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Brasil Carnaval Literário

E se as Escolas de Samba fossem sempre assim: relicários de incentivo à literatura nacional?

Mhario Lincoln é presidente da Academia Poéticas Brasileira e editor-sênior da Plataforma do Facetubes.

26/02/2024 16h14 Atualizada há 3 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
Carro alegórico na Sapucaí (Salgueiro/Divulgação).
Carro alegórico na Sapucaí (Salgueiro/Divulgação).

 


*Mhario Lincoln

Considerações literárias, sem nenhuma conotação ideológica ou política.

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No calor da folia, entre plumas e paetês, algo inusitado se destacou neste Carnaval carioca, transformando a avenida num palco de reflexão e cultura. Para minha grata surpresa, algumas das escolas de samba do grupo especial elegeram a literatura nacional como musa inspiradora de seus sambas-enredo. Foi um espetáculo que transcendeu a mera festa, imergindo nos papiros da nossa produção literária.


Em meio a este cenário, a 'Portela' trouxe "Um defeito de cor", baseado no romance de Ana Maria Gonçalves. A escola convidou a todos para refletir sobre a história e a resistência das mulheres negras no Brasil, resgatando memórias e questionando o nosso presente. É uma reflexão sobre a história das "negras mães de todos nós". Pela trajetória de uma matriarca negra, a escola narra "a busca pelo sentido" da existência da raça, no Brasil. 


As perguntas que o enredo faz são: "Por que somos? Por que assim fazemos? Por quem lutamos? Em memória do que? Esse fato é tão importante que a autora disse: "Expresso minha satisfação com a escolha da obra, haja vista a importância de popularizar a literatura e suas temáticas através do carnaval". Na mosca, Ana Maria Gonçalves!


A 'Grande Rio', por sua vez, se inspirou no livro "Meu destino é ser onça" de Alberto Mussa, que conta como o animal imponente ajudou a moldar parte importante da identidade artística nacional, como "metáfora viva dos rituais antropofágicos". Celebrou, assim, a riqueza das narrativas míticas dos povos originários, tecendo um grande e aplaudido enredo.


Porém, o que mais me chamou a atenção foi a surpreendente escolha do 'Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro' que levou para a Sapucaí o enredo "Hutukara", inspirado na obra "A Queda do Céu", de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Tal fato merece reconhecimento, haja vista mostrar ao público toda a cosmologia e a luta do povo Yanomami pela sobrevivência física e moral, num evento em que estão focados (boa parte) os olhos do Mundo. Sem dúvida, isso constitui um ato de profunda significância cultural e política, quando o tema se mistura a esse universo tão complexo, além de denunciar as injustiças enfrentadas pelos povos indígenas.

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MHL, autor do texto. (Foto: Veridiana S.).

A figura principal, no momento, dessa luta pelos povos indígenas, especialmente pelos Yanomani, é o xamã Davi Kopenawa. É  sua narrativa, que está no livro de quase 800 páginas, que eu, coincidentemente, lia na ocasião dos feriados de Carnaval. Nele, há um entrelaçamento de sua história pessoal com a cosmovisão Yanomami, oferecendo uma perspectiva singular sobre a interação entre seu povo e o mundo exterior. A obra, meticulosamente dividida em três partes temáticas, conduz o leitor por uma jornada que abrange desde a trajetória inspiradora do xamã, até as devastadoras consequências da invasão de garimpeiros em territórios Yanomami.


Isso porque, as páginas de "A Queda do Céu" não são apenas um relato, mas um clamor por justiça e preservação que ecoa em todos corações de bom senso. A liderança de Kopenawa na defesa dos direitos indígenas, sua denúncia inabalável das atrocidades do garimpo ilegal e a contaminação por mercúrio, são aspectos que ressaltam a urgência de sua mensagem. Basta atentar para esses garimpos ilegais, segundo o livro, "simplesmente devastadores. Assim como no narcotráfico e no colonialismo, a dinâmica do garimpo é sustentada por homens em situações de vulnerabilidade, enquanto os verdadeiros beneficiários, muitas vezes envolvendo políticos influentes, permanecem distantes e protegidos".

 

A contaminação por mercúrio, um metal pesado utilizado no processo de extração de ouro, tem sido identificada em níveis alarmantes, afetando diretamente a saúde dos indígenas. Além disso, o garimpo tem sido associado ao aumento da violência, desmatamento e à disseminação de doenças infectocontagiosas como a malária. Os conflitos resultantes dessas invasões têm levado a mortes e desestruturação social, com relatos de abuso sexual e desvio de medicamentos. A presença dos garimpeiros também interfere na educação, com o fechamento de escolas e atração de jovens indígenas para atividades ilícitas​​.


