Redação do Facetubes
Gilberto Gil e Salgado Maranhão, são dois expoentes da cultura brasileira. Não faz muito tempo, disputaram a mesma cadeira na Academia Brasileira de Letras, cada um trazendo sua singularidade para o cenário literário e musical do país.
Gilberto Gil, reconhecido por sua poesia encantadora e musicalidade ímpar, agora integra a imortalidade acadêmica, enriquecendo a instituição com sua arte multifacetada.
Salgado Maranhão, por outro lado, também enriqueceria a ABL porque é um poeta cuja obra transita entre a invenção linguística e a musicalidade, com reconhecimento internacional e prêmios como o Jabuti.
Ou seja, nessa foto, tirada durante a conversa dos dois, com a presença de Flora Nair Giordano Gil Moreira, esposa de Gil, na Livraria da Travessa de Ipanema, (Rio), devem ter relembrado o momento em que ambos se conheceram durante uma entrevista que Salgado fez com Gil, logo que o maranhense chegou a cidade maravilhosa, como repórter de um jornal de Teresina-PI.
E claro, o papo se expandiu até a campanha para a vaga na Academia Brasileira de Letras, onde Gil saiu vitorioso. Tudo num padrão de alta camaradagem e civilidade. Afinal, eles representam a riqueza cultural brasileira, cada um com sua voz única e contribuição inestimável à língua portuguesa.
Vale ressaltar que as candidaturas de Gilberto Gil e Salgado Maranhão à ABL representaram um momento significativo de reconhecimento e valorização da diversidade cultural e racial no cenário literário brasileiro. Ambos são artistas afro-brasileiros de grande renome, cujas obras refletem a riqueza e a complexidade da experiência negra no Brasil.
Gilberto Gil, além de ser um dos maiores nomes da música popular brasileira, é também conhecido por sua atuação política e social. Sua eleição foi a valorização de uma obra que transita entre a música, a poesia e a reflexão sobre questões raciais e culturais.
No que concerne a Salgado Maranhão, a ABL inseriria uma voz poética que dialoga profundamente com as questões líricas e sociais, trazendo para o cenário acadêmico uma perspectiva enriquecedora e diversa. Mesmo porque Salgado Maranhão e ícone em diversos moldes literários internacionais. Alexis Levitin, tradutor americano, por exemplo, destaca a inventividade de Maranhão: "Salgado joga com a linguagem, inventa palavras e não aceita as regras gramaticais. Ele tem um instinto musical muito bem desenvolvido". É essa capacidade de reinvenção e musicalidade um traço comum entre Maranhão e Gil, ambos mestres em transformar a língua portuguesa em um palco de experimentações e beleza.
Em rápida conversa telefônica, Maranhão respondeu ao Facetubes, diante dessa foto:
ET: Onde foi o encontro?
Salgado Maranhão: Na Livraria da Travessa de Ipanema, Rio. É sempre muito bom encontrar amigos como Gil e Flora.
ET: O que falar de Gil?
SM: Gilberto Gil foi um grande balizador de caminhos para minha geração. Um modelo para os jovens que, como eu, se envolviam com a consciência da sua condição de negros numa sociedade discricionária. Menos pelo que ele dizia, do que pela postura irreverente como lidava com a própria imagem. Ele é uma figura seminal na música popular brasileira, especialmente nos tumultuados anos 70, período em que sua música e sua postura artística tiveram um impacto significativo na cultura e na sociedade brasileira. Nesse encontro, também comentamos sobre a primeira vez que nos encontramos: eu lhe entrevistei para um jornal de Teresina, em abril de 1973.
ET: Como foi?
SM: A entrevista era para um jornal de Teresina-PI. Uma pauta que me foi gerada por Torquato Neto. Aliás, conheci Torquato Neto lá mesmo, em sua terra natal, Teresina. Nessa época, eu morava na cidade e ele tinha ido visitar seus pais, acho que em 1972. Eu estava acompanhando um jornalista amigo que foi fazer uma reportagem para um jornal local e ele nos recebeu com a melhor cortesia. A partir daquele encontro ficamos próximos e ainda o reencontrei umas duas ou três vezes, quando recebi sugestões preciosas que mudaram minhas escolhas literárias e, em geral, nas artes. Nem meu nome escapou da mudança. Ele me influenciou até mesmo na minha vinda para o Rio de Janeiro (eu ia para Brasília), sugerindo que em Brasília não havia nada além de políticos. E assim o fiz e não me arrependi; o Rio de Janeiro representa, na minha história de vida, meus frutos, enquanto o Maranhão e o Piauí, minhas raízes e meu caule, sucessivamente.
ET: Essa admiração por Gil deve ter gerado admiração igualmente por sua produção musical, já que você também é letrista e tem letras-poemas gravados por uma plêiade de artistas brasileiros, quais músicas destacaria, assim, entre tantas:
SM: Algumas músicas de Gil realmente mudaram o destino da MPB. Posso citar "Aquele Abraço", de 1969, durante o período de exílio, uma música de resistência e saudade do Brasil. "Andar com Fé", de 1982, é um exemplo do sincretismo religioso, presente na obra de Gil. E acredito, "Expresso 2222", lançada em 1972. A música é um marco na carreira de Gil, mostrando sua versatilidade musical e sua capacidade de inovar. A letra fala sobre a busca por liberdade e autenticidade, temas recorrentes em sua obra. enfim, sua obra é um libelo de sua irreverência política, ao nível da estética da música popular de excelência. Ao mesmo tempo que produz arte, instiga ao debate político e comportamental.
ET: E por que a candidatura a ABL?
SM: Sempre me referi a esse objetivo como um sonho de pertencimento há muito acalentado e o caloroso incentivo de alguns membros da Academia Brasileira de Letras.
ET: Sua eleição é uma questão de tempo, haja vista sua imensa carreira com mais de quinze livros, prêmios relevantes, entre os quais o Jabuti – duas vezes -- e o prestigioso Prêmio de Poesia da ABL, de 2011.
SM: Uma coisa eu não nego. Esse fato povoa meu imaginário desde a minha adolescência nordestina, quando num gesto de ousadia juvenil, firmei correspondência com meus conterrâneos Josué Montello e Odylo Costa, filho.
ET: E seus dias de ontem, hoje e sempre?
SM: (Risos). Tenho atravessado essas últimas quatro décadas inteiramente dedicado à poesia e à convivência com os meus pares. E, de certa forma, muito bem. Eu disse certa vez, "...não morro pela essência morro de essência".
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