escritor. Ambos se complementam, se perfazem. A gente almeja um ambiente ideal onde possamos nos entregar com mais liberdade e inteireza ao ato criador, mas nem sempre isso é possível. As solicitações exógenas, as ocupações do cotidiano, esposa, filhos, trabalho, outros projetos, não nos permite essa vivência diuturna e constante com a escritura. Por outro lado, o que é bom saber, essa possibilidade de modo nenhum garante a excelência do resultado. Eu mesmo me atrevo a dizer que, se algum bom poema escrevi, o escrevi em meio à correria do dia a dia, na rua, no hospital, etc., e não no silêncio das madrugadas. O livro “O Estreito de Éden”, por exemplo, eu o escrevi quase totalmente no hospital onde trabalhava, usando o verso dos receituários e fichas de SUS.
Quanto à segunda questão, é a literatura que me abraça, quando bem quer, ora me comprimindo com mais força, ora deixando alguma brechinha para que eu tome fôlego. Já decidi várias vezes parar de escrever, não me envolver mais, cuidar de outras coisas, viver a vida “normal”; passei até dois anos sem escrever nada, mas daí ela – a Arte, a Poesia – aparece novamente, me seduz, e eu caio na conversa kkk. É uma ilusão pensar que se pode sair impune desse negócio. Pelo menos em meu caso, é um abraço irresistível, uma questão de eleição, talvez.
RF- Alguns interlocutores meus, ao saberem que resido agora em Barra do Corda, querem logo saber sobre o massacre dos religiosos pelos índios, um tema polêmico, pois há opiniões divergentes. Ninguém melhor que você para nos contar um pouco dessa história, o que é verdade e o que é lenda, saciar essa curiosidade, que todos temos pelas tragédias…
KC - Alto Alegre, em Barra do Corda, foi o palco de uma das cenas mais sangrentas e traumáticas do Maranhão, depois da Balaiada, e que jamais será apagada do consciente coletivo das partes envolvidas. É um assunto controverso, delicado e impossível de abarcar em poucas linhas. Embora um verdadeiro “massacre” tenha ocorrido em 13 de março de 1901, esse termo, pelo desconforto causado, não mais é usado, preferindo-se “conflito”. O episódio tem sido discutido sob vários aspectos, prevalecendo ainda, infelizmente, a ótica do europeu colonizador, que veio arrancar o “selvagem” aborígene das trevas do paganismo elevando-o à “civilização”, e, como paga, fora barbaramente “martirizado”. Mas pouco se fala dos erros metodológicos dos missionários Capuchinhos, a agressividade com que impunham a sua cultura, considerada superior, em detrimento da cultura milenar dos povos indígenas. Ninguém leva em conta que esse trágico episódio não foi um acontecimento isolado, mas cumulativo, e que alcançou um ponto crítico que não puderam discernir. Ninguém se lembrou do que fora vítima esse povo nas primeiras décadas da fundação de Barra do Corda, de como foram escravizados, submetidos a torturas em pelourinhos, das carnes podres e vísceras de galinhas com que eram alimentados. Ninguém se lembrou de como eles reagiram diante desse tratamento desumano, em 1860, com várias mortes e incêndio de propriedades. Não aprenderam a lição com o que aconteceu à Colônia Dois Braços, anos depois, fruto também de uma catequese agressiva. Mesmo as repetidas advertências de Isaac Martins, através das páginas do jornal “O Norte”, sobre as falhas do método e seus funestos resultados, não foram suficientes para sensibilizar o velho coração de Frei José Maria de Loro, acarretando desgraça. Houvessem levado em conta todo esse histórico passado, e o 13 de março possivelmente não teria existido.
O “massacre” foi de ambas as partes. Hoje, os Guajajaras estão mais conscientes de sua identidade étnica, adquirindo mais conhecimentos através do estudo, da formação técnica e acadêmica, galgando posições na sociedade, integrando-a e interagindo, de forma natural, sem os dispositivos religiosos. Uma releitura dessa triste página da nossa história se faz necessária, onde Cauiré Imana, o cacique João Caboré, não seja mais tratado como o “carrasco”, mas como o herói, o guardião e defensor das antigas tradições do povo Guajajara, história essa ainda por ser escrita.
RF - Barra do Corda é uma pacata cidade histórica, banhada pelos rios Corda e Mearim e que tem grande representatividade na literatura maranhense. Você, como um incansável pesquisador das coisas, fatos e história, fale-nos sobre Barra do Corda do ponto de vista literário, quais os nomes a destacar nessa área, e sua experiência como membro da Academia de Letras.