Em suma, a iniciativa da 'Acadêmicos do Salgueiro' e a obra de Kopenawa e Albert são manifestações decoloniais que desafiam as narrativas dominantes e promovem uma desobediência epistêmica. Ambas merecem aplauso e reflexão, pois trazem à luz a resistência indígena e a necessidade de respeito e justiça para os povos originários do Brasil.

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Parabéns, ainda, a essas agremiações carnavalescas que transformaram a Sapucaí em um relicário de incentivo à literatura nacional, na avenida de sonhos, onde a festa se encontrou com a reflexão; um momento em que a cultura popular abraçou a literatura, promovendo um diálogo frutífero entre diferentes formas de arte e conhecimento. Que esse encontro entre samba e literatura se repita, enriquecendo ainda mais o Carnaval e a cultura, brasileiras.

 

A letra do samba-enredo da Salgueiro:

"É HUTUKARA! O chão de Omama
O breu e a chama, Deus da criação
Xamã no transe de yakoana
Evoca Xapiri, a missão...

HUTUKARA, ê! Sonho e insônia
Grita a Amazônia, antes que desabe
Caço de tacape, danço o ritual
Tenho o sangue que semeia a nação original
Eu aprendi português, a língua do opressor
Pra te provar que meu penar também é sua dor
Falar de amor enquanto a mata chora, (bis)
É luta sem Flecha, da boca pra fora!

Tirania na bateia, militando por quinhão,
E teu povo na plateia, vendo a própria extinção
"Yoasi" que se julga: "família de bem", (bis)
Ouça agora a verdade que não lhe convém:

Você diz lembrar do povo Yanomami em dezenove de abril,
Mas nem sabe o meu nome e sorriu da minha fome,
Quando o medo me partiu
Você quer me ouvir cantar em Yanomami pra postar no seu perfil
Entre aspas e negrito, o meu choro, o meu grito, nem a pau Brasil!
Antes da sua bandeira, meu vermelho deu o tom
Somos parte de quem parte, feito Bruno e Dom
Kopenawas pela terra, nessa guerra sem um cesso,
Não queremos sua "ordem", nem o seu "progresso"


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Em tempo:  os livros citados nos enredos ganharam novos fôlegos comerciais e tiveram crescimento significativo em suas vendas.

 

Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.


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Referências:
"A Queda do Céu – Wikipédia, a enciclopédia livre". Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Queda_do_C%C3%A9u
"“A queda do céu”: o pensar decolonial na obra de Kopenawa Yanomami (1990-2015)". Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/items/05dc39f5-9d3f-447a-a07f-40a0eeb67734

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Maura Luza Frazão Há 3 anos atrásSão Luís - MaVerdade querido amigo poeta Mhário Lincoln. Este ano a Marquês de Sapucaí se transformou em um palco de aprendizado, uma verdadeira celebração a literatura brasileira. Um êxtase para os corações poéticos deste amado Brasil brasileiro. Meus parabéns por mais esta brilhante matéria.
Esmeralda Costa Há 3 anos atrásCampos Sales-CE Que isso perdure com muitos outros gêneros literários. Já vimos com a Literatura de Cordel, agora com genero romance e que venham nos próximos carnavais sambas enredos com a gigantesca variedade de gêneros textuais e obras existentes no Brasil e no mundo. Parabéns, mestre Mhario Linconl pelo seu precioso estudo enfatizando, analisando e divulgando essa temática. Você é fenomenal!
Renata da Silva de BarcelllosHá 3 anos atrásRio de JaneiroFoi excelente iniciar o ano letivo com este contexto da importância da literatura. Levar os alunos a perceber como podemos utilizar as leituras em outros contextos. E a diversidade de gêneros textuais. O romance passa para outras linguagens.
ELOY MELONIO Há 3 anos atrásSão Luís-MA Realmente muito oportuna essa sacada das escolas de samba do Rio de Janeiro,
EDOMIR MARTINS DE OLIVEIRAHá 3 anos atrásSão LuísBelo estudo sobre Carnaval e sua influência em nossa aprendizagem literária. É cultura e quando se vê a letra da música sempre aprendemos muito. Parabéns Presidente da APB.
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