KC - Apesar da significativa contribuição de Barra do Corda para a literatura maranhense e além, pouco ou nada se sabe do legado deixado por esses poetas e escritores. Somente dois nomes remanesceram entre os seus conterrâneos: Maranhão Sobrinho e Olímpio Cruz. O primeiro, sem dúvida, o maior nome de nossas letras, celebrado em vida como o maior poeta simbolista do norte do Brasil. O segundo, indigenista de aguçada sensibilidade, o que melhor soube cantar a alma sertaneja, autor da canção e hino de Barra do Corda. Outros nomes que destacaria, são: Raimundo Nonato Pinheiro, descendente de índios guajajaras, amigo de Maranhão Sobrinho, poeta e bom contista, que no Rio de Janeiro privou da amizade de Cecília Meireles, Gastão Cruls e Ronald de Carvalho; Clodoaldo Cardoso, pela poética subversiva e pessimismo schopenhaueriano que marcou sua temática; Isaac Ferreira, pelo discurso veemente, de sabor irônico; Efren Roland, um talento precoce, cedo arrebatado pela morte; Nicanor Azevedo, trovador, mestre do poemeto; Raimundo Braga Martins, que cometia um soneto como um crime perfeito; Luís Pires, que viveu para a arte até ser consumido pela hanseníase; Edmo Leda, nosso primeiro poeta modernista; Antonio Almeida, o poeta das cores; e Wolney Milhomem, sinergista, talvez nosso último grande poeta.
RF- Entre os teus livros publicados, um deles revelou o pesquisador e historiador que habitava a alma do excelente poeta que és. Falo do livro “Maranhão Sobrinho - O poeta maldito de Atenas”, no qual revelas uma faceta por muitos desconhecida até então. Sabia-se de Maranhão Sobrinho como um dos principais simbolistas brasileiros, mas não desse aspecto um tanto trágico que foi sua vida. Como nem todos os leitores do Facetubes leram teu livro, discorra um pouco sobre o poeta.
KC - Um dos principais nomes do simbolismo brasileiro, ao lado de Cruz e Sousa e Alphonsus Guimarães, Maranhão Sobrinho, nascido em Barra do Corda/MA, em 1879, lançou três livros em vida: Papéis Velhos, Estatuetas e Vitórias-Régias. Sua boêmia teve início precoce: contava apenas sete anos de idade; aos quinze, uma frustração amorosa; aos vinte, deixa definitivamente Barra do Corda e sua família para nunca mais voltar; saiu com destino ao Rio de Janeiro para estudar engenharia na Escola Militar, mas acaba se instalando na casa comercial Maia, Sobrinhos & Cia., em São Luís, onde destrói toda a sua produção poética e passa a escrever poemas de cunho simbolista, ressonâncias de leituras dos poetas franceses Mallarmé, Baudelaire e Rimbaud; ingressa na Oficina dos Novos por indicação do contista João Quadros, com quem se desentende depois; compõe sonetos magistrais como moeda de troca para sustentar a boemia; transfere-se para Belém do Pará, cria um jornal político de oposição, que é em seguida empastelado; pressionado, vê-se obrigado a fugir para Manaus, onde trabalha como jornalista, envolve-se em escândalos e tramas políticas, em que acaba agredido e preso; passa seus últimos dias isolado num casebre de barro, num bairro afastado de Manaus, onde escreve seus últimos livros de poemas, uma novela e traduz obras consagradas; morre paupérrimo no natal de 1915. Em pouquíssimas linhas, essa foi a vita breves desse incrível poeta barra-cordense, que apesar de tudo vivia conformado e sempre contente; amava a liberdade, abominava regras e convenções. Quando as coisas pareciam se transformar em rotina, abandonava e tentava outra coisa; nunca aceitou trabalhos burocráticos por essa razão. Até um provável casamento em que se meteu, não foi muito além da lua de mel. Sonhava morrer aos 40, morreu aos 36. Se pudesse voltar dos mortos, viveria tudo de novo.
5 - Nunca tivemos entre nós tantos especialistas em tudo e que respondem e falam sobre o que nada sabem. O que nos resta então? Falar sobre arte, apenas. Penso que a Poesia é a síntese de todas artes, até porque no princípio era o verbo. Coloco ao seu lado, a Música e a Pintura. Como você vê a arte poética nos dias atuais? Que autores, poetas podem ainda fazer a nossa cabeça? Ou já foi dito tudo?
KC - Poeta, essa pergunta é muito pertinente. Fez-me lembrar uma frase de Pound, mais ou menos assim: “Não reproduzas em versos o que já foi dito em boa prosa”. É difícil dar o primeiro passo – falo em termos literários – sem aquela estranha sensação de estar pisando solo alheio, já explorado e exaurido. A geração atual não se caracteriza, como em épocas anteriores, pela inauguração estética, pelo vanguardismo. Isso para ficarmos apenas no restrito território da literatura. Hoje se atira para todos os lados, sem ater-se necessariamente à masmorra de uma forma fixa. Além do que, a época em que vivemos não nos permite bitolar-se sem o risco constante de sermos taxados de retrógrados, enquanto ficamos boquiabertos vendo o mundo transformar-se com tanta rapidez. Não há mais “vagas” para se desbravar ou inaugurar. O acúmulo de gerações e seus legados dificulta naturalmente a originalidade, porém não incorre em impossibilidade criadora, demiúrgica, apenas evidencia o legítimo artista. Aliás, o que verdadeiramente importa é a boa prosa, o bom poema, seja ele moderno, pós-moderno, ultramoderno, o que for. O caminho pode ser o mesmo, mas já são outros os pés que o trilham, como outra é a carga de experiências sobre os ombros. As idiossincrasias fazem toda a diferença quando nos arriscamos a escrever escritura sobre escritura, vez que somente o verdadeiro artista terá os recursos para, no dizer de Schopenhauer, colocar sabor até a uma velha sola de sapato; somente o bom poeta saberá iluminar os lugares-comuns.
Não conheço a produção poética de todos os que têm se empenhado nesse ofício em nosso Estado, mas sobre os que tenho tido a oportunidade de ler, minha modesta opinião é que o cenário poético contemporâneo é bastante promissor. Muita coisa boa tem surgido. Entre os poetas maranhenses vivos que podem ainda “fazer a nossa cabeça”, como disse, destaco Salgado Maranhão, Luís Augusto Cassas, Fernando Abreu, Josoaldo Lima Rego, Ricardo Leão, Antonio Aílton, Bioque Mesito, Paulo Rodrigues, Luiza Cantanhede, Neurivan Sousa, Wybson Carvalho, Ricardo Nonato, Félix Alberto Lima, Luciana Martins, Viriato Gaspar, Raimundo Fontenele, e tantos outros que, por ainda não os ter lido, não posso emitir opinião.
RF- Considero o título do teu livro "Vau do Jaboque" um precioso achado, embora não saiba o que signifique. Fale um pouco deste e de seus outros livros, e o que vem pela frente. Com a autoridade de quem é autor do ousadíssimo e desbravador poema "A Cama em Branco" do livro Pássaros Lacunares, qual o conselho aos jovens escritores que pretendem voar tão alto como tens feito?
KC - “Vau do Jaboque” foi meus primeiros arranhões à superfície do poema. O título faz alusão ao local onde, na história bíblica, ocorreu uma mudança drástica na vida de Jacó, um divisor de águas. Tomei de empréstimo como simbolizando o que a poesia efetuou em minha vida, dando-me direção, eu que antes fui um moleque de rua, delinquente, que andava sempre com uma faca na cintura, causando distúrbios à sociedade. “Vau” foi o primeiro publicado, mas o primeiro a ser escrito foi outro, publicado em seguida: o “Bodas de Pedra”, que considero efetivamente meu livro de estreia. Deixei-o para depois por causa da suposta “iconoclastia e agressividade imagética” de alguns poemas em face de meus escrúpulos “religiosos”, superados depois, quando passei a aceitar e participar do meu testemunho poético. Para não me alongar demais, destaco ainda os dois últimos livros de poemas – O Estreito de Éden e Pássaros Lacunares, o primeiro vai na mesma pegada do “Bodas”, aprofundando-se em suas temáticas e indagações; o último, procura conciliar contenção verbal, densidade imagética e comunicabilidade, tornado a linguagem ao mesmo tempo precisa e acessível. Atualmente, estou com um novo livro de poemas em processo de finalização.
Àqueles que pretendem se aventurar nos voos da poesia, digo que o façam com seriedade, mesmo que depois descubram que não dão para a coisa; que leiam bons poetas, do passado e do presente, brasileiros e estrangeiros, mesmo que ninguém jamais leia os seus próprios versos; leiam, mas com distanciamento, amando e refletindo sobre a linguagem, para que ao mesmo tempo em que vão desenvolvendo a consciência do fazer poético, munindo-se de rico instrumental, não acabem por imitá-los. A poesia é também um fenômeno de leitura. A rejeição desse expediente tem gerado uma multidão de poetas anêmicos, de limitados recursos, que de outra forma poderiam melhor contribuir com sua arte.
Vídeo-Bônus
Dois poemas declamados pelo Kissyan Castro
SETEMBRO SETEMBRO AMARELO: “ATENÇÃO! SINAL AMARELO”
MUNDO NOVO “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Mohana e Cassas “PLENITUDE HUMANA”: O LIVRO EM QUE JOÃO MOHANA COLOCOU O HOMEM DIANTE DE SI MESMO
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EXCLUSIVO A CURIOSIDADE “MATA”. MAS, ANTES, DIVERTE — E ENSINA
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Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Coronel Carlos Furtado FALMA: unidos, conquistamos espaço para a literatura maranhense
José Neres “OBRAS LITERÁR(IA)S?”, crônica do professor e membro APB-MA, José Neres.
Academias Brasil/Exterior Coirmãs JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”